A senhora x
levantou-se, ouvindo o mesmo relógio dos outros dias. Apesar de ser sábado era
como se um ritmo antigo, um misto de relógio de sol, estrelas e lua, demasiado
antigo para ser alterado lhe falasse ao ouvido dizendo que era tempo de retomar
o movimento do corpo. As molas do colchão, com a memória de antigas batalhas,
ecoaram nas paredes, resvalaram no terço de cortiça e abafaram-se no cortinado
desbotado. Tacteou as pantufas, meteu os ombros dentro do robe e abriu a porta
da cozinha. O malhado, companheiro felino, ronronou mas não desviou os olhos
abertos sobre o parapeito que esperavam o sol. Aqueceu o resto do café com
leite da véspera e antes de pôr a dentadura amoleceu o pedaço de pão para
enganar a fome. As janelas do prédio em frente estavam ainda tomadas pela
sombra, a roupa nos estendais fazia lembrar um desfile de veleiros engalanados.
Nos vidros escorriam gotas de orvalho que daí a pouco o calor do sol haveria de
lamber. A casa estava fria. De forma mais precisa: silenciosa e fria, como se uma
qualidade não pudesse existir sem a outra. A casa de banho estava, havia muito,
a pedir umas pinceladas para esconder o caruncho recorrente. A torneira jorrou
água fria em abundância e a concha das mãos levou-a aos olhos. A saia azul escura,
já fora mais escura, agora ganhava um luzido herdado do uso repetido. As meias
de vidro cobriam-lhe as varizes e faziam sobressair o vinco dos ossos. O
soutien apertava-lhe o peito e a alma e simulavam uma orografia há muito
perdida. A escova do cabelo descia repetidamente até aos ombros, numa espécie
de ritmo encantatório. Brancos e cada vez menos eram os cabelos que via no
espelho e estes enquadravam as rugas que não só a idade mas o trabalho e o
sofrimento tinham esculpido impiedosamente. Doeram-lhe os pés quando tentou
enganá-los com os sapatos que a dona Teresa lhe havia dado. Mas eram uns
sapatos bonitos, com dois botões de cada lado e com o espaço para os joanetes
já moldado. Talvez a cor creme não ficasse muito bem com a mala verde que
comprara nos chineses, mas não se podia dar ao luxo de recusar oferendas. Até
porque a dona Teresa lhe dissera que aqueles sapatos tinham custado uma fortuna
há cinco anos atrás. E a cavalo dado não se olha o dente, sobretudo se não vier
descalço. Desceu as escadas e entrou na rua. Eram poucas as pessoas que
arriscavam começar a viver tão cedo ao sábado e os que o faziam era quase todos
seus conhecidos. O Francisco, o leiteiro, a Mariana que fazia a limpeza no
teatro Morgado, a D. Iria que vinha passear os dois cachorros e mais uns quantos
sem rosto, porque não lhes sabia o nome. Caminhou do lado esquerdo da rua,
evitando os carros que escondiam o passeio, contornou o miradouro da penitência
e entreviu os telhados das casas rompendo a neblina. Estavam duas pessoas na
paragem do eléctrico. A senhora Garcês, das poucas que antes de si já usavam
aquele eléctrico e que era pessoa de poucas falas, sobretudo desde que ficara
viúva, embora não recusasse e retribuísse a saudação matinal, e um senhor de
meia idade que nunca vira por aquelas bandas. Era um homem de bom porte, fato
de fazenda, mala de cabedal na mão direita, e um chapéu como aqueles que usavam
os gangsters. Fumava com os dois dedos da mão esquerda muito hirtos e lançava
grandes baforadas de fumo que subiam primeiro numa espiral certinha e logo que
era apanhado pelo vento se diluía quase que por magia. O eléctrico não demorou.
Sentou-se no banco da frente, logo atrás do guarda-freio e passado pouco tempo
já estava a cabecear. Ninguém lhe roubava pelo menos cinco minutos de sono no
eléctrico. Eram estes cinco minutos, achava ela, que lhe serviam para fazer as
pazes com a vida. Abriu as portas do prédio. Um prédio antigo com grandes
portadas e umas escadas de madeira quase tão gastas quanto íngremes. Sentiu a
respiração mais forte e o coração mais vigoroso na batida. Apoiou-se no
corrimão e continuou a subir até ao terceiro andar. Cheirava a mofo na escadas.
Talvez fosse da humidade que nos dias de mais chuva escorria da clarabóia para
as paredes e que alimentava assim lentamente a degradação dos degraus de
madeira mais que centenária. O escritório que todos dias limpava, à excepção de
domingo, era de uma empresa de transportes. O senhor Antunes, o patrão velho,
era uma pessoa austera mas simpática, já o filho, o doutor Rodrigo, era arrogante
e tratava todos os empregados pouco melhor que escravos. Ainda bem que ela
quase o não via. Também quando o via, mesmo que se cruzasse com ele, nunca foi
capaz de um simples bom dia ou boa tarde, era como se ela fosse transparente,
ou tão insignificante que nem de uma simples palavra de saudação fosse
merecedora. Chegou a rogar-lhe uma praga quando o ouviu despedir aos insultos o
Américo que já lá trabalhava há mais de dez anos. Não sabia contudo se a praga
se havia consumado ou não. Não tinha tido o prazer de o ver agarrado à barriga
a uivar como os cães por querer e não conseguir aliviar a natureza. Mas deus
não dorme, era o que sempre dizia. Este era o lema que aplicava sempre que
presenciava qualquer forma de injustiça. Embora muitas vezes fosse obrigada, de
forma pouco católica, a admitir que ele pode não dormir, mas lá que anda muito
distraído, lá isso anda e ninguém tem dúvidas. Limpou tudo com o cuidado
habitual e sentou-se cinco minutos a olhar pela janela enquanto recuperava o
fôlego. Fechou a porta à chave e desceu as escadas cada vez mais íngremes.
Começou a caminhar sem destino certo. Ninguém, a não ser o malhado, esperava
por ela, por isso podia-se dar ao luxo de caminhar e olhar as montras com o
detalhe de quem um dia talvez venha a comprar tudo que aí está exposto. Havia
agora mais gente na cidade, gente apressada, gente distraída, gente que já não
é gente, e até polícias. Do outro lado do largo viu o supermercado a abrir as
portas. Pensou no que precisava de comprar se tivesse dinheiro. Era, aliás, um
exercício repetido para não perder o conhecimento das coisas que é possível
comprar; fazia mesmo visitas a esses lugares, como se se tratasse de uma visita
de estudo. E foi isso que lhe apeteceu fazer nesse preciso momento. Atravessou
por entre os pombos que esticavam e encolhiam as asas como se as quisessem
treinar para voos mais altos, olhou a gente que já quase não é gente, que
dormia aos pés da estátua e contornou a carripana do almeida que varria pérolas
de pó, pois abanava a vassoura acima da cabeça. Entrou no supermercado. Longas
avenidas de cor. Tanta coisa a luzir pelos corredores. Percorreu demoradamente
com um cesto teimando em estar vazio as estantes onde outros gulosamente
retiravam o desejo e não a necessidade. Às vezes chegava a rir da gula dos que
por ali passeavam: um carro apinhado, às vezes mesmo dois carros, e não se
tratava de nenhum comandante a comprar comida para um batalhão. Eram pessoas
que se tratam da melancolia nas compras... O supermercado começava agora a
fervilhar de vida. Era a altura ideal para a sua visita favorita. Abeirou-se do
longo corrimão de cosméticos e como alguém com grande entendimento na matéria
olhou demoradamente o frasco, fingiu ler o rótulo, agitou para ver a limpidez e
a robustez da cor, e, enquanto um olhar lateral a protegia dos olhares avaros, aspergiu demoradamente o peito gasto e suado. Deu dois passos laterais e, com a
mesma sequência de gestos, aspergiu outro com a mesma veemência, um terceiro, possivelmente um quarto e talvez no fim tenha mesmo conseguido afogar
perfumadamente a solidão. Isso já não sei, porque aquilo que narrador viu, com
os olhos e não com a imaginação, foi a senhora x no supermercado numa manhã de
sábado, visitando um a um os perfumes expostos, tudo o resto é ficção, menos o
desejo que a alma lhe tenha ficado, mercê esse gesto, também ela mais aconchegada e perfumada.sexta-feira, fevereiro 01, 2019
A senhora x
A senhora x
levantou-se, ouvindo o mesmo relógio dos outros dias. Apesar de ser sábado era
como se um ritmo antigo, um misto de relógio de sol, estrelas e lua, demasiado
antigo para ser alterado lhe falasse ao ouvido dizendo que era tempo de retomar
o movimento do corpo. As molas do colchão, com a memória de antigas batalhas,
ecoaram nas paredes, resvalaram no terço de cortiça e abafaram-se no cortinado
desbotado. Tacteou as pantufas, meteu os ombros dentro do robe e abriu a porta
da cozinha. O malhado, companheiro felino, ronronou mas não desviou os olhos
abertos sobre o parapeito que esperavam o sol. Aqueceu o resto do café com
leite da véspera e antes de pôr a dentadura amoleceu o pedaço de pão para
enganar a fome. As janelas do prédio em frente estavam ainda tomadas pela
sombra, a roupa nos estendais fazia lembrar um desfile de veleiros engalanados.
Nos vidros escorriam gotas de orvalho que daí a pouco o calor do sol haveria de
lamber. A casa estava fria. De forma mais precisa: silenciosa e fria, como se uma
qualidade não pudesse existir sem a outra. A casa de banho estava, havia muito,
a pedir umas pinceladas para esconder o caruncho recorrente. A torneira jorrou
água fria em abundância e a concha das mãos levou-a aos olhos. A saia azul escura,
já fora mais escura, agora ganhava um luzido herdado do uso repetido. As meias
de vidro cobriam-lhe as varizes e faziam sobressair o vinco dos ossos. O
soutien apertava-lhe o peito e a alma e simulavam uma orografia há muito
perdida. A escova do cabelo descia repetidamente até aos ombros, numa espécie
de ritmo encantatório. Brancos e cada vez menos eram os cabelos que via no
espelho e estes enquadravam as rugas que não só a idade mas o trabalho e o
sofrimento tinham esculpido impiedosamente. Doeram-lhe os pés quando tentou
enganá-los com os sapatos que a dona Teresa lhe havia dado. Mas eram uns
sapatos bonitos, com dois botões de cada lado e com o espaço para os joanetes
já moldado. Talvez a cor creme não ficasse muito bem com a mala verde que
comprara nos chineses, mas não se podia dar ao luxo de recusar oferendas. Até
porque a dona Teresa lhe dissera que aqueles sapatos tinham custado uma fortuna
há cinco anos atrás. E a cavalo dado não se olha o dente, sobretudo se não vier
descalço. Desceu as escadas e entrou na rua. Eram poucas as pessoas que
arriscavam começar a viver tão cedo ao sábado e os que o faziam era quase todos
seus conhecidos. O Francisco, o leiteiro, a Mariana que fazia a limpeza no
teatro Morgado, a D. Iria que vinha passear os dois cachorros e mais uns quantos
sem rosto, porque não lhes sabia o nome. Caminhou do lado esquerdo da rua,
evitando os carros que escondiam o passeio, contornou o miradouro da penitência
e entreviu os telhados das casas rompendo a neblina. Estavam duas pessoas na
paragem do eléctrico. A senhora Garcês, das poucas que antes de si já usavam
aquele eléctrico e que era pessoa de poucas falas, sobretudo desde que ficara
viúva, embora não recusasse e retribuísse a saudação matinal, e um senhor de
meia idade que nunca vira por aquelas bandas. Era um homem de bom porte, fato
de fazenda, mala de cabedal na mão direita, e um chapéu como aqueles que usavam
os gangsters. Fumava com os dois dedos da mão esquerda muito hirtos e lançava
grandes baforadas de fumo que subiam primeiro numa espiral certinha e logo que
era apanhado pelo vento se diluía quase que por magia. O eléctrico não demorou.
Sentou-se no banco da frente, logo atrás do guarda-freio e passado pouco tempo
já estava a cabecear. Ninguém lhe roubava pelo menos cinco minutos de sono no
eléctrico. Eram estes cinco minutos, achava ela, que lhe serviam para fazer as
pazes com a vida. Abriu as portas do prédio. Um prédio antigo com grandes
portadas e umas escadas de madeira quase tão gastas quanto íngremes. Sentiu a
respiração mais forte e o coração mais vigoroso na batida. Apoiou-se no
corrimão e continuou a subir até ao terceiro andar. Cheirava a mofo na escadas.
Talvez fosse da humidade que nos dias de mais chuva escorria da clarabóia para
as paredes e que alimentava assim lentamente a degradação dos degraus de
madeira mais que centenária. O escritório que todos dias limpava, à excepção de
domingo, era de uma empresa de transportes. O senhor Antunes, o patrão velho,
era uma pessoa austera mas simpática, já o filho, o doutor Rodrigo, era arrogante
e tratava todos os empregados pouco melhor que escravos. Ainda bem que ela
quase o não via. Também quando o via, mesmo que se cruzasse com ele, nunca foi
capaz de um simples bom dia ou boa tarde, era como se ela fosse transparente,
ou tão insignificante que nem de uma simples palavra de saudação fosse
merecedora. Chegou a rogar-lhe uma praga quando o ouviu despedir aos insultos o
Américo que já lá trabalhava há mais de dez anos. Não sabia contudo se a praga
se havia consumado ou não. Não tinha tido o prazer de o ver agarrado à barriga
a uivar como os cães por querer e não conseguir aliviar a natureza. Mas deus
não dorme, era o que sempre dizia. Este era o lema que aplicava sempre que
presenciava qualquer forma de injustiça. Embora muitas vezes fosse obrigada, de
forma pouco católica, a admitir que ele pode não dormir, mas lá que anda muito
distraído, lá isso anda e ninguém tem dúvidas. Limpou tudo com o cuidado
habitual e sentou-se cinco minutos a olhar pela janela enquanto recuperava o
fôlego. Fechou a porta à chave e desceu as escadas cada vez mais íngremes.
Começou a caminhar sem destino certo. Ninguém, a não ser o malhado, esperava
por ela, por isso podia-se dar ao luxo de caminhar e olhar as montras com o
detalhe de quem um dia talvez venha a comprar tudo que aí está exposto. Havia
agora mais gente na cidade, gente apressada, gente distraída, gente que já não
é gente, e até polícias. Do outro lado do largo viu o supermercado a abrir as
portas. Pensou no que precisava de comprar se tivesse dinheiro. Era, aliás, um
exercício repetido para não perder o conhecimento das coisas que é possível
comprar; fazia mesmo visitas a esses lugares, como se se tratasse de uma visita
de estudo. E foi isso que lhe apeteceu fazer nesse preciso momento. Atravessou
por entre os pombos que esticavam e encolhiam as asas como se as quisessem
treinar para voos mais altos, olhou a gente que já quase não é gente, que
dormia aos pés da estátua e contornou a carripana do almeida que varria pérolas
de pó, pois abanava a vassoura acima da cabeça. Entrou no supermercado. Longas
avenidas de cor. Tanta coisa a luzir pelos corredores. Percorreu demoradamente
com um cesto teimando em estar vazio as estantes onde outros gulosamente
retiravam o desejo e não a necessidade. Às vezes chegava a rir da gula dos que
por ali passeavam: um carro apinhado, às vezes mesmo dois carros, e não se
tratava de nenhum comandante a comprar comida para um batalhão. Eram pessoas
que se tratam da melancolia nas compras... O supermercado começava agora a
fervilhar de vida. Era a altura ideal para a sua visita favorita. Abeirou-se do
longo corrimão de cosméticos e como alguém com grande entendimento na matéria
olhou demoradamente o frasco, fingiu ler o rótulo, agitou para ver a limpidez e
a robustez da cor, e, enquanto um olhar lateral a protegia dos olhares avaros, aspergiu demoradamente o peito gasto e suado. Deu dois passos laterais e, com a
mesma sequência de gestos, aspergiu outro com a mesma veemência, um terceiro, possivelmente um quarto e talvez no fim tenha mesmo conseguido afogar
perfumadamente a solidão. Isso já não sei, porque aquilo que narrador viu, com
os olhos e não com a imaginação, foi a senhora x no supermercado numa manhã de
sábado, visitando um a um os perfumes expostos, tudo o resto é ficção, menos o
desejo que a alma lhe tenha ficado, mercê esse gesto, também ela mais aconchegada e perfumada.terça-feira, janeiro 01, 2019
Amêijoa em tons vermelhos...
Ao fim de incontáveis horas de
balanços, muitos mais do que alguma vez um colo lhes tenha dado, retornam a
terra.
Falam alto,
como se quisessem ouvir-se acima das ondas, desse ruído permanente para ouvidos
que perderam aos poucos a poesia e a música tão do agrado dos visitantes
ocasionais. Não há nomes, apenas designações úteis de modo a não comprometer,
esse é o jogo. E há um gosto, quase infantil, de intimidar, de veladamente
inventar uma vida marginal. A dureza, a virilidade, a masculinidade, é avaliada
pelo confronto com a autoridade, um homem para ser homem tem que ter batido,
ameaçado, ou chamado nomes (mesmo que entre dentes) a um bófia. Só assim merece
ser homem, só assim merece respeito, só assim pode amedrontar os forasteiros
vindos de longe, dos lugares da legalidade, onde habitam os domesticados, os
que nunca insultaram um único bófia que fosse...
Todos
estiveram presos, todos saíram na semana passada, os menos afortunados saíram
ontem. Hoje ganharam duzentos euros, hoje ganharam tanto que talvez possam
comprar uma gaja, uma bebedeira, uma viagem vertiginosa, dificilmente uma
felicidade ancorada.
De cócoras
escolhem as pedras que se entremearam na amêijoa. São negras as pedras e a
amêijoa, são negras as mãos, os rostos, e o sorriso para lá caminha. A vida
aqui é dura e pouco extensa. Contam-se pelos dedos os que passado o meio século
ainda arrastam o aparelho. Este precisa de braços fortes, este alimenta-se de
braços fortes que aos poucos ali vão deixando o músculo e o nervo.
Quando a fibra
já não permite viagem rentável, ficam na praia olhando o rio e o perfil
longínquo da cidade, ajudam a puxar o barco, a carregar um saco para se dizerem
vivos, e partilham as memórias com os que pisam o areal. Há sempre um barco que
precisa de afagos de nova pintura, há sempre uma cerveja que precisa de ser
bebida, há sempre uma conversa que ficou de ontem, e há sempre que arejar o
olhar para o recolher nas tempestades.
Habitualmente
de poucas palavras, mas quando se entusiasmam deixam numa conversa a vida toda.
Dos filhos, das mulheres, das desgraças, dos sonhos, das vitórias, da guerra,
da vida toda nesse lugar, tudo se diz numa vertigem de quem sabe que pode não
haver outra maré e se houver nada nos garante que será propícia a navegações.
O rio corre
para a foz e afaga o ventre prenhe dos pequenos barcos vermelhos. As sombras
dão lugar ao festim de luzes. A cidade deita-se na margem como uma serpente.
Algumas
amêijoas não sabem que esta será a sua última noite morada no rio, amanhã umas
mãos calejadas as separarão das pedras e, por uma estranha magia, as
transmutarão em euros, amores fortes, francos e fátuos e numa interminável gama
de anestésicos em um qualquer porto-bar da Trafaria.
sexta-feira, outubro 19, 2018
manifesto contra o tempo
Esta maneira de consumir o pavio em lume brando, fingindo
que se ilumina alguma coisa, quando, de facto, apenas se consegue ver onde se
coloca o pé seguinte e nem sempre, é uma espécie de tortura. Uma espécie de
imposto diluído a pagar pela vitalidade, pela força, pelo ânimo, pela vontade e
desejo que nos foram preenchendo dias atrás de dias.
Não temo envelhecer. Até porque não é retórica dizer que se
está a envelhecer desde que se nasceu: é um facto! Mas chateia-me esta substituição
da força pela flacidez, da garra pela condescendência, do espírito pronto pela
inércia supostamente contemplativa.
A idade transforma-nos de uma forma indecente, alheia à
nossa vontade. Deixamos de ser senhores de partes do nosso corpo que ganham,
por estas alturas, vontade própria ou, na pior das hipóteses, não respondem
seja qual for a vontade que as provoque. Ocorrem, com uma frequência
desajustada, o mau feitio, a revolta, a ira, e o desejo de fechar os olhos.
Em tempos cuidava, e cuidava mal, cuido eu agora, que
aqueles velhos que demoravam a mover-se, que pareciam um guindaste em
periclitante equilíbrio ameaçando dobrar-se de vez a cada instante, eram
preguiçosos, apenas procuravam chamar a atenção uma vez o charme do vigor já ido… pois, de facto, a injustiça acaba sempre
por ser corrigida, demore o que demorar, e o verdadeiro justiceiro, Anaximandro
dixit, é o tempo.
É verdade que agora
dialogamos com mais partes do corpo: falam as articulações, falam os músculos e
falam muitos terminais sensoriais que nem sequer imaginávamos que existissem.
Em contrapartida, os outros julgam, quem sabe se com razão, que já esgotámos
tudo o que tínhamos a dizer e por isso deixam-nos descansados e absortos com as
nossas novas e demoradas vozes de dentro para dentro.
Mas a idade traz a sabedoria! Oh, que felizes deveríamos
ficar!... Mas quando chega a sabedoria estamos a fazer as malas e, assim sendo,
para que raio nos serve a sabedoria se a viagem das viagens é a mais solitária
de todas? Para sabermos o caminho, para não nos enganarmos no caminho? Pois deixem-nos andar sem norte! A
sabedoria não partilhada não existe, como as obras-primas por publicar não
existem, como o futuro não existe senão quando se faz presente. Trocava, de bom grado, a sabedoria por uns
gémeos mais ágeis, por uma coluna versátil, por uns neurónios em excelente forma eletroquímica e por um
fígado capaz de causar inveja a Baco... Será pedir demasiado?
quinta-feira, agosto 02, 2018
da incerteza...
Eu
nem sempre sei qual será o enredo do próximo momento e, esse facto, ao invés de
me perseguir como uma ameaça, deixa-me a pensar que a liberdade é possível.
Liberdade em pequeno formato, simples constatação de não saber programar à
distância, péssimo gestor do tempo, outra forma de ser veleiro…
Tudo
o que se possa dizer a propósito do modo como cada um faz a gestão do seu tempo
é aceitável. Sei que há aqueles que temem um segundo de vazio como os beatos
temem o mais pueril dos pecados, ambos sofrem terrível e irremediavelmente essa
queda no abismo. Mas há outros que navegam sem carta, ou o moderno gps. Hesito
em chamar-lhes aventureiros, embora também estes caibam nesta secção, e por
isso chamo-lhes apenas espetadores pacientes. Sabem que por mais tarde que
cheguem haverá sempre um lugar para eles e, mesmo que o lugar não seja o
melhor, isso não significa que a cena de entrada que perderam roube a magia do
filme ou que aquilo que não viram não possa ser imaginado com vantagens e deslumbramentos
que o realizador sequer sonhou.
Também
não tenho muitas certezas, embora oiça amiúde dizer que a idade nos traz
certezas. Pois, a mim, a idade traz-me tempo e pouco ou nada de certezas… Claro
que fica bem aos olhos dos outro, e à composição da nossa autoimagem, afirmar sem
um átimo de hesitação que ter certezas, ter fixado respostas definitivas, é uma
prova de maturidade, mas… e as dúvidas que ficaram instaladas nos bastidores, e
a sombra sinistra que tira o resplendor que tal solar afirmação aparentemente
transporta? Frequentemente me lembro do outro que tinha amigos que nunca tinham
levado porrada, apenas ele parecia ter nascido para saco de boxe, e sei que há
muitos amigos assim, gente forte, robusta, superior e que nunca, nunca por
nunca ser, se deixa cair, se deixa enrolar como uma serpente ferida de morte no
último abraço…
Dizem-nos
coisas ao longo da vida, dizem-nos o que já lhes disseram, e se hesitamos em
continuar essa cadeia de comunicação, essa veia aorta da tradição, desmerecemos
da confiança e não somos mais do que um ruído incómodo para a paz e tranquilidade
das boas consciências que urge silenciar. Depois há os corajosos, há os
cobardes e há aqueles que têm dias, sobretudo se há público para alimentar a
vaidade… Pois eu também sou daqueles que leva porrada, e talvez seja daqueles
que mais porrada dá a si próprio. Não nasci para grandes empreitadas, não nasci
para subir muitos evarestes, não nasci para inclinar a terra, não nasci para
conduzir os povos, mas também não nasci para me embebedar solitariamente. Nasci
para me embebedar de imenso, como dizia o poeta, e isso pode parecer uma
extrema ousadia, para os que se embebedam apenas com álcool ou com o ódio ao
que não é costume.
É
possível que a haja um jogo, que cada um joga à sua maneira, entre a vida e a
morte. Entramos em campo precocemente, dotados de muito poucas habilidades, e
vamos ganhando tempo. Tempo é o prémio. Cada vez que sobrevivemos a mais um luar
de insónia, a mais uma paixão em fim de festa, à perda daqueles que respiraram
perto das nossas mãos quando as apertaram, ao desaparecimento dos lugares onde
escondemos sementes para um dia virem à luz, ao ódio merecido porque fomos
crápulas quando podíamos não ter sido, ganhamos tempo. Mas, como nos modernos
jogos da era digital, vamos perdendo vidas atrás de vidas, ou como na biologia
vamos acumulando lixo nas células e somos cada vez mais incapazes de usar o
tempo para fazer a higiene necessária. Envelhecer pode ser, então, sinónimo de
fazer mau uso do tempo, de não ter tanto domínio sobre a pilha de segundos que
se acumulam e que pode agora ruir, apenas porque me esqueci de fechar a porta e
a corrente de ar os fez estatelar num chão que é duro de mais para que os
segundos caiam confortavelmente, como antes acontecia.
Não tenho a certeza...
domingo, abril 01, 2018
o cavalete
Theo devia ser um irmão muito
especial... Não o deixava morrer à fome, eventualmente suportaria o custo dos
pincéis, tintas e telas e teria sempre disponível uma palavra de conforto nos
tempos de maior desespero.
A família de amigos tem o
privilégio de aceder aos lugares que permitem prolongar a sobrevivência. São uma espécie de aporte
imprescindível de oxigénio quando a apneia se afigura fatal…
Outros há, porém, que nasceram
sozinhos, sem qualquer espécie de irmãos ou amigos que saibam, para além do nome,
dizer palavras que aquietem o desânimo. É verdade que também estes podem ter
história, podem ter deixado marcas na vida dos outros, ter mesmo acreditado, a
espaços, que futuro não é só um tempo verbal.
Não havendo Theo resta-lhes a
fome, o desabrigo, a solidão magra dos dias de incerteza absoluta. Todavia podem
continuar a ser artistas… Todos sabemos que os artistas passam fome, emagrecem
para caberem nos papéis, ou para pesar menos quando morrem. Todos sabemos que
os artistas enlouquecem mais vezes que os humanos vulgaris de lineu e isso
é o preço que a fama lhes cobra. Todos sabemos que os artistas são assessorados
por deuses menores para também eles poderem participar na criação. Todos
sabemos que os artistas ao beber néctar e ambrósia de imediato alucinam porque
se deixam sugestionar por paraísos e palavras esdrúxulas que anestesiam a
língua. Todos sabemos que os artistas são nuvens pouco densas e ainda assim nos
trazem tempestades à alma.
Eu conheço um artista destes. Tem
uma morada com uma vista privilegiada sobre o Tejo, é o primeiro a ouvir o
rumor da ondas brandas, mal a manhã desponta. De noite o cavalete é
privilegiado com o luar total, e o orvalho em parceria com a maresia deixam uma
aguada para uma aguarela a cores suaves. Acenam-lhe dos transatlânticos quando
vagam o Tejo e ele retribui o aceno, passando o pacote de vinho tinto de uma
mão para a outra. Endireita-se para saudar o sol e retoca com a nobreza dos
gestos certos o cartão da barraca por onde toda a noite o vento assobiou fantasias
de uma portada entreaberta…
Mas do lado direito, esperando um
irmão mecenas, o cavalete, decorado a sacos de plástico, espera por todos os
quadros possíveis… Falta-lhe a família e a sorte, mas tem as duas orelhas!
segunda-feira, março 05, 2018
da eternidade possível...
Não olho os dias segundo o
calendário das cores
Perder-me-ia se fosse essa a bússola
dos caminhos
De manhã nada espero para que tudo
seja novidade
Assim tudo me surpreende se quiser fazer
grande o dia
Ou nada me perturba se não quiser somar
tempo ao tempo
Decido no momento a duração de vida
desse momento
Amar muito ou ficar-me pelo assim assim
Insossa figura
Dar tudo como se fosse maior a
vontade do que lugar onde caibo
E fazer artesanalmente a minha
história imprestável de tão única
Acordar é um privilégio dos que
ainda sonham e inspiram
Até que um dia voltemos ao
infindável ciclo do carbono
Que é única eternidade que nos há
de roubar ao tempo
Do que penso, do que sinto, nenhum
átomo sobreviverá
Mas destes ossos que seguram a
caneta brotarão ervas daninhas
E outros alimentos para paleontólogos
curiosos…
quinta-feira, junho 22, 2017
à procura da sombra que acalma
Ao que venho, pergunto-me eu, num sítio que faz eco. Folheio, sem convicção, a memória de curto prazo, mas percebo, ainda assim, que a história é antiga.
Falo-me em demasia. Reclamo, protesto, encanzino-me, e por aí vou noutras direções semelhantes, algumas pouco dignas e outras de gosto duvidoso.
Concluo que a multiplicidade é um atributo muito mais presente e persistente na nossa espécie do que podíamos suspeitar. Nalguns casos chamamos-lhe doença e noutros genialidade, embora a ordem dos fatores possa mudar se as personagens não forem do nosso agrado.
Reflito enquanto caminho à procura de uma sombra. Talvez deva confessar, para não ser acusado de empedernido hipócrita, que a sombra que procuro tem a forma da resposta que acalma. Repetida sombra e repetido caminho.
Vivo, pois, malquisto da sorte, assombrado por dúvidas que ora se esclarecem passado o tempo em que a desgraça devia ocorrer e não ocorre, ora permanecem como uma espécie de padrão a assinalar que saber muito é vedado aos mortais que negam a imortalidade (e aos outros também, só que eles não sabem…).
Para quase tudo (e não digo tudo, só para parecer humilde) o toque da distância, quer espacial quer temporal, mas, sobretudo, temporal, tem a virtude de retirar peso, importância e dramatismo às coisas mais avassaladoras na análise sem intervalo. O presente convoca as dores todas, a incompreensão inteira, o ódio perfeito, a raiva completa, mas também a felicidade absoluta, o deleite sem fim, o zen decisivo. Vistos à distância estes momentos vividos tão intensamente no passado são, na maioria das vezes, tão tocados pela hipermetropia que deveríamos avisadamente duvidar da graduação convocada no imediato e esperar, pacientemente, que os olhos aprendam a focar à distância. A nitidez, dizem-me as experiências desfocadas, precisa de exposições longas e que cessemos de tremer.
Adiar a gratificação que nos chega do prazer imediato ou obrigar o sofrimento a diluir-se porque agora não tenho tempo nem paciência e sei que a chama intensa se há de consumir como se consomem as memórias, tudo isto se pode tentar e até fica bem na literatura e nos consultórios psiquiátricos. Mas, aqui, nos dias que teimam em ter dentro minutos que se somam em horas, que raio havemos de fazer ao humano que obstinadamente quer viver em continuo? Amestrá-lo como um Adão e uma Eva sem cobiça? Ou dar-lhes uma Eva Herzigová e um George Clooney que lhes anestesiará as dores lhes embotará o espírito e os tornará animais em trabalho de cio permanente? Em última análise, poderemos sempre recorrer à criogenia e esperar o apuramento da raça, que não chova quando partimos as últimas varetas e que não morra ninguém de fome enquanto jantamos…
Despreocupada corre a brisa com toques de verbena, voa a borboleta seguindo o eclipse por detrás de cada árvore, canta o melro em sol menor num apelo para haver mais melros e cresce a erva para que o mar possa ser verde nos lugares em que só se navega para naufragar.
Fico doente dos olhos quando penso e fico doente do que penso quando olho. E o poeta lá continua em bronze esplendidez com odores de absinto e uma enfado irreparável de tanto silêncio.
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Foto af de trabalho de Simona Accattatis
sábado, junho 17, 2017
depois do inverno...
Com o tempo fora perdendo o apetite, a voracidade, o
encantamento, o entendimento da sedução. Ou se sentia e percebia tudo isso,
fazia por esquecer com um encolher dos ombros que, não sendo de derrota, era,
pelo menos, de tréguas prolongadas.
Quando se chega aos cinquenta é difícil não fazer uma
espécie de balanço intermédio. Porque cinquenta é um número redondo e,
sobretudo, porque cinquenta é muito tempo de vida. Na maioria das vezes,
significando muito mais passado do que futuro.
Ela fizera esse balanço. Continuava a fazer esse balanço,
porque já fizera os cinquenta e um e os cinquenta e dois. Um casamento de vinte
e seis anos, dois filhos prontos para voar quase de forma autónoma, uma casa
sem grandes luxos mas suficientemente confortável para não se sentir agredida no
regresso ao fim de cada dia, uma condição económica suficientemente desafogada
para não ter que viver angustiada pela duração dos meses e um emprego
supostamente estável e com poucas notas de escravatura, tudo isso foi objeto de
avaliação e continuava a ser.
Tendo aparentemente tudo o que se assume como essencial na
vida de uma pessoa, questionava-se porque não se sentia realizada, feliz,
completa ou qualquer outra sensação que a deixasse viver os dias, pelo menos
mais dias, com olhos brilhantes.
De manhã, quando se olhava ao espelho, com as últimas gotas
ainda a sulcarem o corpo, sentia que as esculturas do tempo tinham como modelo
as peças mais avantajadas de Moore e isso nem sempre lhe agradava. O rosto que
via trás do seu, emergindo do embaciado vidro, bafejando-lhe pescoço e orelhas,
nem sempre o reconhecia de imediato. Os filhos que, sem voz nem gestos ternos,
comiam manhã cedo para logo desaparecerem, sentia que tinham crescido demais e
talvez o coração se tivesse afundado em demasiado tamanho.
De casa saía todos os dias quase ao cronómetro. Sete minutos
até ao autocarro, vinte e oito, trinta de viagem e mais cinco a seis de passo reservado
até ao café, a um quarteirão do emprego. Embora não a irritasse, não a deixava
particularmente feliz, ver as mesmas caras, ouvir as mesmas vozes e ter que
responder a cumprimentos sem vontade. Sentava-se dez minutos, não mais que
isso, para beber um café e fumar um cigarro imaginário. Quando isso era
possível, escondia-se atrás da coluna e da escada que levava ao primeiro andar
e imaginava fumo e sabor sozinha e podia estar em silêncio. Pelo menos para o
exterior.
No emprego tudo era mecânico. Dá o braço, estica o braço,
aperta, enfia a agulha e suga o sangue. Se se sentir tonto espere um bocadinho
lá fora. Até as palavras eram ditas numa sequência irrepreensivelmente igual,
fosse qual fosse o cliente ou o dia da semana. Escreve etiqueta, cola etiqueta,
guardar num escaparate e chamar o seguinte. Depois, a meio da manhã, correr
para o hospital e iniciar outro turno. Outros dias, começava no hospital e
acabava em casa e toda a jornada era um vazio absoluto. Se lhe perguntassem o
que tinha feito, que contasse um episódio, mesmo que pequeno e usual, nesses
dias não era capaz. Descobria que também as pessoas podem funcionar em piloto
automático. O que lamentava era que isso não lhe desse espaço, tempo, liberdade
para viver em paralelo com a rotina uma espécie de vida.
Perguntava-se, nesse já prolongado balanço, se sempre assim
tinha sido. Se, há muito tempo atrás, tinha saboreado a vida, o companheiro, os
filhos e tinha ficado com os lábios adocicados. Embora a memória fosse difusa
ocorreu-lhe que sim, que lá atrás as coisas que fizeram a sua vida tinham sido
diferentes.
Numa pequena janela do tempo, na sua década de trinta, antes
de ser mãe, lembrava-se de episódios de grande e completa entrega, de deslumbre
amoroso, de jornadas épicas de sexo. De uma ou outra viagem em que, quase em
êxtase, descobriu que as fronteiras não são muros mas portas abertas. Mas até
esses episódios perdiam intensidade e cor a cada nova revisitação. E depois
tudo o resto, a grande amálgama, o caos, a unidimensionalidade.
O homem que a olhava por cima do ombro, num vidro embaciado,
logo pela manhã, eclipsava-se durante os dias e cada vez mais se eclipsava
durante as noites. Ainda bem, dizia de si para si, até representar era uma
tarefa cada vez mais difícil. E quantas vezes representara no passado… Quem é
que nunca representou para sentir menor culpa,
pensava ela para se reconfortar. Quando lhe acontecia não coincidir no
período de sono, olhava-o à procura da antiga ternura, das palavras meigas, dos
tais desafios à animalidade mais humana da entrega, e não conseguia ver. Via
uma coisa roncadora, desprotegida, como tudo o que dorme, e que nem a atraía nem
a repelia, antes instalava a estranheza e a inquietude e doía-lhe por ser
assim.
Na sua década dos trinta aquele homem foi todos os homens.
Depois, começou aos poucos a deixar-se seduzir por outros homens que nunca
conheceu, com quem nunca falou e que nunca suspeitaram da sua existência.
Chegou a levá-los consigo para a cama e a partilhar algumas respirações
ofegantes. Nunca teve coragem para encher a imaginação de carne, ossos e
sangue. Não sabia dizer se era arrependimento que agora sentia ou se alívio.
Apenas sentia confusamente, como sentem as coisas que estão vivas.
Seriam os próximos dez, vinte anos, iguais a estes,
igualmente cheios de coisa nenhuma? Seria este o caminho em que todos os
humanos desembocam, ou seria o seu caso especial e particularmente agudo? Quem
teria guardado o seu fio de Ariane e condenara a deambular sem ver luz nem
saída?
Talvez fosse apenas um momento de crise, embora um momento
um pouco mais dilatado daquilo que costumam ser os momentos, mas que teria o
seu epílogo. Ao mesmo tempo animava-se com a ideia, que já ouvira
repetidamente, que as crises são também, ou podem ser, momentos de
oportunidade, momentos de viragem. Crise não tem que ser sinónimo de tragédia
ou final sem remissão. Estes pensamentos eram uma espécie de analgésico, uma
mezinha contra o infortúnio. Ela tomava-os sem parcimónia, tão incómodas eram
as dores por que passava…
Nos piores períodos, quando recolhia redonda, qual tartaruga
amedrontada, ao centro de si mesma, chegou a pensar que o melhor era
despedir-se, perder-se de vez. E era tão fácil! Mas, paradoxalmente, foi essa
facilidade que a reteve, que a fez abrir a janela, que a levou a respirar de
novo. A facilidade advém da sabedoria ou da ignorância e percebeu que não era sábia
e recusava a ignorância. Quando soubesse porquê e como tinha chegado até ali,
então, sim, tomaria uma decisão sobre o que fazer de si, e não era preciso
saber tudo, decifrar ao pormenor, esmiuçar detalhe por detalhe, não.
Bastava-lhe, pensava agora, um simples vislumbre mas nítido, a marcação do que
fora sombra e podia ser luz, quando parara e devia ter continuado, ou de como a
alegria de viver, seja lá isso o que for, pode reanimar-se em respiração boca a
boca.
Até que um dia, perdeu propositadamente o autocarro,
hipotecando por instantes, que são sempre definitivos, o cronómetro que lhe
geria a vida. A chuva miúda humedecia-lhe os lábios, os cabelos, as mãos e
turvava-lhe as lentes com que via, julgara durante muito tempo, a nitidez do
mundo. Caminhou sem rumo, pelo puro prazer de se deixar ir. A cidade escurecia
dentro da noite. Não atendeu o telemóvel, mas sentiu um prazer pérfido em
ouvi-lo tocar repetidamente. Avenida após avenida, ruas e cruzamentos, calçadas
e escadarias e nada de cansaço, nada de arrependimento.
Os filhos voltaram a falar detalhada e insistentemente, mas
agora é ela que não responde. O marido sente frio e desconsolo sempre que vê a
almofada vazia e procura-a afincadamente noite após noite e apenas a encontra
na memória.
O campo de refugiados na fronteira da Etiópia também tem
pessoas com braços, mas voltou a precisar da habilidade que julgava ter perdido
para encontrar as veias quase secas. Aos poucos voltou a sentir-se útil,
necessária e desejada em dois lugares distanciados por milhares de quilómetros.
Aos poucos voltou a ter trinta anos.
Esperava, pacientemente, que os outros também voltassem a
ter.
sexta-feira, abril 28, 2017
voar como os falcões
A linha de costa perdia-se ao
longe onde o olhar acabava por se render. Apenas as aves polvilhadas com a cor
da espuma emergiam por entre as nuvens. A manhã abria-se à luz, ao sol e ao
anúncio de outro dia. Tudo em repetição rigorosa como nos outros infinitos
dias. O mesmo cheiro húmido complexo de ervas e algas; o mesmo frio cortante a
embater na arriba tão velha quanto o mundo; a mesma música das ondas a
dobrarem-se sobre si próprias, a respirar sal e embalar os viajantes da rebentação.
Embora parecesse uma estátua, a
respiração acabava por o incriminar como gente. Estivera toda a noite a olhar
hipnoticamente para uma pequena luz laranja que subia e descia na cadência da
onda. Sentira frio e os goles de whiskey trataram de remediar tal mal. Sentira
fome e a sandes mal amanhada depressa corrigira tal estado. Mas, tirando a
contemplação dos astros e o ouvir a forma como caem os segundos ao somar o
tempo, nada tinha tirado do mar. O isco, teimosamente, não seduziu nenhum dos
peixes que ele sabia existirem naquela linha de espuma, música minimal e força
bruta repetida.
Debruçado sobre o abismo, os
primeiros raios de claridade souberam-lhe bem, aconchegaram-lhe o corpo. Não
eram tão intensos que chegassem à alma, protegida que esta está por uma
carapaça de palavras e senhas desconhecidas, mas, ainda assim, alertavam-no
para a sua condição de ser vivo.
Três gaivotas planavam a não mais
que cinco metro do seu lugar de pernoita e todas viraram a cabeça
interrogando-se acerca daquela ave estranha que competia com elas em altura e
envergadura.
Recolheu anzol e chumbada e
afeiçoou a cana num saco preto de pano que terminava com um nó que já há muito
desistira de desatar. Bebeu os dois goles de álcool que ainda restavam e
acendeu um cigarro. Pela altura do sol, eram sete horas e quarenta e três
minutos quando mergulhou de sessenta e seis metros de altura. Nos poucos
segundo que voou como um falcão ouviu repetidamente a voz da mulher: “vai, vai
lá à pesca, mas não te atrevas a voltar de mãos vazias!”
Nunca os peixes daquele litoral
tinham visto tão grande e suculento isco. Começaram pelos olhos castanhos…
terça-feira, março 07, 2017
Build sofas, not walls
É nos lugares mais imprevistos e
com as personagens menos esperadas que nos surgem as grandes revelações.
Todos sabemos que a velha Lisboa
é agora, segunda década do século XXI, uma espécie de Babel, onde aportam vozes
e fisionomias que até há bem pouco tempo atrás eram viajantes de outras
latitudes e que só muito esporadicamente por aqui aportavam. A calma, a
hospitalidade e o baixo custo de vida, para o standard da maior parte dos países desenvolvidos, torna a lusa
terra um lugar muito apetecível.
Um simples passeio pelas ruas que
desembocam no rio, ou pela cidade alta, é uma incursão nos compêndios linguísticos
e, ao mesmo tempo, um revisitar daquelas cadernetas de infância onde se colavam
os cromos com povos das diferentes partes do mundo. Do inglês, com e sem
sotaque, passando pelo alemão, francês, italiano, russo, japonês, chinês e,
sobretudo, o castelhano, e mais um sem número de sons e palavras indecifráveis,
tudo se encontra sem ser preciso procurar muito.
Vêem tudo ao pormenor, com e sem
guia; a pé, no afamado 28 ou no infelizmente ruidoso tuk-tuk; parando
demoradamente para descansar os pés das exigentes colinas e, na maior parte dos
casos, para ler com a luz única de Lisboa um romance que sai, deste modo,
inevitavelmente favorecido. Param junto às montras e fotografam as exóticas
comidas: pastéis de nata, peixes e mariscos variados, como quem fotografa
baratas, gafanhotos ou serpentes sem escalpe num mercado de Banguecoque.
Junto ao rio celebram votos e
tiram fotografias de grupo e, alguns, permanecem imóveis, verdadeiramente
hipnotizados, tocados pela magia do Tejo, horas a fio, sem qualquer outra intenção
que não seja guardar para sempre a visão de uma vida.
Nesta Lisboa há também lugar para
os desavindos com o destino, sejam eles lusitanos ou dos que percorrem o mundo,
transpõem fronteiras, à procura do paraíso que, para eles, está sempre mais
além e, cada dia que passa, parece afastar-se mais e mais. Não chega a estar no
horizonte, mas sempre para lá, muito para lá do horizonte, de qualquer
horizonte…
De braço estendido, arrastando uma
muleta e uma perna destroçada; prostrados sobre si próprios num sono que
antecipa um desejo de morte; tocando instrumentos afinados pelos passos
apressados ou interpretando um canto agónico que não há álcool suficiente que
afine; com os filhos no colo que nunca pôde ser abrigo e ternura; estes
humanos, demasiado humanos, são também uma das faces de Lisboa.
Vivendo na miséria, ainda assim
mantém um traço de humanidade que me surpreende: a capacidade de partilha.
Vejo-os, repetidamente, a dividir o que têm, o que conseguem com as esmolas.
Mas, também, são capazes de desenvolver mecanismos apurados de sobrevivência.
No cais das colunas, lugar onde o
Tejo beija de forma mais intensa, repetida e cúmplice a cidade, há meses que
para sobreviver um casal esculpe uma efémera estátua com areia do rio. Começou
por ser um cão, seguindo o modelo do seu próprio cão; passou, posteriormente,
para um sofá onde o dito cão aparece refastelado e, numa última versão, o sofá
com o cão e ainda uma miniatura de um canídeo na frente junto à caixa que
espera pacientemente as moedas que possam cair. A actualidade política está
também presente, com palavras de ordem escritas a vermelho: Build sofas, not walls ou Welcome friends except Donald Trump.
Ora bem, os artistas têm também
que descansar, é a sua parte humana. As moedas ganhas durante o dia deverão
providenciar uma refeição, um lugar de sono e pouco mais. Para ser justo aos
factos, providencia ainda umas cervejas ou uma garrafa de tinto, inteiramente
merecidas, de resto. Assim, cedo, numa manhã morna de um dia feriado, o artista
ainda ausente, a escultura com marcas esparsas das gotas de chuva que caíram
durante a noite, foram a oportunidade imperdível para multiplicar a gente feliz
e a afirmação mais convincente do valor e importância da arte.
Um dos mendigos, daqueles do
braço estendido e da muleta, apropriou-se do território museológico do cais e,
timidamente, sempre em modo de alerta, não fosse o verdadeiro artista sair
subitamente das areias, encostou-se à parede, qual guardião desta esfinge que
se desmoronava, não sem antes colocar a sua caixa de cartão à frente da peça, e
aguentou, tanto tempo quanto lhe foi permitido pelo seu medo, a invasão do
território alheio. Algumas moedas foram caindo, algumas moedas foram sendo
recolhidas e nessa parte da manhã o artista foi o verdadeiro mecenas. Em pouco
tempo o dia ficou ganho e tão lesto quanto a muleta lhe permitiu afastou-se
do lugar do delito.
A meio da manhã com os escultores
ainda ausentes, a efémera obra continuava a ser visitada, registada
fotograficamente, enquadrando o Tejo e a ponte vinte e cinco de Abril, e dando
azo a comentários que oscilavam do espanto à estupefação. Faltava porém o
artista, o curador ou, no mínimo, o vigilante. Mas não faltou durante muito
tempo…
O aguarelista residente no cais
fixou as suas obras, acomodou os seus parcos haveres e sondou rapidamente o
vigor do comércio matutino. Poucos eram os potenciais clientes, pouco interesse
despertavam as suas suaves aguarelas, mas muito interesse despertava o sofá, os
canídeos, as palavras de ordem e o enquadramento.
O sol era pouco e o chapéu podia
ser dispensado para funções mais elevadas e mais altruístas. Aproximou-se e
numa reverência estudada descobriu a cabeça e posou o chapéu na frente da
escultura. Encostou-se ao pilar e não foi preciso esperar muito para que as
moedas fossem caindo de mãos reconhecedoras da grande arte. A musicalidade das
moedas a tocarem umas nas outras deve ser para estes homens o verdadeiro, o
sublime hino à alegria. Sem outra fonte senão esta que brota da boa vontade,
não é difícil perceber esta selecção musical…
Mas se se partilha o que é
exíguo, também se protege a pequena propriedade, e em virtude desse desígnio o
homem da bandeira, que empresta o símbolo nacional a troco de uma moeda,
cuidadoso ao verificar que no chapéu estava uma nota de cinco euros, que podia
levantar voo como se de uma gaivota se tratasse, lesto se apressou a alertar o aguarelista dono
do chapéu que, com rapidez e destreza, a guardou no bolso registador.
Primeiro fora uma caixa de
cartão, agora era um chapéu e logo mais, chegados que fossem os modeladores da
areia, seria um pano, a recolher as migalhas que somadas tornam possível somar
dias.
Acredito que o homem da caixa, o
homem do chapéu, o escultor de areia e, talvez, até, o homem da bandeira,
pertencem todos a uma mesma família e que um cão de areia os guarda e alimenta
a todos, o que vem provar de forma decisiva que o cão, mesmo de areia, continua
a ser o melhor amigo do homem.
domingo, outubro 16, 2016
A música já está feita, o texto está por fazer.
A música já está feita, o texto está por fazer.
Talvez por isso escolhas essa forma de assobiar sobre o vento
Em vez de ousares aparelhar palavras que podem erguer muros e moradas
E deixar vestígios de saliva e tinta seca nas mãos cavas
E que nada apaga ainda que se tornem incómodas tatuagens na memória.
É fácil, é até sedutor, emprestar os ouvidos às mulheres que cantam
Em silêncio deixar que elas julguem a quantidade de desejo que as ouve
E que imaginem os cenários mais idílicos para compensar todos os não-dias.
As palavras podem ser melaço de cana ou uma lâmina de brilho inquieto
E algumas, labirintos em que o inclemente eco se teme mais que o
Minotauro.
A música tem arestas boleadas e claves de Sol mesmo nas notas invernosas
Os violinos dão pouso aos pássaros e a flauta usa-lhes a voz emprestada
O maestro segue fiel atrás da batuta que sabe de cor todas as músicas
E até as crianças de ouvidos pequenos adormecem por Si sem Dó.
O texto desafia sem pauta a travessia branca do deserto
Exige um rio, mas não sabe apaziguar a sede
E liberta personagens que nunca mais te deixarão viver sozinho.
Alguém escreve a branco e preto neste piano que se ouve
É fim de tarde, hora profunda e um acorde solta-se ágil e completo,
Alguém, com jazz na voz, esta noite improvisará o que há de música no poema.
quinta-feira, julho 21, 2016
Ao Ruy Belo
Possivelmente ainda não chegaste, o areal está deserto e ao
longe apenas gaivotas
Disseram-me que havia dias em que chegavas cedo, antes de
haver luz
Que vias os pescadores, em barcos coloridos, romper as ondas
enquanto acenavas
E seguias entre a tua melancolia e a espuma do mar a
desaparecer no vento frio
Talvez esperasses que o poema se escrevesse no teu rasto de
polvo das palavras
Ou o percebesses nítido e íntegro apurado o ouvido junto à
senhora da guia
Mas hoje, já percebi, hoje não te apetece o sal a colar os
lábios nem ouvir as varinas
A noite teve muita lua, o uísque correu vagaroso e tiveste um
problema com as unhas.
As algas dançam a meia água e morrem em tons castanhos, como
os teus olhos
Chegou um homem descalço até aos joelhos e ameaçou o mexilhão
com uma faca
Hesito em dizer em qual dos teus versos melhor o descreves
Porque lhe falta um saco de serapilheira para acomodar o
destino.
Irisa-se o céu do lado de onde costumas aparecer
Mas a todos os que vejo vir lhes falta o ar de poeta e de ter
insónias amiúde
Terás tu deixado Vila do Conde ainda com uma garrafa em maré
cheia
Ou acometido de paixão súbita enlouqueceste de novo como na
primeira vez
E rumado à Consolação para te livrares das dores que dão nos
ossos que há na alma?
Vou perguntar por ti no cais, antes, talvez, ao velho banheiro,
mal acenda o cigarro
Todos te conhecem com o mar ao fundo, poucos te sabem pedreiro
das palavras
Se acaso morreste e, por isso, te atrasaste em voltar à
praia
Manda um recado pelo homem que faz bom o caminho alumiando o
farol
Evito assim andar Atlântico acima Atlântico abaixo para te
dar um abraço
Dar to ei em qualquer lugar onde leia os teus versos que me
inquietaram a vida.
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agosto 2015,
Foto af
quinta-feira, março 24, 2016
poesia-me...
É sábado e não sei o que é feito do contador dos dias
As árvores estão quietas sobre raízes quietas sob nuvens
desfeitas
À distância formam-se as palavras no recorte dos lábios e soam
Mulheres e crianças caminham enquanto crescem
Um cão sobe pelo passado e é quase lobo
Numa mesa decide-se o teu futuro entornando-o.
Sempre me disseram que os sábados são rápidos de viver
E ainda que os sonhos durem as primeiras horas
Geralmente não sobrevivem à luz desmedida com que te acordam
Nem ao excesso de picante com que condimentam a realidade
Mas, ainda assim, os amantes florescem ao fim de semana
E dois em cada três admitem ter gemido de prazer autêntico.
Os sábados são os dias em que ninguém quer morrer
Porque as coletividades estão cheias e os bilhetes pagos
E irrita interromper uma dança para varrer folhas,
Ou defumar de eucalipto a mágoa e a saudade.
É preferível amanhar
as criancinhas, enlaçar-lhes cabelo e voz
E descer aos rios que só existem para as entreter,
Com gaivotas que são balões de gás mais baratos,
E peixes que saltam para lacrimejar nos círculos de azul onde
se escondem.
Os sábados, mesmo os mais cinzentos, têm sempre enormes
janelas abertas.
Os escravos vão à missa e são voluptuosas todas as mulheres
livres
Que nos jardins consideram usar cores extra e perfumes de Marrakesh.
Estes são os dias de aventura e risco e de abocanhar a vida
Porque nos domingos o trapézio está preso no lado obscuro da lua
E as lantejoulas emudecem nas gavetas entre mofo e bichos do
pó.
Os sábados antigos eram generosos com os magalas e as
sopeiras
Davam nós nas mãos, beijos clandestinos e faziam filhos em
pensões baratas
E as meninas de família nesses dias invejavam quem
urgentemente se amava
Enquanto elas com o cio amarrado ao corpo se mortificavam em
ânsias e suspiros
E pecados mortais atrás de pecados mortais de tantos desejos
atirados para o futuro.
A família fazia dos sábados um restaurante de apaziguar ódios
Distribuíam gratuitamente um enorme sortido de beijos de
judas
E no fim contavam as facas e as feridas abertas.
Nos sábados por impositivo legal nunca chovia
Ninguém vestia fatos usados nem punha ouro a fingir
Nem lamentava amar o mesmo homem durante décadas.
Aos sábados são permitidos todos os excessos que dão asas
E usar beijos e festas acintosas acima da cintura para
depois levantar voo no corpo todo.
Aos sábados há futebol e outras perdas de memória
Os filhos saem pela primeira vez para se embebedarem
E a vizinha do lado aspira-nos o sono mal rompe a madrugada
No sábado dispensamos o sossego e outras coisas inúteis
E todos acreditamos na imortalidade até segunda-feira…
sexta-feira, março 18, 2016
contaminar os dias
e as muitas vezes em que silencio o que me vai algures no corpo todo,
é uma vontade irracional de desejar ser mais que só palavras,
mas fico sempre aquém numa margem indefinida
entre rios e marés de torpor e sombra
e mais que tudo as máscaras que não sei como tirar de cima
não dos ombros que as palavras são ligeiras
mesmo quando fervem na língua
e me deixam ferido para não ter que dizer nada,
mas nada é o mesmo que tudo
quando se perde o pé e as mais felizes horas são essas em que olho o
mar em suspenso,
como se a raiz dos dias se tivesse levantado para dizer o nome das
coisas
e são ásperos os nomes das coisas que não consigo guardar,
que não consigo acoitar no meio do peito fechado
com sete ou mil e duzentos cadeados de aço e fogo
mesmo que não os consiga contar a todos,
mesmo que as garras do destino
que não acredito que tenha garras me levante do chão
me lance pelas janelas
que todos os precipícios têm para quem chega desconfiado
ou com medo das alturas
e eu creio que chego sempre com medo a todos os lados
ainda que não saiba que altura tenho
e se os dedos que começo a saber contar
poderiam contar para outra coisa
que não este miserável ofício de serem sempre apontadores de infortúnios
vários
e ainda assim contínuo a sorrir
a forçar estes músculos manhosos todos os dias
todos os santos e infernais dias eu continuo a mostrar a língua
que me sai do interior mais oculto como se nada fosse
ou como se fosse tudo e mais um outro universo de coisas raras
deixo de lado os simples caminhos que não me levam onde quero
eu que gostaria de estar em todos os lugares ao mesmo tempo
a mim nunca me bastou a ubiquidade
isso sempre fui capaz de fazer sem esforço
o que eu queria, mas queria mesmo, era ser uma espécie de deus
que sem fazer nada de especial, só porque é deus, consegue esse - pasme-se
- sortilégio
de estar em todos os lados sem esforço, sem nada de especial, apenas
sabe de tudo,
tudo guia, tudo reconhece, porque testemunha de tudo aquilo que respiras
e não se cansa de te destruir o que querias que fosse tão íntimo
que em absoluto nem tu próprio tinhas memória fiel de ter acontecido
sempre há deuses com sorte
sobretudo quando despes a pele e no lugar de ti surge a maresia azul de
contaminar os dias.
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Foto af,
março 2016
sexta-feira, maio 22, 2015
baco no cais
Atrás de si ficava uma estrada só de perfume e um esquecimento permanente de onde viera. Trazia na mão mais à direita um chocolate, de onde já libertara a vaca que habitualmente pasta junto à percentagem do cacau, por isso a prata estava pronta para repousar na braseira. Na superfície mais fina do olhar balançava um palhaço, um chapéu de três bicos e um urinol de barro novinho em folha. Só sabia os nomes dos pássaros do entardecer, porque nunca saía de casa com o sol a este e porque não queria acordar demasiado cedo o palhaço que trabalhava no turno da noite e só começava a sonhar quando abria a alvorada. Nunca fora a Espanha, mas sentira múltiplas vezes esse vento espesso que soava a castanholas e flamenco e empurrava para cá da fronteira chapéus de três bicos negros como a fome e a morte no choro dos contrabandistas de palavras impronunciáveis. Se os passos não o atraiçoassem, a sua vida caberia em meio século, mas esses passos de barco tempestuoso arrastavam para muito mais longe o calendário dos dias idos. Ainda bem que a memória se gastou como uma borracha se gasta ao apagar o desnecessário, o errado sem remédio, o esboço que não tem beleza nem nunca fará rir o universo. Ainda bem, pois assim podia morar em exclusividade o presente, sem raízes nem amarras, sem rumores nem remorsos, sem outros que morassem em si sem convite nem desejo, e beber, beber para ser oceano, beber desalmadamente sem suscitar cobiça, todos os mágicos líquidos que o faziam voar sobre lugares mais auspiciosos em ar e beleza por um urinol de barro novinho em folha.
quarta-feira, maio 06, 2015
Estrela do Norte
Agora, quando viajo, já não levo
aquele cão que abana a cabeça a cada irregularidade da estrada, porque ficou no
ford cortina com que me cruzei à saída da minha infância. Todos os ford cortina
eram beges e deixavam fumo a anunciar a partida para lugares que eu invejava. Subia
as persianas mal caía a noite e certificava-me que a ursa menor continuava a
morar por cima do meu reino. Outros dias escondia-me para perder o norte e
segurava o magnete que teimoso dizia sempre o mesmo. E é isso que acontece a
quem não viaja: diz sempre o mesmo, ainda que use outras palavras. Todos adormeciam
ao afinar o coração pelo relógio de parede, mas eu com olhos e eco de morcego
exigia dias mais longos, porque não queria que os sonhos tivessem que obedecer
a uma métrica de vida sóbria. Do lado de fora, as borboletas noturnas desciam
da sua morada lunar e passavam à altura dos meus olhos e algumas aí ficaram
para sempre para que os meus olhos também pudessem ser mais leves que o ar. As
memórias ora são papagaios coloridos ora são corvos a debicar os dias que
somos, é por isso que os mais hábeis de nós os enganam dando-lhes a memória das
árvores em sementes. Das muitas viagens que nunca fiz guardo uma grande saudade,
mas sei com absoluta certeza que o ford cortina bege ainda por aqui há de
passar para me devolver o mundo e as palavras que não incomodam o silêncio.
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Foto af (dezembro 2014)
terça-feira, março 31, 2015
de areia e dos castelos
Já corri tanta praia à procura do
único grão de areia que me falta e vou ter que continuar porque sem ele este
castelo de tanto de tudo não se segura. Arquitetarei lugares efémeros para
receber a noite com seu corcéis de sangue, enquanto os estábulos que mandei
fazer em vime entrelaçado não vierem das margens de qualquer desassossegado rio.
Há uma batalha à espera que alguém tenha uma vontade de morte, mas talvez a
morte se canse de esperar e se faça coisa natural e suave como os fins de dia
de junho quando amorna o vento e as aves são exclamações em voo dolente. Aqui
deste lado, à sombra do castelo quase perfeito, vejo o mundo todo e paro sempre
o olhar à tua porta grená. Esse vinho na cor embebeda-me e por isso toda a
outra viagem que me obrigo a fazer é de uma violenta lucidez. Cruzo-me com
raparigas magníficas de tão breves e descubro que há um pintor renascentista a
desfazer-se dos amores porque lhe faltam as telas e o tempo. Os gritos das
cores compõem a geometria rigorosa dos campos e o moleiro recolhe as velas
porque apenas quer o assobio do vento para recitar a noite. Quando forem três
horas o luar e o voo da coruja virão do mesmo lado do horizonte e um fio de
frio beijar-te-á os ossos só para que saibas que estás vivo. Sobressaltos são
abertos pela manhã e o dia é um limão gotejando na boca e ainda que beijes toda
a água do mar e barcos de ampla vela ondeiem teus lábios só a mulher que amas
saberá neutralizar a acidez do destino que não existe. Olho este relógio de
dizer horas, porque não tenho os olhos dos gatos para ver as horas – como fazem
os chineses -, e percebo que é quase silêncio certo neste mostrador inox que
foi prenda de uma quarta classe de reis, rios, caminhos-de-ferro e alguns
adjetivos superlativos. Entretanto no rendilhado da costa e no corpo oceânico o
mar trabalha para que o meu castelo se cumpra. Somos mais líquidos do que sólidos
e ainda assim não nos cresceram escamas em nove meses de amnióticas navegações.
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Foto af (Nazaré)
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