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terça-feira, dezembro 16, 2025

Do sol em quarto minguante

 

Se tudo o que há a dizer fosse dito com uma economia de palavras, eu talvez fechasse os lábios — como quem não quer que um sopro se dilua e não encontre outra boca onde morar.

Tudo é vazio, de um vazio com morte dentro, uma morte que não se sabia poder acontecer; e, no entanto, tudo se sabe neste pequeno barco que oscila como uma alga, que não se sabe furtar às intempestivas correntes.

E eu não sei o que fazer das correntes: das muitas e imaginárias cordas que me enlaçam quando tento voar.

Na verdade, não tento assim tanto — e devia. Devia tentar muito mais. Devia olhar para o futuro com um olhar intenso e magno, e não fazer uso desta miopia que também se sente noutros lugares do corpo.

Que pena não haver geografias de sítios onde imaginar seja o passo mais seguro para aceder à realidade; ver o musgo crescer no lado do sol, e as águas ancestrais deixarem lugar ao vapor — ao morno hálito dos ventos do sul.

Não sei como cheguei. Não sei como partirei.

Sei apenas que, entretanto, muito daquilo que queria não aconteceu. E não culpo ninguém, senão este que se agarrou à minha única pele e fez do frio morada quase instante.

Não sei como aquecer o lugar, não sei como aquecer o sol; não sei como dizer tudo o que tenho para dizer, e ainda assim não deitar fora a raiva que trago contra aquilo que não sou capaz de fazer.

Insólito encontro, este, em que me desencontro a maior parte das vezes.

E depois fica a sensação amarga, ácida, alucinante — de não fazer o suficiente para adocicar o que ali está apenas para se deixar beber em dias de alívio que tardam em chegar.

quarta-feira, outubro 08, 2025

Do tempo antes do tempo

 


Chegava sempre a horas, aliás, chegava sempre muito cedo, antes mesmo dos relógios sobressaltarem os segundos. Esse tempo, antes do tempo, que lhe sobrava, era uma janela para se imiscuir, confundir, imaginar na vida dos passantes. De todos os lados concorriam passos e vultos, às vezes, pessoas completas, que se cruzavam em contorcionismos vários confirmando as raízes dos dias. O ar ligeiro, adocicado e fluido da noite, ganhava um corpo ruidoso e áspero e agarrava-se à roupa, às mãos, aos olhos manhã dentro. Todos eram atletas e corriam, corriam, como se mais à frente estivesse algo que merecesse o esforço e a investida não hesitante. As conversas eram breves e adornadas, quase em exclusivo, monossilabicamente. Saberiam dizer palavras esdrúxulas e conjugar um qualquer verbo irregular ou essa era apenas uma estratégia contra a discussão estéril que alonga as palavras para apoucar o sentido? Camioneta, metro, elétrico e passos, suficientes passos para a ofegação. Ainda assim, pouco escapava à minuciosa avaliação que repetidamente levava a cabo: o funcionário público, a telefonista, a empregada de balcão, o moço de recados, a desempregada, o talhante, a estudante, a enfermeira... Quem sabe se estes catálogos de vidas múltiplas estavam certos, eram adequados, diziam alguma verdade. Para si e em si diziam. Essas personagens com ossos articulados e nomes de batismo eram suas quando as olhava e recolhia para lhes imaginar um ajustado destino. Em cada novo dia, em cada nova viagem, em cada recolher silenciando a vida para que o sono sobreviesse, recompunha uma nova história com as personagens recolhidas há pouco e já em fuga da memória. A escrita antes do sono, sem papel nem tinta, nem qualquer outro suporte físico, que não a sua mente inquieta, era uma espécie de tessitura do fio de Ariadne que lhe ligava os pedaços da vida e evitava que esses se desconjuntassem devedores do desespero. Uma epopeia de gente comum com asas de arara rara e adornos de lantejoulas sempre que se aproxima o fim de semana. Levá-los-ia a todos para dentro da sua morte e, nessa quietude lapidar, revê-los-ia num derradeiro looping para avivar a memória de ter sido.