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terça-feira, setembro 22, 2020

Ao Diogo

Sabemos todos, como havíamos de não saber, que o inevitável é como um pano de cena infame que cai quando entende que é tempo de dar descanso aos atores. É só então que nos apercebemos que algumas representações são as últimas, que não há próxima sessão, que não há mais voz, nem palco, nem espetadores que partilhem uma qualquer das formas de gostar de estar junto, porque já não há como estar junto. 

A vida vai tecendo uma extensa e emaranhada teia onde alguns ficam sem esbracejar, onde outros, momentaneamente, habitam para logo partir e onde outros, ainda, porque sabiamente nos alertam para o que há de frágil, mas também de espantoso em toda a teia, são o lugar onde a ancoramos. 

Sim, é certo, a memória torna o inevitável, lento, prolongado, suportável. Mas não bebe connosco, não dá abraços, não usa a vontade e o cuidado para se importar com o modo como nos corre a vida, sendo já parte da nossa vida...

Os atores exigentes e inteligentes serão sempre os mais incómodos, porque não se restringem ao papel que lhes destinam, desafiam, inventam, criam, emocionam e reescrevem e comprimem o tempo à sua volta, e também por isso serão os mais lembrados, porque cala fundo a sua ausência. 

Se encontrares por aí o Schopenhauer, ou outro do teu seleto Olimpo, diz-lhe que um dia destes beberemos qualquer coisa juntos e voltaremos a filosofar sobre o que ficou em falta nas tardes que não se cumpriram.

quarta-feira, maio 06, 2020

das estevas


De longe a longe regresso aos cheiros da infância. O resto praticamente não existe. E os cheiros perduram porque ninguém arranca todas as estevas, ou impede que o vento sopre quando quer soprar. Se eu apenas voltasse para rever o que resta de memória visual rapidamente me sentiria perdido, estrangeiro do passado dentro de mim mesmo.

Os meus agostos eram grandes e cheios de aventuras. As velhas, que só o eram porque eu era menino, sentavam-se à porta ao fresco enquanto os paralelos da calçada ainda tinham um resto de sol a arder por dentro, e nós corríamos arrastando o luar e algumas das estrelas mais frágeis. O chico carrão e o palheiro onde não havia agulha que escapasse, o zé corneta e as primeiras lições de bem acertar com qualquer fisga, o bonifácio e o ciúme por uma avó partilhada, a maria joaquina e o jogo do lenço, e com todos eles joguei às escondidas, e tanto joguei que os fui perdendo, escondidos que foram ficando em algum lugar algures no tempo.

Gostaria de ter daquelas memórias fabulosas que tudo guardam, que nunca se confundem e que servem de abrigo a histórias sem fim. Mas, de facto, não fui prendado com esse inestimável atributo. Sensatamente devia habitar em exclusivo o presente, contudo arrisco regressar ao passado e talvez a única vantagem deste frágil arquivista esteja na necessidade de inventar, imaginar, completar os pequenos e sincopados episódios que me ocorrem depois de um esforço insano. À falta de testemunhos fidedignos, tudo o que disser é verdade.

As carroças serviam de esconderijo. Por entre os varais e as enormes rodas, onde a madeira e o ferro se afeiçoavam na perfeição, furtávamo-nos ao olhar indiscreto de quem nos perseguia. As cadeiras de palhinha, um ou outro mocho, um oleado de tapar a cal ou as melancias, davam vida e cor à rua até perder de vista. Os nossos gritos de total alegria não confundiam as conversas dos mais velhos e ninguém se amofinava se os excessos fossem repreendidos com a severidade merecida.

O alcatrão aos poucos ia arrefecendo, solidificando de novo e uma vez mais, enquanto os esparsos candeeiros alimentavam de luz miríades de seres mais leves que o ar. Algumas dessas noites de agosto eram gémeas das noites do deserto e só assim era possível sobreviver ao inclemente estio diurno. O céu, esse magnífico lugar sem fundo, era uma sinfonia de cor e todos os naipes afinavam para que a via láctea e estrada de santiago tocassem em uníssono. Os gatos, todos pardos como convém, observavam-nos com inveja de cima dos telhados e as osgas de olhos esbugalhados aprisionavam no arredondado da língua as melgas antes que estas nos infetassem o sangue. Numa ou outra noite, algumas garrafas de pirolitos da tia maria amélia eram sacrificadas, sendo decapitadas à altura do gargalo para resgatar o esplendoroso berlinde, qual mago liberto definitivamente do presidio da lâmpada.

A recolha era sempre depois dos avisos mais ásperos. Que desperdício ter que adiar a vida por tantas horas. Beijos, abraços e juras de amizade, para sobreviver a uma noite de separação, era um ritual obrigatório. Sei, embora nenhum me tenha dito, que todos sonhávamos o mesmo sonho. E continuo a saber, embora alguns já não o possam confirmar, porque entretanto se completaram e morreram, que quando mais longe essas noites estão mais nítidas e essenciais elas são. É a brisa suave e única dessas noites que procuro quando abro a janela e as estevas me fazem sentir sem tempo.

sábado, maio 02, 2020

memória de adriano


Curiosamente não as vejo perder o viço da cor acabada de pintar, no entanto, o artista, crestado dos dias carregados de sol, é cada vez mais castanho. Apenas uma ligeira linha branca na testa assinala onde termina a sombra protetora do barato chapéu de palha e recomeça a cor antiga.

Aguarelas de Lisboa num humilde escaparate voltado de costas para a foz do Tejo competem com o vivo olhar. Entre o real e a representação, apesar do esforço do artista, poucos são os que se deixam seduzir por sofrível arte. Deviam esmaecer, ganhar o tom que anuncia o fogo já cinza, mas não. O elétrico continua em movimento no seu amarelo forte, o cavalo da estátua brilha à altura da crina no seu imponente bronze, o busto do poeta ofusca na sua marmórea brancura, o rio corre em forma de inverno no seu azulão de nuvens. Tudo cheira a tinta recente em antiga imagem. A memória não é muito exigente, mas a recordação sim.

No intervalo dos dias iguais, desce os degraus e na humidade que sobe do Tejo já mar, arremessa restos de pão às gaivotas que se renderam à terra. Gostava de saber o que se passa no íntimo de um animal que podendo voar para onde o ar é leve e puro, prefere esperar por migalhas de asas caídas. Ou no coração de um homem que, podendo caminhar sem fronteira nem destino, fixa, temeroso, raízes contra as tentações.

As pessoas chegam em contínuo. Mulheres exóticas molham os pés cansados e esquecem o corpo no calcário cais. Homens de vozes e feições estranhas treinam o ver à distância entre margens. As crianças chapinham felizes porque não têm os pés cansados e podem olhar sem compromisso a espuma e outras coisas efémeras. Entre luas as águas arredondam as arestas. Entre sóis as lajes riscam em surdina o nome dos que passam.

Dos arrebatadores beijos, tentativa frustre de devorar a alma, até ao choro do amargo desespero, capaz de altear o Tejo sobre o Bugio, lá onde o rio e o mar se confundem no doce e no sal, nesse palco, tendo por espectadores indefectíveis o vento, a água e a distância, o mundo todo desagua em babel festim, enquanto um estrangeiro de si mesmo, ilude o tempo entre marés e malte, aguardando que uma duvidosa aguarela valha um dia de cada vez.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

A senhora x



A senhora x levantou-se, ouvindo o mesmo relógio dos outros dias. Apesar de ser sábado era como se um ritmo antigo, um misto de relógio de sol, estrelas e lua, demasiado antigo para ser alterado lhe falasse ao ouvido dizendo que era tempo de retomar o movimento do corpo. As molas do colchão, com a memória de antigas batalhas, ecoaram nas paredes, resvalaram no terço de cortiça e abafaram-se no cortinado desbotado. Tacteou as pantufas, meteu os ombros dentro do robe e abriu a porta da cozinha. O malhado, companheiro felino, ronronou mas não desviou os olhos abertos sobre o parapeito que esperavam o sol. Aqueceu o resto do café com leite da véspera e antes de pôr a dentadura amoleceu o pedaço de pão para enganar a fome. As janelas do prédio em frente estavam ainda tomadas pela sombra, a roupa nos estendais fazia lembrar um desfile de veleiros engalanados. Nos vidros escorriam gotas de orvalho que daí a pouco o calor do sol haveria de lamber. A casa estava fria. De forma mais precisa: silenciosa e fria, como se uma qualidade não pudesse existir sem a outra. A casa de banho estava, havia muito, a pedir umas pinceladas para esconder o caruncho recorrente. A torneira jorrou água fria em abundância e a concha das mãos levou-a aos olhos. A saia azul escura, já fora mais escura, agora ganhava um luzido herdado do uso repetido. As meias de vidro cobriam-lhe as varizes e faziam sobressair o vinco dos ossos. O soutien apertava-lhe o peito e a alma e simulavam uma orografia há muito perdida. A escova do cabelo descia repetidamente até aos ombros, numa espécie de ritmo encantatório. Brancos e cada vez menos eram os cabelos que via no espelho e estes enquadravam as rugas que não só a idade mas o trabalho e o sofrimento tinham esculpido impiedosamente. Doeram-lhe os pés quando tentou enganá-los com os sapatos que a dona Teresa lhe havia dado. Mas eram uns sapatos bonitos, com dois botões de cada lado e com o espaço para os joanetes já moldado. Talvez a cor creme não ficasse muito bem com a mala verde que comprara nos chineses, mas não se podia dar ao luxo de recusar oferendas. Até porque a dona Teresa lhe dissera que aqueles sapatos tinham custado uma fortuna há cinco anos atrás. E a cavalo dado não se olha o dente, sobretudo se não vier descalço. Desceu as escadas e entrou na rua. Eram poucas as pessoas que arriscavam começar a viver tão cedo ao sábado e os que o faziam era quase todos seus conhecidos. O Francisco, o leiteiro, a Mariana que fazia a limpeza no teatro Morgado, a D. Iria que vinha passear os dois cachorros e mais uns quantos sem rosto, porque não lhes sabia o nome. Caminhou do lado esquerdo da rua, evitando os carros que escondiam o passeio, contornou o miradouro da penitência e entreviu os telhados das casas rompendo a neblina. Estavam duas pessoas na paragem do eléctrico. A senhora Garcês, das poucas que antes de si já usavam aquele eléctrico e que era pessoa de poucas falas, sobretudo desde que ficara viúva, embora não recusasse e retribuísse a saudação matinal, e um senhor de meia idade que nunca vira por aquelas bandas. Era um homem de bom porte, fato de fazenda, mala de cabedal na mão direita, e um chapéu como aqueles que usavam os gangsters. Fumava com os dois dedos da mão esquerda muito hirtos e lançava grandes baforadas de fumo que subiam primeiro numa espiral certinha e logo que era apanhado pelo vento se diluía quase que por magia. O eléctrico não demorou. Sentou-se no banco da frente, logo atrás do guarda-freio e passado pouco tempo já estava a cabecear. Ninguém lhe roubava pelo menos cinco minutos de sono no eléctrico. Eram estes cinco minutos, achava ela, que lhe serviam para fazer as pazes com a vida. Abriu as portas do prédio. Um prédio antigo com grandes portadas e umas escadas de madeira quase tão gastas quanto íngremes. Sentiu a respiração mais forte e o coração mais vigoroso na batida. Apoiou-se no corrimão e continuou a subir até ao terceiro andar. Cheirava a mofo na escadas. Talvez fosse da humidade que nos dias de mais chuva escorria da clarabóia para as paredes e que alimentava assim lentamente a degradação dos degraus de madeira mais que centenária. O escritório que todos dias limpava, à excepção de domingo, era de uma empresa de transportes. O senhor Antunes, o patrão velho, era uma pessoa austera mas simpática, já o filho, o doutor Rodrigo, era arrogante e tratava todos os empregados pouco melhor que escravos. Ainda bem que ela quase o não via. Também quando o via, mesmo que se cruzasse com ele, nunca foi capaz de um simples bom dia ou boa tarde, era como se ela fosse transparente, ou tão insignificante que nem de uma simples palavra de saudação fosse merecedora. Chegou a rogar-lhe uma praga quando o ouviu despedir aos insultos o Américo que já lá trabalhava há mais de dez anos. Não sabia contudo se a praga se havia consumado ou não. Não tinha tido o prazer de o ver agarrado à barriga a uivar como os cães por querer e não conseguir aliviar a natureza. Mas deus não dorme, era o que sempre dizia. Este era o lema que aplicava sempre que presenciava qualquer forma de injustiça. Embora muitas vezes fosse obrigada, de forma pouco católica, a admitir que ele pode não dormir, mas lá que anda muito distraído, lá isso anda e ninguém tem dúvidas. Limpou tudo com o cuidado habitual e sentou-se cinco minutos a olhar pela janela enquanto recuperava o fôlego. Fechou a porta à chave e desceu as escadas cada vez mais íngremes. Começou a caminhar sem destino certo. Ninguém, a não ser o malhado, esperava por ela, por isso podia-se dar ao luxo de caminhar e olhar as montras com o detalhe de quem um dia talvez venha a comprar tudo que aí está exposto. Havia agora mais gente na cidade, gente apressada, gente distraída, gente que já não é gente, e até polícias. Do outro lado do largo viu o supermercado a abrir as portas. Pensou no que precisava de comprar se tivesse dinheiro. Era, aliás, um exercício repetido para não perder o conhecimento das coisas que é possível comprar; fazia mesmo visitas a esses lugares, como se se tratasse de uma visita de estudo. E foi isso que lhe apeteceu fazer nesse preciso momento. Atravessou por entre os pombos que esticavam e encolhiam as asas como se as quisessem treinar para voos mais altos, olhou a gente que já quase não é gente, que dormia aos pés da estátua e contornou a carripana do almeida que varria pérolas de pó, pois abanava a vassoura acima da cabeça. Entrou no supermercado. Longas avenidas de cor. Tanta coisa a luzir pelos corredores. Percorreu demoradamente com um cesto teimando em estar vazio as estantes onde outros gulosamente retiravam o desejo e não a necessidade. Às vezes chegava a rir da gula dos que por ali passeavam: um carro apinhado, às vezes mesmo dois carros, e não se tratava de nenhum comandante a comprar comida para um batalhão. Eram pessoas que se tratam da melancolia nas compras... O supermercado começava agora a fervilhar de vida. Era a altura ideal para a sua visita favorita. Abeirou-se do longo corrimão de cosméticos e como alguém com grande entendimento na matéria olhou demoradamente o frasco, fingiu ler o rótulo, agitou para ver a limpidez e a robustez da cor, e, enquanto um olhar lateral a protegia dos olhares avaros, aspergiu demoradamente o peito gasto e suado. Deu dois passos laterais e, com a mesma sequência de gestos, aspergiu outro com a mesma veemência, um terceiro, possivelmente um quarto e talvez no fim tenha mesmo conseguido afogar perfumadamente a solidão. Isso já não sei, porque aquilo que narrador viu, com os olhos e não com a imaginação, foi a senhora x no supermercado numa manhã de sábado, visitando um a um os perfumes expostos, tudo o resto é ficção, menos o desejo que a alma lhe tenha ficado, mercê esse gesto, também ela mais aconchegada e perfumada.


terça-feira, janeiro 01, 2019

Amêijoa em tons vermelhos...


Ao fim de incontáveis horas de balanços, muitos mais do que alguma vez um colo lhes tenha dado, retornam a terra.
Falam alto, como se quisessem ouvir-se acima das ondas, desse ruído permanente para ouvidos que perderam aos poucos a poesia e a música tão do agrado dos visitantes ocasionais. Não há nomes, apenas designações úteis de modo a não comprometer, esse é o jogo. E há um gosto, quase infantil, de intimidar, de veladamente inventar uma vida marginal. A dureza, a virilidade, a masculinidade, é avaliada pelo confronto com a autoridade, um homem para ser homem tem que ter batido, ameaçado, ou chamado nomes (mesmo que entre dentes) a um bófia. Só assim merece ser homem, só assim merece respeito, só assim pode amedrontar os forasteiros vindos de longe, dos lugares da legalidade, onde habitam os domesticados, os que nunca insultaram um único bófia que fosse...
Todos estiveram presos, todos saíram na semana passada, os menos afortunados saíram ontem. Hoje ganharam duzentos euros, hoje ganharam tanto que talvez possam comprar uma gaja, uma bebedeira, uma viagem vertiginosa, dificilmente uma felicidade ancorada.
De cócoras escolhem as pedras que se entremearam na amêijoa. São negras as pedras e a amêijoa, são negras as mãos, os rostos, e o sorriso para lá caminha. A vida aqui é dura e pouco extensa. Contam-se pelos dedos os que passado o meio século ainda arrastam o aparelho. Este precisa de braços fortes, este alimenta-se de braços fortes que aos poucos ali vão deixando o músculo e o nervo.
Quando a fibra já não permite viagem rentável, ficam na praia olhando o rio e o perfil longínquo da cidade, ajudam a puxar o barco, a carregar um saco para se dizerem vivos, e partilham as memórias com os que pisam o areal. Há sempre um barco que precisa de afagos de nova pintura, há sempre uma cerveja que precisa de ser bebida, há sempre uma conversa que ficou de ontem, e há sempre que arejar o olhar para o recolher nas tempestades.
Habitualmente de poucas palavras, mas quando se entusiasmam deixam numa conversa a vida toda. Dos filhos, das mulheres, das desgraças, dos sonhos, das vitórias, da guerra, da vida toda nesse lugar, tudo se diz numa vertigem de quem sabe que pode não haver outra maré e se houver nada nos garante que será propícia a navegações.
O rio corre para a foz e afaga o ventre prenhe dos pequenos barcos vermelhos. As sombras dão lugar ao festim de luzes. A cidade deita-se na margem como uma serpente.
Algumas amêijoas não sabem que esta será a sua última noite morada no rio, amanhã umas mãos calejadas as separarão das pedras e, por uma estranha magia, as transmutarão em euros, amores fortes, francos e fátuos e numa interminável gama de anestésicos em um qualquer porto-bar da Trafaria.

sexta-feira, outubro 19, 2018

manifesto contra o tempo


Um gajo fica deveras fodido quando descobre que o filho da puta do tempo é um vetor orientado que vai alisando e tornando infértil os terrenos por onde passa. A paisagem, antes diversificada e frondosa, chegando mesmo a ter frutos ímpares, é agora monótona e incolor. O corpo, que era uma espécie de vulcão que nos esforçávamos por manter dentro da cratera, mesmo quando em erupção, é agora uma imagem espetral cada vez mais pálida e de limites imprecisos.

Esta maneira de consumir o pavio em lume brando, fingindo que se ilumina alguma coisa, quando, de facto, apenas se consegue ver onde se coloca o pé seguinte e nem sempre, é uma espécie de tortura. Uma espécie de imposto diluído a pagar pela vitalidade, pela força, pelo ânimo, pela vontade e desejo que nos foram preenchendo dias atrás de dias.

Não temo envelhecer. Até porque não é retórica dizer que se está a envelhecer desde que se nasceu: é um facto! Mas chateia-me esta substituição da força pela flacidez, da garra pela condescendência, do espírito pronto pela inércia supostamente contemplativa.

A idade transforma-nos de uma forma indecente, alheia à nossa vontade. Deixamos de ser senhores de partes do nosso corpo que ganham, por estas alturas, vontade própria ou, na pior das hipóteses, não respondem seja qual for a vontade que as provoque. Ocorrem, com uma frequência desajustada, o mau feitio, a revolta, a ira, e o desejo de fechar os olhos.

Em tempos cuidava, e cuidava mal, cuido eu agora, que aqueles velhos que demoravam a mover-se, que pareciam um guindaste em periclitante equilíbrio ameaçando dobrar-se de vez a cada instante, eram preguiçosos, apenas procuravam chamar a atenção uma vez o charme do vigor já ido… pois, de facto, a injustiça acaba sempre por ser corrigida, demore o que demorar, e o verdadeiro justiceiro, Anaximandro dixit, é o tempo. 

É verdade que agora dialogamos com mais partes do corpo: falam as articulações, falam os músculos e falam muitos terminais sensoriais que nem sequer imaginávamos que existissem. Em contrapartida, os outros julgam, quem sabe se com razão, que já esgotámos tudo o que tínhamos a dizer e por isso deixam-nos descansados e absortos com as nossas novas e demoradas vozes de dentro para dentro.

Mas a idade traz a sabedoria! Oh, que felizes deveríamos ficar!... Mas quando chega a sabedoria estamos a fazer as malas e, assim sendo, para que raio nos serve a sabedoria se a viagem das viagens é a mais solitária de todas? Para sabermos o caminho, para não nos enganarmos no caminho? Pois deixem-nos andar sem norte! A sabedoria não partilhada não existe, como as obras-primas por publicar não existem, como o futuro não existe senão quando se faz presente. Trocava, de bom grado, a sabedoria por uns gémeos mais ágeis, por uma coluna versátil, por uns neurónios em excelente forma eletroquímica e por um fígado capaz de causar inveja a Baco...  Será pedir demasiado?




quinta-feira, agosto 02, 2018

da incerteza...


Eu nem sempre sei qual será o enredo do próximo momento e, esse facto, ao invés de me perseguir como uma ameaça, deixa-me a pensar que a liberdade é possível. Liberdade em pequeno formato, simples constatação de não saber programar à distância, péssimo gestor do tempo, outra forma de ser veleiro…

Tudo o que se possa dizer a propósito do modo como cada um faz a gestão do seu tempo é aceitável. Sei que há aqueles que temem um segundo de vazio como os beatos temem o mais pueril dos pecados, ambos sofrem terrível e irremediavelmente essa queda no abismo. Mas há outros que navegam sem carta, ou o moderno gps. Hesito em chamar-lhes aventureiros, embora também estes caibam nesta secção, e por isso chamo-lhes apenas espetadores pacientes. Sabem que por mais tarde que cheguem haverá sempre um lugar para eles e, mesmo que o lugar não seja o melhor, isso não significa que a cena de entrada que perderam roube a magia do filme ou que aquilo que não viram não possa ser imaginado com vantagens e deslumbramentos que o realizador sequer sonhou.

Também não tenho muitas certezas, embora oiça amiúde dizer que a idade nos traz certezas. Pois, a mim, a idade traz-me tempo e pouco ou nada de certezas… Claro que fica bem aos olhos dos outro, e à composição da nossa autoimagem, afirmar sem um átimo de hesitação que ter certezas, ter fixado respostas definitivas, é uma prova de maturidade, mas… e as dúvidas que ficaram instaladas nos bastidores, e a sombra sinistra que tira o resplendor que tal solar afirmação aparentemente transporta? Frequentemente me lembro do outro que tinha amigos que nunca tinham levado porrada, apenas ele parecia ter nascido para saco de boxe, e sei que há muitos amigos assim, gente forte, robusta, superior e que nunca, nunca por nunca ser, se deixa cair, se deixa enrolar como uma serpente ferida de morte no último abraço…

Dizem-nos coisas ao longo da vida, dizem-nos o que já lhes disseram, e se hesitamos em continuar essa cadeia de comunicação, essa veia aorta da tradição, desmerecemos da confiança e não somos mais do que um ruído incómodo para a paz e tranquilidade das boas consciências que urge silenciar. Depois há os corajosos, há os cobardes e há aqueles que têm dias, sobretudo se há público para alimentar a vaidade… Pois eu também sou daqueles que leva porrada, e talvez seja daqueles que mais porrada dá a si próprio. Não nasci para grandes empreitadas, não nasci para subir muitos evarestes, não nasci para inclinar a terra, não nasci para conduzir os povos, mas também não nasci para me embebedar solitariamente. Nasci para me embebedar de imenso, como dizia o poeta, e isso pode parecer uma extrema ousadia, para os que se embebedam apenas com álcool ou com o ódio ao que não é costume.

É possível que a haja um jogo, que cada um joga à sua maneira, entre a vida e a morte. Entramos em campo precocemente, dotados de muito poucas habilidades, e vamos ganhando tempo. Tempo é o prémio. Cada vez que sobrevivemos a mais um luar de insónia, a mais uma paixão em fim de festa, à perda daqueles que respiraram perto das nossas mãos quando as apertaram, ao desaparecimento dos lugares onde escondemos sementes para um dia virem à luz, ao ódio merecido porque fomos crápulas quando podíamos não ter sido, ganhamos tempo. Mas, como nos modernos jogos da era digital, vamos perdendo vidas atrás de vidas, ou como na biologia vamos acumulando lixo nas células e somos cada vez mais incapazes de usar o tempo para fazer a higiene necessária. Envelhecer pode ser, então, sinónimo de fazer mau uso do tempo, de não ter tanto domínio sobre a pilha de segundos que se acumulam e que pode agora ruir, apenas porque me esqueci de fechar a porta e a corrente de ar os fez estatelar num chão que é duro de mais para que os segundos caiam confortavelmente, como antes acontecia. 

Não tenho a certeza...