Alguns dos dias passam como se não houvesse qualquer dobra no tempo, e não sei se é por isso que, nesses dias, não me sei encontrar, ainda que não hesite na estrada, nem sequer olhe duas ou menos vezes para o lugar anterior. Vou pelos caminhos com a mesma leveza que vou pela vida. Formas paralelas de ir dizendo, com vozes diferentes, a mesma coisa, e não há quem não veja que a pronúncia tem uma origem comum.
Fico quase
sempre à espera que alguém descerre as luzes ao entardecer, para poupar o
horizonte e descer, sem medo do excesso, a colina de tantas vertigens. Saberei
eu onde guardei o animal de todas as vozes, cores e manhas? Pela certa,
perdi-lhe o rasto, como perdi de tantos que, num tempo anterior, se cruzaram
comigo.
Ouço todas
as vozes, vejo todos os lugares, cheiro o teu incenso radiante e nem sequer
saberia o nome dos perfumes, não fora o ter-te encontrado a morar a minha
adolescência. Talvez seja saudade isto que sinto; talvez seja uma nostalgia
semi-amarga que não tem modo de se retirar; talvez seja um sonho que aspiro a
espaços e se constrói lento, grande e irrequieto.
Um dia,
quase seguramente, virei com as nuvens, algumas gotas de orvalho e um longo
ramo de oliveira madura, e cingirei ao teu colo uma flâmula de erva branda e
dois, ou mesmo três, ninhos de aguardar um futuro em que o tempo é cheio e
fértil, e mesmo indicado para viver sem urgência.
Serei teu
companheiro um destes dias em que o ar esteja possuído pelos pólenes vermelhos,
e serei eu também uma forma leve e voadora de sangrar desejo e não saber as
horas em que o comboio passa a caminho do teu peito alpino.
Deixa-me,
mesmo assim, voltar em setembro, quando os rios se enchem de sons e pedras
escorregadias e tudo anoitece antes de haver vontade; saberei que tu esperas
como uma estátua de sal, e os teus lábios deixarão ver pequenos lagos onde as
grandes aves migram.

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