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segunda-feira, abril 20, 2026

Tempus fugit

 

Alguns dos dias passam como se não houvesse qualquer dobra no tempo, e não sei se é por isso que, nesses dias, não me sei encontrar, ainda que não hesite na estrada, nem sequer olhe duas ou menos vezes para o lugar anterior. Vou pelos caminhos com a mesma leveza que vou pela vida. Formas paralelas de ir dizendo, com vozes diferentes, a mesma coisa, e não há quem não veja que a pronúncia tem uma origem comum.

Fico quase sempre à espera que alguém descerre as luzes ao entardecer, para poupar o horizonte e descer, sem medo do excesso, a colina de tantas vertigens. Saberei eu onde guardei o animal de todas as vozes, cores e manhas? Pela certa, perdi-lhe o rasto, como perdi de tantos que, num tempo anterior, se cruzaram comigo.

Ouço todas as vozes, vejo todos os lugares, cheiro o teu incenso radiante e nem sequer saberia o nome dos perfumes, não fora o ter-te encontrado a morar a minha adolescência. Talvez seja saudade isto que sinto; talvez seja uma nostalgia semi-amarga que não tem modo de se retirar; talvez seja um sonho que aspiro a espaços e se constrói lento, grande e irrequieto.

Um dia, quase seguramente, virei com as nuvens, algumas gotas de orvalho e um longo ramo de oliveira madura, e cingirei ao teu colo uma flâmula de erva branda e dois, ou mesmo três, ninhos de aguardar um futuro em que o tempo é cheio e fértil, e mesmo indicado para viver sem urgência.

Serei teu companheiro um destes dias em que o ar esteja possuído pelos pólenes vermelhos, e serei eu também uma forma leve e voadora de sangrar desejo e não saber as horas em que o comboio passa a caminho do teu peito alpino.

Deixa-me, mesmo assim, voltar em setembro, quando os rios se enchem de sons e pedras escorregadias e tudo anoitece antes de haver vontade; saberei que tu esperas como uma estátua de sal, e os teus lábios deixarão ver pequenos lagos onde as grandes aves migram.

Ainda te hei de acenar hoje, enquanto escrevo, em gestos lentos, os nomes das estrelas, e depois podemos adormecer confiantes, guardando os extremos da galáxia.

2 comentários:

Anónimo disse...

De tempos em tempos, me lembro de repousar aqui meu coração turbulento e minha mente irrequieta. E me pego pensando: será que o prof. Fazeres fez um novo post em seu blog? Qual será a miragem que me desvelará ou os sentimentos que me tecerão desta vez?

Primeiramente, fiquei decepcionada, pois estava à espera de encontrar mais do que um post desde minha última visita no ano passado, mas depois debrucei-me sobre este texto e não consegui pensar em outra palavra a não ser saudade.

Subitamente, me veio também à mente uma frase que li ainda esta semana: ‘Perdemos repentinamente a profundidade dos campos, os enigmas singulares e a claridade que juramos conservar, mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou.’

Saudade de amores antigos, olhares antigos, lugares antigos. Saudade de sentir esses amores, ser alvo desses olhares, estar nesses lugares. Saudade que não esqueceremos tão cedo, pois revela o vazio que fica quando a sombra das asas do tempo cava poços de ausência em nós, sombra essa que nem a alvorada mais bonita seria capaz de dizimar.

Vazio, saudades e sombras que carregamos sozinhos e secretamente até encontrarmos alguém para partilhar.



Com apreço,
Daquela sua aluna distinta o bastante para não se esquecer dos seus escritos e comum o bastante para se perder na sua memória.
Se de alguma forma servir de alento, tive o prazer de desfrutar das suas aulas de psicologia no ano de 2023. Mas, se servir de desalento, não perca muito tempo a pensar nisso, apenas publique o seu próximo texto e estarei aqui :)

afazeres disse...

De tempos a tempos, também aqui volto. Estranhamente, fico a olhar, releio coisas antigas e questiono-me se valerá a pena continuar a publicar. O absurdo cada vez mais gritante deste mundo revolta-me, sufoca-me e, por vezes, o silêncio e o desalento acabam por triunfar. Em tempos – ingenuamente - acreditei que podia mudar o mundo e como pedi demasiado, estou agora a digerir o pouco que consegui. Possivelmente, essa é a inevitabilidade, ambicionamos o infinito e depois percebemos que apenas tocamos os que nos são mais próximos. Mas ainda bem que colocamos a fasquia bem alta, só assim somos tentados a aprender a voar em vez de passarmos a vida inteira a rastejar. Continuo a acreditar que tudo o que é humano me diz respeito e me deve interessar, mas a pouco e pouco a sabedoria que nos chega com a idade, também me diz, que demasiada realidade é um caminho para a infelicidade. Como alternativa e paliativo, procuro a beleza que há nas coisas simples e, como dizia o Robin Williams, no Clube dos Poetas Mortos, citando Henry David Thoreau: “Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida. E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!”.
…E que a menina Abigail continue a acreditar que o mundo é um lugar hospitaleiro e onde a amizade e o amor são a melhor forma de o merecer habitar!