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terça-feira, setembro 01, 2026

A borboleta

 

A borboleta pousou suavemente nos olhos, e a cor vinda do próprio coração do Sol respirou de alívio. A lembrança dos tempos de lagarta era agora uma memória pacífica. Também para quê lançar fogo naquilo que foi o passado? Tu sabes, possivelmente só tu sabes, como uma vida é pequena para amar todas as coisas.

Em meninos, todos tivemos sonhos maiores que nós. Todos sonhámos com janelas sem muros à frente e subimos às árvores para libertar os pássaros que, nessas alturas, ainda nos cresciam nas mãos.

Depois, é verdade, com o passar do tempo, começámos a voar menos e a pedir pouco. A água perde o brilho, e os caminhos ganham ervas grandes, onde chegamos mesmo a perder-nos. Se ao menos ainda ouvíssemos a avó das grandes alvoradas cantar, enternecida com o nosso suposto repouso, não sabendo que já nessa altura nós fingíamos a morte, a espaços, para merecer ser lembrados.

Depois, começámos a ficar sérios, a imaginar poses retiradas dos filmes neorrealistas, que são aquelas que mais sabíamos impressionar a audiência. Carregamos ainda esse gosto pelo amargo e pelo cinzento, talvez não por muito tempo, mas mesmo assim sempre em demasia.

Há uns quantos que se salvam. São aqueles que conseguiram aprisionar a águia para dar maior envergadura aos braços, pilares imponentes com que seguramos o mundo, e sobrevoamos aquilo que, na vida, deve ser rapidamente revisto.

E, pelo caminho, aprendemos — ou desaprendemos — a amar de forma intempestiva, que é a única com viabilidade nos tempos que correm. Damos laços no coração e fazemos promessas para cumprir durante toda a eternidade, que, de facto, só dura enquanto as palavras permanecem junto ao eco.

Logo em seguida, fazemo-nos pessoas, fazemo-nos coisas responsáveis, que é uma metáfora de tristeza e pesadelos. Amiúde, se ao menos ainda acreditássemos que, nos campos de trigo onde plantámos as papoilas mais vermelhas do que é possível imaginar, ainda crescem hoje as nossas sementes, possivelmente riríamos em gosto absoluto.

Assim, não ficamos à espera, à beira de todos os rios, que nada chegue de longe para nos desinquietar, enquanto o sono despido de sonho nos antecipa calmamente a única morte possível, que é aquela que nasce do repetido esquecimento: que a felicidade é um tipo de sangue de impossível transfusão, só do ritual repetido de desejar, hoje mais que ontem, viver cada átimo do tempo.

É possível que a borboleta não mais levante asas dos nossos olhos.

segunda-feira, abril 20, 2026

Tempus fugit

 

Alguns dos dias passam como se não houvesse qualquer dobra no tempo, e não sei se é por isso que, nesses dias, não me sei encontrar, ainda que não hesite na estrada, nem sequer olhe duas ou menos vezes para o lugar anterior. Vou pelos caminhos com a mesma leveza que vou pela vida. Formas paralelas de ir dizendo, com vozes diferentes, a mesma coisa, e não há quem não veja que a pronúncia tem uma origem comum.

Fico quase sempre à espera que alguém descerre as luzes ao entardecer, para poupar o horizonte e descer, sem medo do excesso, a colina de tantas vertigens. Saberei eu onde guardei o animal de todas as vozes, cores e manhas? Pela certa, perdi-lhe o rasto, como perdi de tantos que, num tempo anterior, se cruzaram comigo.

Ouço todas as vozes, vejo todos os lugares, cheiro o teu incenso radiante e nem sequer saberia o nome dos perfumes, não fora o ter-te encontrado a morar a minha adolescência. Talvez seja saudade isto que sinto; talvez seja uma nostalgia semi-amarga que não tem modo de se retirar; talvez seja um sonho que aspiro a espaços e se constrói lento, grande e irrequieto.

Um dia, quase seguramente, virei com as nuvens, algumas gotas de orvalho e um longo ramo de oliveira madura, e cingirei ao teu colo uma flâmula de erva branda e dois, ou mesmo três, ninhos de aguardar um futuro em que o tempo é cheio e fértil, e mesmo indicado para viver sem urgência.

Serei teu companheiro um destes dias em que o ar esteja possuído pelos pólenes vermelhos, e serei eu também uma forma leve e voadora de sangrar desejo e não saber as horas em que o comboio passa a caminho do teu peito alpino.

Deixa-me, mesmo assim, voltar em setembro, quando os rios se enchem de sons e pedras escorregadias e tudo anoitece antes de haver vontade; saberei que tu esperas como uma estátua de sal, e os teus lábios deixarão ver pequenos lagos onde as grandes aves migram.

Ainda te hei de acenar hoje, enquanto escrevo, em gestos lentos, os nomes das estrelas, e depois podemos adormecer confiantes, guardando os extremos da galáxia.