A borboleta pousou suavemente nos olhos, e a cor vinda do próprio coração do Sol respirou de alívio. A lembrança dos tempos de lagarta era agora uma memória pacífica. Também para quê lançar fogo naquilo que foi o passado? Tu sabes, possivelmente só tu sabes, como uma vida é pequena para amar todas as coisas.
Em meninos, todos tivemos sonhos maiores que nós. Todos sonhámos com janelas sem muros à frente e subimos às árvores para libertar os pássaros que, nessas alturas, ainda nos cresciam nas mãos.
Depois, é verdade, com o passar do tempo, começámos a voar menos e a pedir pouco. A água perde o brilho, e os caminhos ganham ervas grandes, onde chegamos mesmo a perder-nos. Se ao menos ainda ouvíssemos a avó das grandes alvoradas cantar, enternecida com o nosso suposto repouso, não sabendo que já nessa altura nós fingíamos a morte, a espaços, para merecer ser lembrados.
Depois, começámos a ficar sérios, a imaginar poses retiradas dos filmes neorrealistas, que são aquelas que mais sabíamos impressionar a audiência. Carregamos ainda esse gosto pelo amargo e pelo cinzento, talvez não por muito tempo, mas mesmo assim sempre em demasia.
Há uns quantos que se salvam. São aqueles que conseguiram aprisionar a águia para dar maior envergadura aos braços, pilares imponentes com que seguramos o mundo, e sobrevoamos aquilo que, na vida, deve ser rapidamente revisto.
E, pelo caminho, aprendemos — ou desaprendemos — a amar de forma intempestiva, que é a única com viabilidade nos tempos que correm. Damos laços no coração e fazemos promessas para cumprir durante toda a eternidade, que, de facto, só dura enquanto as palavras permanecem junto ao eco.
Logo em seguida, fazemo-nos pessoas, fazemo-nos coisas responsáveis, que é uma metáfora de tristeza e pesadelos. Amiúde, se ao menos ainda acreditássemos que, nos campos de trigo onde plantámos as papoilas mais vermelhas do que é possível imaginar, ainda crescem hoje as nossas sementes, possivelmente riríamos em gosto absoluto.
Assim, não ficamos à espera, à beira de todos os rios, que nada chegue de longe para nos desinquietar, enquanto o sono despido de sonho nos antecipa calmamente a única morte possível, que é aquela que nasce do repetido esquecimento: que a felicidade é um tipo de sangue de impossível transfusão, só do ritual repetido de desejar, hoje mais que ontem, viver cada átimo do tempo.
É possível que a borboleta não mais levante asas dos nossos olhos.

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