Tudo é vazio, de um vazio com morte dentro, uma morte que
não se sabia poder acontecer; e, no entanto, tudo se sabe neste pequeno barco
que oscila como uma alga, que não se sabe furtar às intempestivas correntes.
E eu não sei o que fazer das correntes: das muitas e
imaginárias cordas que me enlaçam quando tento voar.
Na verdade, não tento assim tanto — e devia. Devia tentar
muito mais. Devia olhar para o futuro com um olhar intenso e magno, e não fazer
uso desta miopia que também se sente noutros lugares do corpo.
Que pena não haver geografias de sítios onde imaginar seja o
passo mais seguro para aceder à realidade; ver o musgo crescer no lado do sol,
e as águas ancestrais deixarem lugar ao vapor — ao morno hálito dos ventos do
sul.
Não sei como cheguei. Não sei como partirei.
Sei apenas que, entretanto, muito daquilo que queria não
aconteceu. E não culpo ninguém, senão este que se agarrou à minha única pele e
fez do frio morada quase instante.
Não sei como aquecer o lugar, não sei como aquecer o sol;
não sei como dizer tudo o que tenho para dizer, e ainda assim não deitar fora a
raiva que trago contra aquilo que não sou capaz de fazer.
Insólito encontro, este, em que me desencontro a maior parte
das vezes.
E depois fica a sensação amarga, ácida, alucinante — de não
fazer o suficiente para adocicar o que ali está apenas para se deixar beber em
dias de alívio que tardam em chegar.

2 comentários:
Professor, outra vez me lembrei do seu blog — e ainda bem que assim foi. Mais uma vez, eu precisava tanto de ler isto, embora nem soubesse que precisava; só me dei conta quando gotas densas rolaram pelo meu rosto, aquecendo-me neste dia tão frio.
Percebi de repente que aquilo que estava a ler era o grito calado que eu vinha trazendo no peito há algum tempo: as correntes, a miopia, as dúvidas, a culpa, a raiva, a insolência e o amargor nos lábios de alguém que não sabe — ou simplesmente não consegue — adocicar a própria vida que tem, ou julga ter, juntamente com a tentativa de voar e não poder.
O texto leu-me tão bem, mesmo sem ter dito uma única palavra. Suspirei, sentindo-me compreendida, e agora, sob os meus olhos húmidos, a vida continua a ser uma grande incógnita em muitos sentidos — mas não vazia.
Talvez ela seja um mar bravio e revolto, e estejamos no barco, amedrontados pelas ondas, questionando-nos sobre o amargor nos nossos lábios, sem saber que as suas águas são mais doces do que o mais doce mel. Mas só descobre isso quem perde o controlo, sai do barco e põe os pés sobre as águas, confiando apenas numa palavra que ressoa latente na alma aflita: vem.
Obrigada pela sensibilidade.
E continue postanto :)
Olá, menina anónima!
Consumo uma parte substancial da minha memória, tentando identificar quem assim escrevia, quem assim pensava, quem assim sentia... Infelizmente restam poucas (melhor fora que fossem muitas - estaríamos menos sós e em melhor companhia!), mas ainda assim ficaram gravadas algumas que me ajudaram a voltar todos dias, acreditando que valia a pena, e daí a dificuldade de saber ao certo quem se dá ao trabalho de por aqui passar de quando em vez e deixar um abraço em forma de palavras... Preciso de uma pequena pista!
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