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sábado, novembro 21, 2009

Voo no olhar


É turvo o anoitecer e voluptuoso o mergulho no branco da gaivota. Parece haver passos nas nuvens e uma mão de quase chuva. Porque há-de haver um peixe sempre que falo do rio, não bastará o azul e a areia de construir o mundo, não bastará a palavra na margem para chamar a maré?
Deixo que as estrelas venham na sua navegação geométrica aparecer antes da foz. Podia pendurá-las junto à natalícia lareira, mas a chaminé ainda cheira a enchidos e a tímido eucalipto. Será que as gaivotas e as andorinhas do árctico têm das estrelas os olhos riscados, ou apenas uma láctea mancha de todos os excessos?
Ficaram passos no início da terra e no fim do mar. O que há de mais efémero que esta brisa que vai sempre atrasada para a sua morada mais além? Caiu a onda, como a cabeça no ombro, como uma boca na boca, ou, talvez, como todas as outras ondas. São os olhares que teimam em não ser só olhar que desvirtuam as coisas, que as despem, que as reinventam, é por isso que eu odeio esse olhar mesquinho, manso, míope, que guarda a virtude das coisas. Prostituo-me em cada olhar, como a gaivota que se dá a todo o vento, e não recuso dar-me a um novo horizonte ainda que em toque breve.
É preciso voar, é preciso voar! até que a luz do vento se apague e na tarde mínima o cordame da memória se dilua neste absoluto desejo de sem rumo para todos lados rumar...

quinta-feira, novembro 12, 2009

Esperar de olhos sentados...

Para olhar havia uma janela, um dia partiram o vidro e colocaram uma fotografia das Caraíbas, só que a areia escorreu ferindo os olhos... Vieram então os peixes de prata que rodearam o luar e cintilaram na fome do pescador. Um barco de junco entrelaçado veio do antigo Egipto e Cleópatra quis ver como se ama no futuro. Tanto tempo nos calendários, disse ela, e ainda assim continua a haver quem morra à míngua de palavras que não estão mais que um segundo nos lábios. Foi aí que chegaram uns estranhos que inabilmente mexeram no coração dos caranguejos e todas as paixões recuaram. Chamaram, com voz de haver ternura, as mulheres de olhos garridos, injectados de sonhos e sons vespertinos, e ninguém as esperou para colher as papoilas de ígnea brevidade. Logo, chegaram os vendedores de milagres, frios e fundos como a noite, mas irresistíveis como uns lábios que até servem para respirar. Ele há coisas de difícil dizer, ele há coisas de ser sem palavras, ele há coisas de terno e absoluto abandono, ele há coisas de esperar que aconteçam, ainda que isso me dê muito sono…

sexta-feira, setembro 04, 2009

abraço-te à distância...


Ela gesticulava energicamente. Brandia os braços, retorcia as mãos e todo o corpo se agitava como se quisesse com essa forma de expressão mostrar mais do que as palavras, apenas as palavras, eram capazes de mostrar. Um olhar um pouco mais atento pôde mesmo fazer ver que no seu rosto algumas lágrimas desciam pela força da gravidade ou pela força implacável da emoção. Não teria ainda os trinta anos, não era portanto ainda uma mulher balzaquiana, mas evidenciava um ar de arranjada burguesa e uma beleza indiferente à sua condição social. A beleza ocorre democraticamente, a sua manutenção é que pode eventualmente ser marcada pela assimetria social. Incomoda ver alguém que, pelo modo como se agita, indica que o mundo a hostiliza ou, no mínimo, não a compreende e era exactamente isso que um incauto observador, um observador ocasional, um improvável e imprevisível observador dava conta: uma mulher que está ferida ou que antecipa a ferida. Uma hipótese que me ocorreu na altura foi a da perda, isto é, uma perda acarreta sofrimento, acarreta dor, uma espécie de extirpação indesejada, e toda aquela agitação, toda aquela raiva, podia ter os deuses como destinatários ou se não os deuses pelo menos os senhores do destino, quem quer que eles fossem…
Elevei ligeiramente o meu ponto de observação. Queria saber quem a ouvia e era incapaz de atenuar, apaziguar, aquela tempestade. Tive que me deslocar e momentaneamente deixei de a seguir em pormenor. Logo que nova oportunidade surgiu morei nela os olhos tentando identificar o inábil companheiro. Precisei do intervalo entre dois semáforos para perceber que ainda não inventaram “mãos livres” capazes de dar abraços ou limpar as lágrimas.

segunda-feira, julho 13, 2009

da viagem e do horizonte


Para uma viagem nunca sabemos ao certo aquilo que não devemos levar. Há aqueles que se assenhoreiam de metade da vida para levar junto e são poucos, muito poucos, os que se despem até ao mais íntimo para não levar marca do passado. As viagens são, por isso, para estes últimos, formas de nascer mal se fecha a porta. Gostaria de pertencer a esta última casta, mas julgo situar-me numa espécie de ínterim que liga e simultaneamente cinde passado e presente, mas que os leva inevitavelmente na mesma viagem.
Descobri há relativamente pouco tempo o deslumbre da viagem. Não mais que dois passos após a soleira e já a alma se alegra. Se a viagem for mais longa, para lá do que a vista alcança desta janela de uma vida feita na sombra e, portanto, a amenizar a clausura de anos a dormir por dentro, então a distância é proporcional à festa, festa dos olhos, dos odores, dos sons, das texturas e dos paladares, e que embora podendo ser em tudo semelhantes aos de ontem e de sempre ganham pelas coordenadas diferentes o sentido da descoberta e inebriam por isso. E só quem nunca sentiu o sortilégio da ebriedade, uma das muitas possíveis, pode não a desejar repetida.
Nos rios nadam peixes diferentes num azul diferente e os pés cansados afogam-se em águas sempre diferentes. Os verdes das folhas são de paletas afins mas com um pequeno, embora decisivo, pigmento a marcar a diferença. A luz que vai riscando a angulosidade das sombras ao longo do dia varia entre a luz crua e dolorosa e a meiga e morna de entardeceres inigualáveis. E tudo isto sucede por influência do horizonte que se cruza. Para lá do horizonte é o reino do tudo possível. Viajar é por isso a sedução do horizonte e de muita sedução resulta por vezes a fusão absoluta.

segunda-feira, junho 15, 2009

Façamos de conta...


Façamos de conta, como nas histórias de poucas palavras, que o mundo é um pássaro embriagado de cevada. Que a avó é uma nuvem, pode ser um cúmulo ou um cirro, uma coisa ligeira e etérea, mas que ninguém se lembra se a chuva vem de um céu conservador ou progressista. Que em nenhum lugar ficam impressões definitivas, apenas uma leve poalha que convive na perfeição com a eternidade e outras medidas do tempo para os que facilmente se impressionam. Que um dia, daqueles em que morte tem doze horas e a vida vinte e quatro, alguém te chama como quem canta e te lembra que um melro diz o teu nome todas as noites ao largo das três. Que o rio, que pode ser essa torneira que pinga em perfeita sincronia com tudo o que irrecuperável, transborda e leva os peixes a sítios alucinantes. Que tudo o que aparenta sentido, como a intensidade da luz no rosto pela manhã e periodicidade dos equinócios à altura da cintura, é também uma história de mais ou menos palavras e com um final substituível como um chip de memória.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Passos imprecisos



De todo o tempo o único que enraíza fundo é o da palavra certeira, da maçã verde e do romance inacabado. Se falta a luz nas margens é porque o rio é memória. Troco uma vida por um olhar ainda que meigo ou incertamente míope. Todos dizem que sabem de que é feito o passado ou os passos imprecisos. Conta-me, apesar de tudo isso, daquilo que te faz respirar ou mastigar um sonho denso, de quantas cores esmaecidas havemos de redigir os beijos incendiários, acontecem dias minuciosos e só dizê-los é assassiná-los para uma realidade maior que a boca ainda que doce, que ágil, que deslumbrada. A tua mão versátil é uma borboleta com os olhos de Darwin e evoluímos juntos e nada a não ser o querer nos cruza. Desce a maré no dorso da falésia, águia de voo lento e coração onde o adjectivo de entrada é imenso. Caem as horas em vez de pingos de líquidos de embriagar, o meu relógio cava os seguros segundos do futuro e do passado, e chego sempre atrasado, tenho fome e o universo é indigesto.

sábado, novembro 08, 2008

da luz e das sombras

1. Entardece: luzes longas no rumor das sombras. O ponteado das nuvens tece silhuetas e mãos de cirros que teclam um horizonte quase perfeito. É a hora mágica das gaivotas, dos que se perdem no olhar, dos ocasos iridescentes e do último suspiro solar.

2. Anoitece: alguém acende as estrelas, aguça as cintilantes pontas e afaga seios meia-lua como se dissesse boa-noite. Há uma nocturna vida que cumpre o ciclo do contra luz e explode em vivo vermelho nos olhos dos amantes e dos cães famintos. Há um manual de sobrevivência à espera em todos os jardins sobranceiros a Lisboa e os perfumes antes do orvalho.

3. Amanhece: a menina que leva beterraba para alimentar o sol está atrasada. É fria a divisão da vida dos que rangem como os eucaliptos velhos. De que brisas vieram tantas aves madrugadoras e os rios a cintilar pepitas na nudez das margens? Deixo uma harpa em bom estado, um dedo gasto das cordas, uma voz a soar a café matinal e vou-me deitar na cama de onde se levanta o dia.

quarta-feira, outubro 08, 2008

da ausência


Por muita saudade em que as abrigue, ainda assim elas apenas me acenam e logo se dissipam como poeira. Mesmo que as olhe como quem olha em ternura viva, e as ouça muitos hertz antes do que é possível, este silêncio mura-me os dias. Sinto-as nos lábios e são amoras negras e melífluas de agosto, mas também elas se desfazem se as toco. Distanciadamente, como amantes de juvenil timidez, sabemos que o outro existe mas tocar-lhe seria profanar a estátua líquida, ou tornar a poesia uma ciência exacta. Sussurro, rumorejo, cicio, e nestes gestos que também servem para respirar, nenhum som emerge da transparência, nenhum som se ergue com corpo de dizer, nenhum som se aparte da minha boca-fonte-exaurida.
Por onde correm as palavras que do sangue sei eu?

terça-feira, agosto 05, 2008

No ponteiro dos dias...


Corre um rio alterado no ponteiro dos dias e a paisagem é a memória da cor. O céu que aluguei nesta janela é a minha quota-parte de incomensurabilidade e esta palavra se não é grave é líquida para uma boca em início de anoitecer. Há dias assim, em que ao dizer as palavras elas se insinuam por sabores e nos dias irrepetíveis as palavras tem mesmo corpo e cheiro e nessa altura, nessa altura, eu mordo o silêncio e sabe-me a paixão adolescente e inalo âmbar num pescoço que é só de vento.
Corre um dia alterado no fulgor do rio apesar de longínquo o Outono dos olhos. Pergunto-me pelas veredas por onde nunca chegaste embora eu as tenha pensado para ti, pergunto-me pelo papagaio de jornal e canas que ganhou vida num cinzento de trovoada, pergunto-me pelas manhãs de bebedeira e da necessidade de enlouquecer uma noite para não enlouquecer uma vida, pergunto-me como aqui cheguei tão depressa, e se não foi culpa desse rio alterado que corre no ponteiro dos dias…

quarta-feira, junho 25, 2008

do carvão ao tinteiro


Dei comigo a pensar que os escritores são indivíduos normais, pacatos, perfeitamente misturáveis com outros humanos Vulgaris de Lineu, apenas com uma audição mais arguta e talvez, também, com um especial dote para traduzir línguas em vias de exposição, ou em potência, como diria Aristóteles.
Olhei para cima da mesa e vi um usado, mas ainda com um porte nobre, recipiente para lápis, esferográficas e canetas. E eles, multicolormente dispostos, estavam ali como uma espécie de desafio. Era como se me dissessem: agarra-me e obriga-me a dizer o que tenho em mim. Sim, porque afinal todas as histórias, todas as grandes ideias, todos os romances e todos os poemas saíram de dentro de uma caneta, de uma esferográfica ou de um lápis. Não é preciso ser adepto de ficção científica para ousar dizer que são eles os autores, são eles que riscam o papel o cartão e deixam traços contra o tempo. É bem possível que esteja neles: na mina negra, na tinta azul, no pigmento entre o cinza e o preto, todas as histórias que megalómanos vários disseram ser suas. Alguém viu, alguém testemunhou, alguém sabe, de um romance, de uma reflexão filosófica, de um poema, escrito com ideias em vez de tinta?
Poderá muito bem haver uma alma na tinta, um coração que se esgota cada vez que se afia um lápis, uma dor violenta e indizível no impressivo borrão do aparo que morre inclinado demais.
Todos falam do papel, da sua brancura atemorizante, do desafio à vertigem, da provocação aos olhos que só pedem tréguas, e todos se esquecem que quem verdadeiramente o ama porque se funde nele é a tinta, é o aparo que o risca como unhas na carne, é a esfera que rola e por magia vai deixando atrás de si interrupções no branco que aprendemos a dizer por palavras. Nós apenas ouvimos o que o lápis diz de forma difusa e desconexa, mas o escritor é aquele que tem uma acuidade especial para a voz que circula entre o tinteiro e o aparo e o muito ouvir chega a transformar-lhe o sangue em tinta permanente.

domingo, abril 27, 2008

carpe diem


enunciar a vida como um tempo verbal, ainda que saibamos que se trata de um verbo irregular, pode transmitir a sensação de que dominamos algo e que senhores de um destino irrisório estamos em vias de grandes feitos. Felizes dos que são parcos de pedidos, até os dias de chuva lhes bronzeiam os desejos e avermelham a alma. Porque para os outros, os ambiciosos que terão sempre um peito demasiado pequenos para que o coração possa respirar sem receio de se quebrar, para esses, não há destino, nem vida, nem morte, apenas um gosto a imediato e a instante na boca e nas palavras. Para estes, não há tempo, desse tempo que se faz a somas absurdamente simples e infantis de segundos, mas um horizonte com todos os caminhos possíveis e onde as ruas se cruzam para lado nenhum que tu saibas previamente.
Enunciar a vida é o presente, o único tempo em que a vida é possível, tudo o resto é a história do futuro.

quinta-feira, abril 24, 2008

Do imprevisto


Estar aqui não significa estar próximo. Dentro do silêncio há um baú e dentro do baú um caminho para onde se arremessa o que se quer esquecer. Alguém passou sorrateiramente e levou a chave velha e oxidada e deixou imóvel um monumento. Circulou a Lua noventa dias o teu rosto de açúcar em cana e nem uma cratera, nem um mar, quanto mais a tranquilidade... Assomo o futuro como aquelas árvores que nascem de lado em feição do vento e ainda assim dão casa aos pássaros até de madrugada. Indiferente ao somatório dos dias, porque um só dia pode ser maior que todos os dias, apaziguo o relógio e deixo que a corda repouse até amanhã. Talvez amanhã seja o dia em que as romãs abrem em dentes vermelhos...

terça-feira, dezembro 18, 2007

Do Alfa ao Ómega

Substituí o papel branco pela tela azul, perdi o cheiro misto intimidativo misto convidativo da tinta e adquiri este vício quase mágico de escrever com a ponta dos dedos. Modifiquei o cenário, troquei de palco, mas a representação é essencialmente a mesma: dar corpo ao que é pensado, destecer a imaginação, inventar mundos substantivamente verbais. Há uma afeição própria das palavras que não substituindo o olhar, nem o toque da carne na carne, traz em si um deleite que vai mais longe que o olhar e penetra mais fundo que a carne. A procura é a da conjugação única, do jogo harmonioso dos sons e, mais do que tudo, de dizer o inaudito. Arquitectar o sentido e morar nele como a lagarta que se fecha por dentro do próprio casulo é aquilo que se procura quando se escreve. Sublevar as regras ao dizer o futuro que se furtou ao pretérito e perseguir o belo que é sem tempo. Caminhar orientado pela língua como uma serpente e saber que o verbo é o princípio e o fim e o antes e depois da memória. São as palavras que em permanência nos acompanham e como o ar que respiramos ou o sangue que nos alimenta só nos abandonam no instante da morte. O nascimento de uma palavra é tão importante como o nascimento de uma estrela porque também ela aporta mais luz ao universo. Alguém se lembra de um único instante em que lembrando-se de si não o faça lembrando-se nas palavras? E quando o poeta diz que estão gastas as palavras não é para que outras ainda virgens de dizer pontuem os dedos, a língua e expludam radiosas no poema que nos aguarda? E quando procuramos o silêncio não será esse branco de cor que é todas as palavras? Só existe o que é dito e é por isso que só vimos o que dizemos e de nada serve dizer que as palavras são uma invenção humana quando a verdade é que foram as palavras que inventaram o homem para haver quem as dissesse, assim as palavras são gémeas do big-bang, são mãe de todos os deuses, são o caos e o cosmos e escolheram por um absoluto sortilégio a nossa boca para morar e desse modo serem beijadas cada vez que são ditas.

sábado, dezembro 15, 2007

Réptil lunar


na noite é mais nítida a voz da memória, não a perturba a cor das coisas, e assim pode falar sem o eco do azul ou reverberação do vermelho. na noite fazemos promessas tácteis e riscamos desse modo testemunhos indeléveis na pele. no negro infinito da noite ardem as estrelas e ignorando a matemática da distância viajamo-las para sossegar o olhar e é então que as formas perdem a sua angulosidade de fazer ferir e na quietude da sombra tudo se afeiçoa a tudo. na noite saboreamos avidamente tudo o que é excessivo e talvez por isso haja em nós algo de réptil lunar. na noite longa, que é metade da vida, fazemos a morada dos sonhos, abrimos vezes sem conta a porta do corpo e é por isso que é nocturna a delícia.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

São demasiados os dias iguais...


São demasiados os dias iguais. E são esses que nos cansam e nos dobram como as árvores em que é sempre o mesmo vento a visitá-las. Somos máquinas das mesmas coisas, no mesmo sítio à mesma hora e quando avariamos substituem-nos as peças para não ofender a rotina. Começámos uma conversa quando aprendemos a falar e repetimo-la como um mantra sem que ousemos uma variação, não vá o Universo desequilibrar-se para lugares insuspeitos. Seres de vícios para evitar que assome o risco da escolha ou que alguém nos acuse de andarmos perdidos. Dias de espelhos múltiplos a simularem a profundidade do tempo e do espaço e já ninguém os estilhaça. É de mármore o coração adulto e não há ciência para reanimar as pedras. São demasiados os dias iguais para que a imaginação sobreviva a tão pobre memória...

sexta-feira, novembro 30, 2007

Antes do ocaso...


Trazer as chaves com os dedos em riste, nunca se sabe se a porta abre para o abismo. Do mesmo modo, as pontes, os regatos, com erva daninha em redor, podem bem ser só para olhar. O suposto saber acerca das coisas inibe que as toques sem uma escolha prévia da textura, por isso há que ressuscitar a cegueira antiga das mãos. O quadro onde te revelaste pelas cores pode ser parte do arco-íris mas é sobretudo o opaco vocabulário da tua consciência. Sobreviveste à possibilidade instante da morte porque chegaste atrasado ao encontro ou porque é inestético morrer quando ainda há muita música para ouvir. Amas os grandes espaços, os desertos de areia ou de água, porque neles se deita melhor o olhar e é morada suficiente para todos os que desejas. Invejas as noites sem lua porque assim no céu do teu corpo podes acolher ciosamente a luz das estrelas mais antigas. Beber o licor como o mar bebe o rio e sentir a ebriedade das alterosas ondas é outra forma de acolher o Inverno. Ser criança pela vida fora é uma espécie de contrafacção dos calendários, apesar da roupa nos deixar de servir. Viver só porque te comprometeste com o futuro pode ser arriscado se tens o hábito de te esquecer das horas. O melhor mesmo é ires já beijar os que regas a gotas de ternura não vão eles crescer demasiado para que lhes chegues aos lábios.

domingo, novembro 25, 2007

Das coisas com que se alimenta a alma


Hoje passei a tarde a contar gaivotas. Deve haver, certamente, coisas bem mais interessantes para fazer: passear no shopping, fazer as compras de natal, ir ao futebol, levar a família aos pastéis de Belém, beber uns copos com os amigos, ler Proust, visitar museus, enfim todas aquelas coisas que as pessoas normais fazem... Umas eram brancas, outras cinzas e outras ainda só asas contra um fundo de céu. Planam igualmente bem e simpaticamente voltavam a cabeça para baixo, na minha direcção, como se me quisessem cumprimentar. Eu, que não posso voar desde que me cortaram as asas em pequeno, gritava imitando o melhor que podia o ruído que fazem quando se juntam em animados festins. Aproveitavam a brisa e numa fila ininterrupta entre a arriba e o mar passavam mesmo à frente dos meus olhos. O mar estava tingido de um azul forte e alguns ‘carneiros’ polvilhavam-no de branco para que a monotonia não cansasse a vista. Dois ou três veleiros – como eu invejo esses felizardos! – pontuavam o horizonte. A rocha firme onde me deitei segredou-me que a terra é também um barco e, por isso, todos navegamos no mar dos mares sem outro rumo que não seja o infinito. Um corvo-marinho mergulhava como um ponto de exclamação no coração de um poema. Um gato preto pouco maior que um palmo fez sua morada o côncavo da rocha que tinha as raízes na beira-mar e de tão selvagem não deixou que o olhasse mais que breves segundos. Fechei os olhos como se quisesse fazer uma revelação interior que imprimisse nitidamente a minha memória. É bem possível que tenha adormecido como um réptil no sortilégio do meio-dia solar. Disseram-me depois que a tarde esteve fria e ventosa. Acredito. Foi por isso que escolheram o shopping para alimentar a alma...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Viver depressa e morrer novo...


Começo a achar estranho que tudo aquilo que dá prazer tenha um custo elevado e ainda por cima a cobrar na duração da própria vida. Se acaso me maravilha filtrar a luz das estrelas pelo fumo de um inocente cigarro logo um cometa assassino me ameaça com uma suspeita trajectória para os lados da constelação de câncer; se ouso ruborizar suavemente os lábios com um néctar de causar inveja a Baco logo a imagem aterradora da águia devorando o fígado de Prometeu me surge ganhando vida no mais cristalino copo; se me deixo adornar a muitos corpos como um barco a muitos portos logo por esse rio vermelho que tão bem me conhece por dentro se insinuam os cavalos de Tróia que hão-de abrir as portas à desgraça; se permito que o paladar me conduza por varandas de delícia e labirintos que só a boca decifra logo um coração agastado me lembra que há paixões únicas e irrepetíveis. Talvez haja aqui uma questão que só Einstein nos ajude a perceber: o tempo do prazer é intenso e concentrado. Um só segundo de prazer equivale certamente a muitos anos de uma vida chata e sensaborona, e por isso morrem jovens, nos calendários newtonianos, os que da vida fizeram um palco sempre em festa!

quinta-feira, outubro 18, 2007

Why?


Na minha adolescência, no tempo em que os dias eram maiores que 24 horas e em que eu sonhava a cores sem ter que adormecer, tinha um poster na parede do quarto com um soldado a ser abatido e um WHY? em letra inquietantemente grande que teimava em ser lido de onde quer que eu me encontrasse. Hoje já não tenho esse poster na parede, mas sou assaltado frequentemente por essa interrogação e continuo a não ter resposta. Agora que o bilhete de identidade teima em dizer que sou adulto era suposto ter encontrado ao longo da caminhada um conjunto de respostas que me apaziguassem os dias, mas não! Há no mais íntimo da alma humana um absurdo inextricável que, por mais que me esforce, não consigo entender. De onde vem esse ódio que guardamos uns em relação aos outros? O que é que rapidamente, demasiado rapidamente, nos transforma em implacáveis predadores, quando, segundos antes, éramos inofensivos seres prontos a ajudar os outros? Porque é tão frágil e evanescente essa fronteira entre o amor desmedido e o ódio cego? Pergunto-me como é que coabitamos com essas personagens tão opostas em cada um de nós? Não seremos todos nós de forma irrevogável doentes mentais sem cura possível? Temos um profundo horror ao ilógico, ao que é desregrado, ao que é imprevisível, mas se nos olharmos atentamente, o ilógico, o desregrado, o imprevisível são modos de ser caracteristicamente humanos, demasiadamente humanos...
O que me causa profundo espanto é essa flutuação entre os extremos não ocorrer em simultâneo em todos os homens e assim, enquanto uns ateiam as chamas incontroláveis do ódio, outros teimam abnegadamente em ajudar os que sofrem. Fazemos intervalos nas guerras, interrompemos a morte por instantes e logo depois voltamos a matar. Curamos as feridas dos que não conseguimos liquidar eficientemente; tratamos os prisioneiros, que momentos antes pretendíamos aniquilar, com regras e respeito. Que animal estranho é este? Onde reside o sentido disto tudo?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Além Tejo, Além mar


O Alentejo da minha infância era muito parecido com o mar, um mar verde de espigas e o horizonte lá muito longe para descanso dos olhos. Talvez por isso, hoje, que me desterrei em terras sem verde e com o horizonte mutilado com nuvens de betão, precise do mar para relembrar a infância e das gaivotas para continuar a acreditar na liberdade. O céu da cidade, mesmo naquelas noites em que a lua se ausenta, tem muito menos estrelas que pirilampos havia no meu quintal. Abro a janela, e não sei se é por estar muito perto do céu, não consigo cheirar o tojo, nem o rosmaninho, apenas me chega o odor apressado do autocarro e dos fritos da vizinha de baixo. A lentidão dos rebanhos que apenas se moviam na sombra, as mulheres coloridas que atavam as saias nas pernas, a panela de barro que me iniciou aos paladares superlativos, tudo isso se some como um nevoeiro que acinzenta as cores da memória. Só o mar é grande como o Alentejo da minha infância. Os barcos singulares riscando caminhos com chaminés e fumo são os montes onde o sol do entardecer gritava na brancura da cal. E os bandos de pássaros e as majestosas cegonhas regressavam como regressam as gaivotas a terra firme e conhecida. Nadar é como caminhar seara dentro e na pele o sal marca os mesmos caminhos que as farpas das espigas deixavam. O meu além tejo é agora o meu além mar, paixões paralelas que sei tocarem-se no infinito da minha infância.