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terça-feira, janeiro 01, 2019

Amêijoa em tons vermelhos...


Ao fim de incontáveis horas de balanços, muitos mais do que alguma vez um colo lhes tenha dado, retornam a terra.
Falam alto, como se quisessem ouvir-se acima das ondas, desse ruído permanente para ouvidos que perderam aos poucos a poesia e a música tão do agrado dos visitantes ocasionais. Não há nomes, apenas designações úteis de modo a não comprometer, esse é o jogo. E há um gosto, quase infantil, de intimidar, de veladamente inventar uma vida marginal. A dureza, a virilidade, a masculinidade, é avaliada pelo confronto com a autoridade, um homem para ser homem tem que ter batido, ameaçado, ou chamado nomes (mesmo que entre dentes) a um bófia. Só assim merece ser homem, só assim merece respeito, só assim pode amedrontar os forasteiros vindos de longe, dos lugares da legalidade, onde habitam os domesticados, os que nunca insultaram um único bófia que fosse...
Todos estiveram presos, todos saíram na semana passada, os menos afortunados saíram ontem. Hoje ganharam duzentos euros, hoje ganharam tanto que talvez possam comprar uma gaja, uma bebedeira, uma viagem vertiginosa, dificilmente uma felicidade ancorada.
De cócoras escolhem as pedras que se entremearam na amêijoa. São negras as pedras e a amêijoa, são negras as mãos, os rostos, e o sorriso para lá caminha. A vida aqui é dura e pouco extensa. Contam-se pelos dedos os que passado o meio século ainda arrastam o aparelho. Este precisa de braços fortes, este alimenta-se de braços fortes que aos poucos ali vão deixando o músculo e o nervo.
Quando a fibra já não permite viagem rentável, ficam na praia olhando o rio e o perfil longínquo da cidade, ajudam a puxar o barco, a carregar um saco para se dizerem vivos, e partilham as memórias com os que pisam o areal. Há sempre um barco que precisa de afagos de nova pintura, há sempre uma cerveja que precisa de ser bebida, há sempre uma conversa que ficou de ontem, e há sempre que arejar o olhar para o recolher nas tempestades.
Habitualmente de poucas palavras, mas quando se entusiasmam deixam numa conversa a vida toda. Dos filhos, das mulheres, das desgraças, dos sonhos, das vitórias, da guerra, da vida toda nesse lugar, tudo se diz numa vertigem de quem sabe que pode não haver outra maré e se houver nada nos garante que será propícia a navegações.
O rio corre para a foz e afaga o ventre prenhe dos pequenos barcos vermelhos. As sombras dão lugar ao festim de luzes. A cidade deita-se na margem como uma serpente.
Algumas amêijoas não sabem que esta será a sua última noite morada no rio, amanhã umas mãos calejadas as separarão das pedras e, por uma estranha magia, as transmutarão em euros, amores fortes, francos e fátuos e numa interminável gama de anestésicos em um qualquer porto-bar da Trafaria.

sexta-feira, outubro 19, 2018

manifesto contra o tempo


Um gajo fica deveras fodido quando descobre que o filho da puta do tempo é um vetor orientado que vai alisando e tornando infértil os terrenos por onde passa. A paisagem, antes diversificada e frondosa, chegando mesmo a ter frutos ímpares, é agora monótona e incolor. O corpo, que era uma espécie de vulcão que nos esforçávamos por manter dentro da cratera, mesmo quando em erupção, é agora uma imagem espetral cada vez mais pálida e de limites imprecisos.

Esta maneira de consumir o pavio em lume brando, fingindo que se ilumina alguma coisa, quando, de facto, apenas se consegue ver onde se coloca o pé seguinte e nem sempre, é uma espécie de tortura. Uma espécie de imposto diluído a pagar pela vitalidade, pela força, pelo ânimo, pela vontade e desejo que nos foram preenchendo dias atrás de dias.

Não temo envelhecer. Até porque não é retórica dizer que se está a envelhecer desde que se nasceu: é um facto! Mas chateia-me esta substituição da força pela flacidez, da garra pela condescendência, do espírito pronto pela inércia supostamente contemplativa.

A idade transforma-nos de uma forma indecente, alheia à nossa vontade. Deixamos de ser senhores de partes do nosso corpo que ganham, por estas alturas, vontade própria ou, na pior das hipóteses, não respondem seja qual for a vontade que as provoque. Ocorrem, com uma frequência desajustada, o mau feitio, a revolta, a ira, e o desejo de fechar os olhos.

Em tempos cuidava, e cuidava mal, cuido eu agora, que aqueles velhos que demoravam a mover-se, que pareciam um guindaste em periclitante equilíbrio ameaçando dobrar-se de vez a cada instante, eram preguiçosos, apenas procuravam chamar a atenção uma vez o charme do vigor já ido… pois, de facto, a injustiça acaba sempre por ser corrigida, demore o que demorar, e o verdadeiro justiceiro, Anaximandro dixit, é o tempo. 

É verdade que agora dialogamos com mais partes do corpo: falam as articulações, falam os músculos e falam muitos terminais sensoriais que nem sequer imaginávamos que existissem. Em contrapartida, os outros julgam, quem sabe se com razão, que já esgotámos tudo o que tínhamos a dizer e por isso deixam-nos descansados e absortos com as nossas novas e demoradas vozes de dentro para dentro.

Mas a idade traz a sabedoria! Oh, que felizes deveríamos ficar!... Mas quando chega a sabedoria estamos a fazer as malas e, assim sendo, para que raio nos serve a sabedoria se a viagem das viagens é a mais solitária de todas? Para sabermos o caminho, para não nos enganarmos no caminho? Pois deixem-nos andar sem norte! A sabedoria não partilhada não existe, como as obras-primas por publicar não existem, como o futuro não existe senão quando se faz presente. Trocava, de bom grado, a sabedoria por uns gémeos mais ágeis, por uma coluna versátil, por uns neurónios em excelente forma eletroquímica e por um fígado capaz de causar inveja a Baco...  Será pedir demasiado?




quinta-feira, agosto 02, 2018

da incerteza...


Eu nem sempre sei qual será o enredo do próximo momento e, esse facto, ao invés de me perseguir como uma ameaça, deixa-me a pensar que a liberdade é possível. Liberdade em pequeno formato, simples constatação de não saber programar à distância, péssimo gestor do tempo, outra forma de ser veleiro…

Tudo o que se possa dizer a propósito do modo como cada um faz a gestão do seu tempo é aceitável. Sei que há aqueles que temem um segundo de vazio como os beatos temem o mais pueril dos pecados, ambos sofrem terrível e irremediavelmente essa queda no abismo. Mas há outros que navegam sem carta, ou o moderno gps. Hesito em chamar-lhes aventureiros, embora também estes caibam nesta secção, e por isso chamo-lhes apenas espetadores pacientes. Sabem que por mais tarde que cheguem haverá sempre um lugar para eles e, mesmo que o lugar não seja o melhor, isso não significa que a cena de entrada que perderam roube a magia do filme ou que aquilo que não viram não possa ser imaginado com vantagens e deslumbramentos que o realizador sequer sonhou.

Também não tenho muitas certezas, embora oiça amiúde dizer que a idade nos traz certezas. Pois, a mim, a idade traz-me tempo e pouco ou nada de certezas… Claro que fica bem aos olhos dos outro, e à composição da nossa autoimagem, afirmar sem um átimo de hesitação que ter certezas, ter fixado respostas definitivas, é uma prova de maturidade, mas… e as dúvidas que ficaram instaladas nos bastidores, e a sombra sinistra que tira o resplendor que tal solar afirmação aparentemente transporta? Frequentemente me lembro do outro que tinha amigos que nunca tinham levado porrada, apenas ele parecia ter nascido para saco de boxe, e sei que há muitos amigos assim, gente forte, robusta, superior e que nunca, nunca por nunca ser, se deixa cair, se deixa enrolar como uma serpente ferida de morte no último abraço…

Dizem-nos coisas ao longo da vida, dizem-nos o que já lhes disseram, e se hesitamos em continuar essa cadeia de comunicação, essa veia aorta da tradição, desmerecemos da confiança e não somos mais do que um ruído incómodo para a paz e tranquilidade das boas consciências que urge silenciar. Depois há os corajosos, há os cobardes e há aqueles que têm dias, sobretudo se há público para alimentar a vaidade… Pois eu também sou daqueles que leva porrada, e talvez seja daqueles que mais porrada dá a si próprio. Não nasci para grandes empreitadas, não nasci para subir muitos evarestes, não nasci para inclinar a terra, não nasci para conduzir os povos, mas também não nasci para me embebedar solitariamente. Nasci para me embebedar de imenso, como dizia o poeta, e isso pode parecer uma extrema ousadia, para os que se embebedam apenas com álcool ou com o ódio ao que não é costume.

É possível que a haja um jogo, que cada um joga à sua maneira, entre a vida e a morte. Entramos em campo precocemente, dotados de muito poucas habilidades, e vamos ganhando tempo. Tempo é o prémio. Cada vez que sobrevivemos a mais um luar de insónia, a mais uma paixão em fim de festa, à perda daqueles que respiraram perto das nossas mãos quando as apertaram, ao desaparecimento dos lugares onde escondemos sementes para um dia virem à luz, ao ódio merecido porque fomos crápulas quando podíamos não ter sido, ganhamos tempo. Mas, como nos modernos jogos da era digital, vamos perdendo vidas atrás de vidas, ou como na biologia vamos acumulando lixo nas células e somos cada vez mais incapazes de usar o tempo para fazer a higiene necessária. Envelhecer pode ser, então, sinónimo de fazer mau uso do tempo, de não ter tanto domínio sobre a pilha de segundos que se acumulam e que pode agora ruir, apenas porque me esqueci de fechar a porta e a corrente de ar os fez estatelar num chão que é duro de mais para que os segundos caiam confortavelmente, como antes acontecia. 

Não tenho a certeza...

domingo, abril 01, 2018

o cavalete


Theo devia ser um irmão muito especial... Não o deixava morrer à fome, eventualmente suportaria o custo dos pincéis, tintas e telas e teria sempre disponível uma palavra de conforto nos tempos de maior desespero.
A família de amigos tem o privilégio de aceder aos lugares que permitem prolongar a  sobrevivência. São uma espécie de aporte imprescindível de oxigénio quando a apneia se afigura fatal…
Outros há, porém, que nasceram sozinhos, sem qualquer espécie de irmãos ou amigos que saibam, para além do nome, dizer palavras que aquietem o desânimo. É verdade que também estes podem ter história, podem ter deixado marcas na vida dos outros, ter mesmo acreditado, a espaços, que futuro não é só um tempo verbal.
Não havendo Theo resta-lhes a fome, o desabrigo, a solidão magra dos dias de incerteza absoluta. Todavia podem continuar a ser artistas… Todos sabemos que os artistas passam fome, emagrecem para caberem nos papéis, ou para pesar menos quando morrem. Todos sabemos que os artistas enlouquecem mais vezes que os humanos vulgaris de lineu e isso é o preço que a fama lhes cobra. Todos sabemos que os artistas são assessorados por deuses menores para também eles poderem participar na criação. Todos sabemos que os artistas ao beber néctar e ambrósia de imediato alucinam porque se deixam sugestionar por paraísos e palavras esdrúxulas que anestesiam a língua. Todos sabemos que os artistas são nuvens pouco densas e ainda assim nos trazem tempestades à alma.
Eu conheço um artista destes. Tem uma morada com uma vista privilegiada sobre o Tejo, é o primeiro a ouvir o rumor da ondas brandas, mal a manhã desponta. De noite o cavalete é privilegiado com o luar total, e o orvalho em parceria com a maresia deixam uma aguada para uma aguarela a cores suaves. Acenam-lhe dos transatlânticos quando vagam o Tejo e ele retribui o aceno, passando o pacote de vinho tinto de uma mão para a outra. Endireita-se para saudar o sol e retoca com a nobreza dos gestos certos o cartão da barraca por onde toda a noite o vento assobiou fantasias de uma portada entreaberta…
Mas do lado direito, esperando um irmão mecenas, o cavalete, decorado a sacos de plástico, espera por todos os quadros possíveis… Falta-lhe a família e a sorte, mas tem as duas orelhas!

segunda-feira, março 05, 2018

da eternidade possível...


















Não olho os dias segundo o calendário das cores
Perder-me-ia se fosse essa a bússola dos caminhos
De manhã nada espero para que tudo seja novidade
Assim tudo me surpreende se quiser fazer grande o dia
Ou nada me perturba se não quiser somar tempo ao tempo
Decido no momento a duração de vida desse momento
Amar muito ou ficar-me pelo assim assim Insossa figura
Dar tudo como se fosse maior a vontade do que lugar onde caibo
E fazer artesanalmente a minha história imprestável de tão única
Acordar é um privilégio dos que ainda sonham e inspiram
Até que um dia voltemos ao infindável ciclo do carbono
Que é única eternidade que nos há de roubar ao tempo
Do que penso, do que sinto, nenhum átomo sobreviverá
Mas destes ossos que seguram a caneta brotarão ervas daninhas
E outros alimentos para paleontólogos curiosos… 

quinta-feira, junho 22, 2017

à procura da sombra que acalma

Ao que venho, pergunto-me eu, num sítio que faz eco. Folheio, sem convicção, a memória de curto prazo, mas percebo, ainda assim, que a história é antiga.

Falo-me em demasia. Reclamo, protesto, encanzino-me, e por aí vou noutras direções semelhantes, algumas pouco dignas e outras de gosto duvidoso.

Concluo que a multiplicidade é um atributo muito mais presente e persistente na nossa espécie do que podíamos suspeitar. Nalguns casos chamamos-lhe doença e noutros genialidade, embora a ordem dos fatores possa mudar se as personagens não forem do nosso agrado.

Reflito enquanto caminho à procura de uma sombra. Talvez deva confessar, para não ser acusado de empedernido hipócrita, que a sombra que procuro tem a forma da resposta que acalma. Repetida sombra e repetido caminho.

Vivo, pois, malquisto da sorte, assombrado por dúvidas que ora se esclarecem passado o tempo em que a desgraça devia ocorrer e não ocorre, ora permanecem como uma espécie de padrão a assinalar que saber muito é vedado aos mortais que negam a imortalidade (e aos outros também, só que eles não sabem…).

Para quase tudo (e não digo tudo, só para parecer humilde) o toque da distância, quer espacial quer temporal, mas, sobretudo, temporal, tem a virtude de retirar peso, importância e dramatismo às coisas mais avassaladoras na análise sem intervalo. O presente convoca as dores todas, a incompreensão inteira, o ódio perfeito, a raiva completa, mas também a felicidade absoluta, o deleite sem fim, o zen decisivo. Vistos à distância estes momentos vividos tão intensamente no passado são, na maioria das vezes, tão tocados pela hipermetropia que deveríamos avisadamente duvidar da graduação convocada no imediato e esperar, pacientemente, que os olhos aprendam a focar à distância. A nitidez, dizem-me as experiências desfocadas, precisa de exposições longas e que cessemos de tremer.

Adiar a gratificação que nos chega do prazer imediato ou obrigar o sofrimento a diluir-se porque agora não tenho tempo nem paciência e sei que a chama intensa se há de consumir como se consomem as memórias, tudo isto se pode tentar e até fica bem na literatura e nos consultórios psiquiátricos. Mas, aqui, nos dias que teimam em ter dentro minutos que se somam em horas, que raio havemos de fazer ao humano que obstinadamente quer viver em continuo? Amestrá-lo como um Adão e uma Eva sem cobiça? Ou dar-lhes uma Eva Herzigová e um George Clooney que lhes anestesiará as dores lhes embotará o espírito e os tornará animais em trabalho de cio permanente? Em última análise, poderemos sempre recorrer à criogenia e esperar o apuramento da raça, que não chova quando partimos as últimas varetas e que não morra ninguém de fome enquanto jantamos…

Despreocupada corre a brisa com toques de verbena, voa a borboleta seguindo o eclipse por detrás de cada árvore, canta o melro em sol menor num apelo para haver mais melros e cresce a erva para que o mar possa ser verde nos lugares em que só se navega para naufragar.

Fico doente dos olhos quando penso e fico doente do que penso quando olho. E o poeta lá continua em bronze esplendidez com odores de absinto e uma enfado irreparável de tanto silêncio.

sábado, junho 17, 2017

depois do inverno...

Com o tempo fora perdendo o apetite, a voracidade, o encantamento, o entendimento da sedução. Ou se sentia e percebia tudo isso, fazia por esquecer com um encolher dos ombros que, não sendo de derrota, era, pelo menos, de tréguas prolongadas.

Quando se chega aos cinquenta é difícil não fazer uma espécie de balanço intermédio. Porque cinquenta é um número redondo e, sobretudo, porque cinquenta é muito tempo de vida. Na maioria das vezes, significando muito mais passado do que futuro.

Ela fizera esse balanço. Continuava a fazer esse balanço, porque já fizera os cinquenta e um e os cinquenta e dois. Um casamento de vinte e seis anos, dois filhos prontos para voar quase de forma autónoma, uma casa sem grandes luxos mas suficientemente confortável para não se sentir agredida no regresso ao fim de cada dia, uma condição económica suficientemente desafogada para não ter que viver angustiada pela duração dos meses e um emprego supostamente estável e com poucas notas de escravatura, tudo isso foi objeto de avaliação e continuava a ser.

Tendo aparentemente tudo o que se assume como essencial na vida de uma pessoa, questionava-se porque não se sentia realizada, feliz, completa ou qualquer outra sensação que a deixasse viver os dias, pelo menos mais dias, com olhos brilhantes.

De manhã, quando se olhava ao espelho, com as últimas gotas ainda a sulcarem o corpo, sentia que as esculturas do tempo tinham como modelo as peças mais avantajadas de Moore e isso nem sempre lhe agradava. O rosto que via trás do seu, emergindo do embaciado vidro, bafejando-lhe pescoço e orelhas, nem sempre o reconhecia de imediato. Os filhos que, sem voz nem gestos ternos, comiam manhã cedo para logo desaparecerem, sentia que tinham crescido demais e talvez o coração se tivesse afundado em demasiado tamanho.

De casa saía todos os dias quase ao cronómetro. Sete minutos até ao autocarro, vinte e oito, trinta de viagem e mais cinco a seis de passo reservado até ao café, a um quarteirão do emprego. Embora não a irritasse, não a deixava particularmente feliz, ver as mesmas caras, ouvir as mesmas vozes e ter que responder a cumprimentos sem vontade. Sentava-se dez minutos, não mais que isso, para beber um café e fumar um cigarro imaginário. Quando isso era possível, escondia-se atrás da coluna e da escada que levava ao primeiro andar e imaginava fumo e sabor sozinha e podia estar em silêncio. Pelo menos para o exterior.

No emprego tudo era mecânico. Dá o braço, estica o braço, aperta, enfia a agulha e suga o sangue. Se se sentir tonto espere um bocadinho lá fora. Até as palavras eram ditas numa sequência irrepreensivelmente igual, fosse qual fosse o cliente ou o dia da semana. Escreve etiqueta, cola etiqueta, guardar num escaparate e chamar o seguinte. Depois, a meio da manhã, correr para o hospital e iniciar outro turno. Outros dias, começava no hospital e acabava em casa e toda a jornada era um vazio absoluto. Se lhe perguntassem o que tinha feito, que contasse um episódio, mesmo que pequeno e usual, nesses dias não era capaz. Descobria que também as pessoas podem funcionar em piloto automático. O que lamentava era que isso não lhe desse espaço, tempo, liberdade para viver em paralelo com a rotina uma espécie de vida.

Perguntava-se, nesse já prolongado balanço, se sempre assim tinha sido. Se, há muito tempo atrás, tinha saboreado a vida, o companheiro, os filhos e tinha ficado com os lábios adocicados. Embora a memória fosse difusa ocorreu-lhe que sim, que lá atrás as coisas que fizeram a sua vida tinham sido diferentes.

Numa pequena janela do tempo, na sua década de trinta, antes de ser mãe, lembrava-se de episódios de grande e completa entrega, de deslumbre amoroso, de jornadas épicas de sexo. De uma ou outra viagem em que, quase em êxtase, descobriu que as fronteiras não são muros mas portas abertas. Mas até esses episódios perdiam intensidade e cor a cada nova revisitação. E depois tudo o resto, a grande amálgama, o caos, a unidimensionalidade.

O homem que a olhava por cima do ombro, num vidro embaciado, logo pela manhã, eclipsava-se durante os dias e cada vez mais se eclipsava durante as noites. Ainda bem, dizia de si para si, até representar era uma tarefa cada vez mais difícil. E quantas vezes representara no passado… Quem é que nunca representou para sentir menor culpa,  pensava ela para se reconfortar. Quando lhe acontecia não coincidir no período de sono, olhava-o à procura da antiga ternura, das palavras meigas, dos tais desafios à animalidade mais humana da entrega, e não conseguia ver. Via uma coisa roncadora, desprotegida, como tudo o que dorme, e que nem a atraía nem a repelia, antes instalava a estranheza e a inquietude e doía-lhe por ser assim.

Na sua década dos trinta aquele homem foi todos os homens. Depois, começou aos poucos a deixar-se seduzir por outros homens que nunca conheceu, com quem nunca falou e que nunca suspeitaram da sua existência. Chegou a levá-los consigo para a cama e a partilhar algumas respirações ofegantes. Nunca teve coragem para encher a imaginação de carne, ossos e sangue. Não sabia dizer se era arrependimento que agora sentia ou se alívio. Apenas sentia confusamente, como sentem as coisas que estão vivas.

Seriam os próximos dez, vinte anos, iguais a estes, igualmente cheios de coisa nenhuma? Seria este o caminho em que todos os humanos desembocam, ou seria o seu caso especial e particularmente agudo? Quem teria guardado o seu fio de Ariane e condenara a deambular sem ver luz nem saída?

Talvez fosse apenas um momento de crise, embora um momento um pouco mais dilatado daquilo que costumam ser os momentos, mas que teria o seu epílogo. Ao mesmo tempo animava-se com a ideia, que já ouvira repetidamente, que as crises são também, ou podem ser, momentos de oportunidade, momentos de viragem. Crise não tem que ser sinónimo de tragédia ou final sem remissão. Estes pensamentos eram uma espécie de analgésico, uma mezinha contra o infortúnio. Ela tomava-os sem parcimónia, tão incómodas eram as dores por que passava…

Nos piores períodos, quando recolhia redonda, qual tartaruga amedrontada, ao centro de si mesma, chegou a pensar que o melhor era despedir-se, perder-se de vez. E era tão fácil! Mas, paradoxalmente, foi essa facilidade que a reteve, que a fez abrir a janela, que a levou a respirar de novo. A facilidade advém da sabedoria ou da ignorância e percebeu que não era sábia e recusava a ignorância. Quando soubesse porquê e como tinha chegado até ali, então, sim, tomaria uma decisão sobre o que fazer de si, e não era preciso saber tudo, decifrar ao pormenor, esmiuçar detalhe por detalhe, não. Bastava-lhe, pensava agora, um simples vislumbre mas nítido, a marcação do que fora sombra e podia ser luz, quando parara e devia ter continuado, ou de como a alegria de viver, seja lá isso o que for, pode reanimar-se em respiração boca a boca.

Até que um dia, perdeu propositadamente o autocarro, hipotecando por instantes, que são sempre definitivos, o cronómetro que lhe geria a vida. A chuva miúda humedecia-lhe os lábios, os cabelos, as mãos e turvava-lhe as lentes com que via, julgara durante muito tempo, a nitidez do mundo. Caminhou sem rumo, pelo puro prazer de se deixar ir. A cidade escurecia dentro da noite. Não atendeu o telemóvel, mas sentiu um prazer pérfido em ouvi-lo tocar repetidamente. Avenida após avenida, ruas e cruzamentos, calçadas e escadarias e nada de cansaço, nada de arrependimento.

Os filhos voltaram a falar detalhada e insistentemente, mas agora é ela que não responde. O marido sente frio e desconsolo sempre que vê a almofada vazia e procura-a afincadamente noite após noite e apenas a encontra na memória.

O campo de refugiados na fronteira da Etiópia também tem pessoas com braços, mas voltou a precisar da habilidade que julgava ter perdido para encontrar as veias quase secas. Aos poucos voltou a sentir-se útil, necessária e desejada em dois lugares distanciados por milhares de quilómetros.  

Aos poucos voltou a ter trinta anos.

Esperava, pacientemente, que os outros também voltassem a ter.

sexta-feira, abril 28, 2017

voar como os falcões

A linha de costa perdia-se ao longe onde o olhar acabava por se render. Apenas as aves polvilhadas com a cor da espuma emergiam por entre as nuvens. A manhã abria-se à luz, ao sol e ao anúncio de outro dia. Tudo em repetição rigorosa como nos outros infinitos dias. O mesmo cheiro húmido complexo de ervas e algas; o mesmo frio cortante a embater na arriba tão velha quanto o mundo; a mesma música das ondas a dobrarem-se sobre si próprias, a respirar sal e embalar os viajantes da rebentação. 

Embora parecesse uma estátua, a respiração acabava por o incriminar como gente. Estivera toda a noite a olhar hipnoticamente para uma pequena luz laranja que subia e descia na cadência da onda. Sentira frio e os goles de whiskey trataram de remediar tal mal. Sentira fome e a sandes mal amanhada depressa corrigira tal estado. Mas, tirando a contemplação dos astros e o ouvir a forma como caem os segundos ao somar o tempo, nada tinha tirado do mar. O isco, teimosamente, não seduziu nenhum dos peixes que ele sabia existirem naquela linha de espuma, música minimal e força bruta repetida.

Debruçado sobre o abismo, os primeiros raios de claridade souberam-lhe bem, aconchegaram-lhe o corpo. Não eram tão intensos que chegassem à alma, protegida que esta está por uma carapaça de palavras e senhas desconhecidas, mas, ainda assim, alertavam-no para a sua condição de ser vivo.

Três gaivotas planavam a não mais que cinco metro do seu lugar de pernoita e todas viraram a cabeça interrogando-se acerca daquela ave estranha que competia com elas em altura e envergadura.

Recolheu anzol e chumbada e afeiçoou a cana num saco preto de pano que terminava com um nó que já há muito desistira de desatar. Bebeu os dois goles de álcool que ainda restavam e acendeu um cigarro. Pela altura do sol, eram sete horas e quarenta e três minutos quando mergulhou de sessenta e seis metros de altura. Nos poucos segundo que voou como um falcão ouviu repetidamente a voz da mulher: “vai, vai lá à pesca, mas não te atrevas a voltar de mãos vazias!”


Nunca os peixes daquele litoral tinham visto tão grande e suculento isco. Começaram pelos olhos castanhos…

terça-feira, março 07, 2017

Build sofas, not walls


É nos lugares mais imprevistos e com as personagens menos esperadas que nos surgem as grandes revelações.
Todos sabemos que a velha Lisboa é agora, segunda década do século XXI, uma espécie de Babel, onde aportam vozes e fisionomias que até há bem pouco tempo atrás eram viajantes de outras latitudes e que só muito esporadicamente por aqui aportavam. A calma, a hospitalidade e o baixo custo de vida, para o standard da maior parte dos países desenvolvidos, torna a lusa terra um lugar muito apetecível.
Um simples passeio pelas ruas que desembocam no rio, ou pela cidade alta, é uma incursão nos compêndios linguísticos e, ao mesmo tempo, um revisitar daquelas cadernetas de infância onde se colavam os cromos com povos das diferentes partes do mundo. Do inglês, com e sem sotaque, passando pelo alemão, francês, italiano, russo, japonês, chinês e, sobretudo, o castelhano, e mais um sem número de sons e palavras indecifráveis, tudo se encontra sem ser preciso procurar muito.
Vêem tudo ao pormenor, com e sem guia; a pé, no afamado 28 ou no infelizmente ruidoso tuk-tuk; parando demoradamente para descansar os pés das exigentes colinas e, na maior parte dos casos, para ler com a luz única de Lisboa um romance que sai, deste modo, inevitavelmente favorecido. Param junto às montras e fotografam as exóticas comidas: pastéis de nata, peixes e mariscos variados, como quem fotografa baratas, gafanhotos ou serpentes sem escalpe num mercado de Banguecoque.
Junto ao rio celebram votos e tiram fotografias de grupo e, alguns, permanecem imóveis, verdadeiramente hipnotizados, tocados pela magia do Tejo, horas a fio, sem qualquer outra intenção que não seja guardar para sempre a visão de uma vida.
Nesta Lisboa há também lugar para os desavindos com o destino, sejam eles lusitanos ou dos que percorrem o mundo, transpõem fronteiras, à procura do paraíso que, para eles, está sempre mais além e, cada dia que passa, parece afastar-se mais e mais. Não chega a estar no horizonte, mas sempre para lá, muito para lá do horizonte, de qualquer horizonte…
De braço estendido, arrastando uma muleta e uma perna destroçada; prostrados sobre si próprios num sono que antecipa um desejo de morte; tocando instrumentos afinados pelos passos apressados ou interpretando um canto agónico que não há álcool suficiente que afine; com os filhos no colo que nunca pôde ser abrigo e ternura; estes humanos, demasiado humanos, são também uma das faces de Lisboa.
Vivendo na miséria, ainda assim mantém um traço de humanidade que me surpreende: a capacidade de partilha. Vejo-os, repetidamente, a dividir o que têm, o que conseguem com as esmolas. Mas, também, são capazes de desenvolver mecanismos apurados de sobrevivência.
No cais das colunas, lugar onde o Tejo beija de forma mais intensa, repetida e cúmplice a cidade, há meses que para sobreviver um casal esculpe uma efémera estátua com areia do rio. Começou por ser um cão, seguindo o modelo do seu próprio cão; passou, posteriormente, para um sofá onde o dito cão aparece refastelado e, numa última versão, o sofá com o cão e ainda uma miniatura de um canídeo na frente junto à caixa que espera pacientemente as moedas que possam cair. A actualidade política está também presente, com palavras de ordem escritas a vermelho: Build sofas, not walls ou Welcome friends except Donald Trump.
Ora bem, os artistas têm também que descansar, é a sua parte humana. As moedas ganhas durante o dia deverão providenciar uma refeição, um lugar de sono e pouco mais. Para ser justo aos factos, providencia ainda umas cervejas ou uma garrafa de tinto, inteiramente merecidas, de resto. Assim, cedo, numa manhã morna de um dia feriado, o artista ainda ausente, a escultura com marcas esparsas das gotas de chuva que caíram durante a noite, foram a oportunidade imperdível para multiplicar a gente feliz e a afirmação mais convincente do valor e importância da arte.
Um dos mendigos, daqueles do braço estendido e da muleta, apropriou-se do território museológico do cais e, timidamente, sempre em modo de alerta, não fosse o verdadeiro artista sair subitamente das areias, encostou-se à parede, qual guardião desta esfinge que se desmoronava, não sem antes colocar a sua caixa de cartão à frente da peça, e aguentou, tanto tempo quanto lhe foi permitido pelo seu medo, a invasão do território alheio. Algumas moedas foram caindo, algumas moedas foram sendo recolhidas e nessa parte da manhã o artista foi o verdadeiro mecenas. Em pouco tempo o dia ficou ganho e tão lesto quanto a muleta lhe permitiu afastou-se do lugar do delito.
A meio da manhã com os escultores ainda ausentes, a efémera obra continuava a ser visitada, registada fotograficamente, enquadrando o Tejo e a ponte vinte e cinco de Abril, e dando azo a comentários que oscilavam do espanto à estupefação. Faltava porém o artista, o curador ou, no mínimo, o vigilante. Mas não faltou durante muito tempo…
O aguarelista residente no cais fixou as suas obras, acomodou os seus parcos haveres e sondou rapidamente o vigor do comércio matutino. Poucos eram os potenciais clientes, pouco interesse despertavam as suas suaves aguarelas, mas muito interesse despertava o sofá, os canídeos, as palavras de ordem e o enquadramento.
O sol era pouco e o chapéu podia ser dispensado para funções mais elevadas e mais altruístas. Aproximou-se e numa reverência estudada descobriu a cabeça e posou o chapéu na frente da escultura. Encostou-se ao pilar e não foi preciso esperar muito para que as moedas fossem caindo de mãos reconhecedoras da grande arte. A musicalidade das moedas a tocarem umas nas outras deve ser para estes homens o verdadeiro, o sublime hino à alegria. Sem outra fonte senão esta que brota da boa vontade, não é difícil perceber esta selecção musical…
Mas se se partilha o que é exíguo, também se protege a pequena propriedade, e em virtude desse desígnio o homem da bandeira, que empresta o símbolo nacional a troco de uma moeda, cuidadoso ao verificar que no chapéu estava uma nota de cinco euros, que podia levantar voo como se de uma gaivota se tratasse,  lesto se apressou a alertar o aguarelista dono do chapéu que, com rapidez e destreza, a guardou no bolso registador.
Primeiro fora uma caixa de cartão, agora era um chapéu e logo mais, chegados que fossem os modeladores da areia, seria um pano, a recolher as migalhas que somadas tornam possível somar dias.
Acredito que o homem da caixa, o homem do chapéu, o escultor de areia e, talvez, até, o homem da bandeira, pertencem todos a uma mesma família e que um cão de areia os guarda e alimenta a todos, o que vem provar de forma decisiva que o cão, mesmo de areia, continua a ser o melhor amigo do homem.


domingo, outubro 16, 2016

A música já está feita, o texto está por fazer.



A música já está feita, o texto está por fazer.
Talvez por isso escolhas essa forma de assobiar sobre o vento
Em vez de ousares aparelhar palavras que podem erguer muros e moradas
E deixar vestígios de saliva e tinta seca nas mãos cavas
E que nada apaga ainda que se tornem incómodas tatuagens na memória.
É fácil, é até sedutor, emprestar os ouvidos às mulheres que cantam
Em silêncio deixar que elas julguem a quantidade de desejo que as ouve
E que imaginem os cenários mais idílicos para compensar todos os não-dias.
As palavras podem ser melaço de cana ou uma lâmina de brilho inquieto
E algumas, labirintos em que o inclemente eco se teme mais que o Minotauro.
A música tem arestas boleadas e claves de Sol mesmo nas notas invernosas
Os violinos dão pouso aos pássaros e a flauta usa-lhes a voz emprestada
O maestro segue fiel atrás da batuta que sabe de cor todas as músicas
E até as crianças de ouvidos pequenos adormecem por Si sem Dó.
O texto desafia sem pauta a travessia branca do deserto
Exige um rio, mas não sabe apaziguar a sede
E liberta personagens que nunca mais te deixarão viver sozinho.
Alguém escreve a branco e preto neste piano que se ouve
É fim de tarde, hora profunda e um acorde solta-se ágil e completo,
Alguém, com jazz na voz, esta noite improvisará o que há de música no poema.

quinta-feira, julho 21, 2016

Ao Ruy Belo


Possivelmente ainda não chegaste, o areal está deserto e ao longe apenas gaivotas
Disseram-me que havia dias em que chegavas cedo, antes de haver luz
Que vias os pescadores, em barcos coloridos, romper as ondas enquanto acenavas
E seguias entre a tua melancolia e a espuma do mar a desaparecer no vento frio
Talvez esperasses que o poema se escrevesse no teu rasto de polvo das palavras
Ou o percebesses nítido e íntegro apurado o ouvido junto à senhora da guia 
Mas hoje, já percebi, hoje não te apetece o sal a colar os lábios nem ouvir as varinas
A noite teve muita lua, o uísque correu vagaroso e tiveste um problema com as unhas.
As algas dançam a meia água e morrem em tons castanhos, como os teus olhos
Chegou um homem descalço até aos joelhos e ameaçou o mexilhão com uma faca
Hesito em dizer em qual dos teus versos melhor o descreves
Porque lhe falta um saco de serapilheira para acomodar o destino.
Irisa-se o céu do lado de onde costumas aparecer
Mas a todos os que vejo vir lhes falta o ar de poeta e de ter insónias amiúde
Terás tu deixado Vila do Conde ainda com uma garrafa em maré cheia
Ou acometido de paixão súbita enlouqueceste de novo como na primeira vez
E rumado à Consolação para te livrares das dores que dão nos ossos que há na alma?
Vou perguntar por ti no cais, antes, talvez, ao velho banheiro, mal acenda o cigarro
Todos te conhecem com o mar ao fundo, poucos te sabem pedreiro das palavras
Se acaso morreste e, por isso, te atrasaste em voltar à praia
Manda um recado pelo homem que faz bom o caminho alumiando o farol
Evito assim andar Atlântico acima Atlântico abaixo para te dar um abraço
Dar to ei em qualquer lugar onde leia os teus versos que me inquietaram a vida.

quinta-feira, março 24, 2016

poesia-me...

É sábado e não sei o que é feito do contador dos dias
As árvores estão quietas sobre raízes quietas sob nuvens desfeitas
À distância formam-se as palavras no recorte dos lábios e soam
Mulheres e crianças caminham enquanto crescem
Um cão sobe pelo passado e é quase lobo
Numa mesa decide-se o teu futuro entornando-o.
Sempre me disseram que os sábados são rápidos de viver
E ainda que os sonhos durem as primeiras horas
Geralmente não sobrevivem à luz desmedida com que te acordam
Nem ao excesso de picante com que condimentam a realidade
Mas, ainda assim, os amantes florescem ao fim de semana
E dois em cada três admitem ter gemido de prazer autêntico.
Os sábados são os dias em que ninguém quer morrer
Porque as coletividades estão cheias e os bilhetes pagos
E irrita interromper uma dança para varrer folhas,
Ou defumar de eucalipto a mágoa e a saudade.
É preferível  amanhar as criancinhas, enlaçar-lhes cabelo e voz
E descer aos rios que só existem para as entreter,
Com gaivotas que são balões de gás mais baratos,
E peixes que saltam para lacrimejar nos círculos de azul onde se escondem.
Os sábados, mesmo os mais cinzentos, têm sempre enormes janelas abertas.
Os escravos vão à missa e são voluptuosas todas as mulheres livres
Que nos jardins consideram usar cores extra e perfumes de  Marrakesh.
Estes são os dias de aventura e risco e de abocanhar a vida
Porque nos domingos o trapézio está preso no lado obscuro da lua
E as lantejoulas emudecem nas gavetas entre mofo e bichos do pó.
Os sábados antigos eram generosos com os magalas e as sopeiras
Davam nós nas mãos, beijos clandestinos e faziam filhos em pensões baratas
E as meninas de família nesses dias invejavam quem urgentemente se amava
Enquanto elas com o cio amarrado ao corpo se mortificavam em ânsias e suspiros
E pecados mortais atrás de pecados mortais de tantos desejos atirados para o futuro.
A família fazia dos sábados um restaurante de apaziguar ódios
Distribuíam gratuitamente um enorme sortido de beijos de judas
E no fim contavam as facas e as feridas abertas.
Nos sábados por impositivo legal nunca chovia
Ninguém vestia fatos usados nem punha ouro a fingir
Nem lamentava amar o mesmo homem durante décadas.
Aos sábados são permitidos todos os excessos que dão asas
E usar beijos e festas acintosas acima da cintura para depois levantar voo no corpo todo.
Aos sábados há futebol e outras perdas de memória
Os filhos saem pela primeira vez para se embebedarem
E a vizinha do lado aspira-nos o sono mal rompe a madrugada
No sábado dispensamos o sossego e outras coisas inúteis
E todos acreditamos na imortalidade até segunda-feira…

sexta-feira, março 18, 2016

contaminar os dias

















O meu mundo é o que digo
e as muitas vezes em que silencio o que me vai algures no corpo todo,
é uma vontade irracional de desejar ser mais que só palavras,
mas fico sempre aquém numa margem indefinida
entre rios e marés de torpor e sombra
e mais que tudo as máscaras que não sei como tirar de cima
não dos ombros que as palavras são ligeiras
mesmo quando fervem na língua
e me deixam ferido para não ter que dizer nada,
mas nada é o mesmo que tudo
quando se perde o pé e as mais felizes horas são essas em que olho o mar em             suspenso,
como se a raiz dos dias se tivesse levantado para dizer o nome das coisas
e são ásperos os nomes das coisas que não consigo guardar,
que não consigo acoitar no meio do peito fechado
com sete ou mil e duzentos cadeados de aço e fogo
mesmo que não os consiga contar a todos,
mesmo que as garras do destino
que não acredito que tenha garras me levante do chão
me lance pelas janelas
que todos os precipícios têm para quem chega desconfiado
ou com medo das alturas
e eu creio que chego sempre com medo a todos os lados
ainda que não saiba que altura tenho
e se os dedos que começo a saber contar
poderiam contar para outra coisa
que não este miserável ofício de serem sempre apontadores de infortúnios vários
e ainda assim contínuo a sorrir
a forçar estes músculos manhosos todos os dias
todos os santos e infernais dias eu continuo a mostrar a língua
que me sai do interior mais oculto como se nada fosse
ou como se fosse tudo e mais um outro universo de coisas raras
deixo de lado os simples caminhos que não me levam onde quero
eu que gostaria de estar em todos os lugares ao mesmo tempo
a mim nunca me bastou a ubiquidade
isso sempre fui capaz de fazer sem esforço
o que eu queria, mas queria mesmo, era ser uma espécie de deus
que sem fazer nada de especial, só porque é deus, consegue esse - pasme-se - sortilégio
de estar em todos os lados sem esforço, sem nada de especial, apenas sabe de tudo,
tudo guia, tudo reconhece, porque testemunha de tudo aquilo que respiras
e não se cansa de te destruir o que querias que fosse tão íntimo
que em absoluto nem tu próprio tinhas memória fiel de ter acontecido
sempre há deuses com sorte
sobretudo quando despes a pele e no lugar de ti surge a maresia azul de contaminar os dias.

sexta-feira, maio 22, 2015

baco no cais

Atrás de si ficava uma estrada só de perfume e um esquecimento permanente de onde viera. Trazia na mão mais à direita um chocolate, de onde já libertara a vaca que habitualmente pasta junto à percentagem do cacau, por isso a prata estava pronta para repousar na braseira. Na superfície mais fina do olhar balançava um palhaço, um chapéu de três bicos e um urinol de barro novinho em folha. Só sabia os nomes dos pássaros do entardecer, porque nunca saía de casa com o sol a este e porque não queria acordar demasiado cedo o palhaço que trabalhava no turno da noite e só começava a sonhar quando abria a alvorada. Nunca fora a Espanha, mas sentira múltiplas vezes esse vento espesso que soava a castanholas e flamenco e empurrava para cá da fronteira chapéus de três bicos negros como a fome e a morte no choro dos contrabandistas de palavras impronunciáveis. Se os passos não o atraiçoassem, a sua vida caberia em meio século, mas esses passos de barco tempestuoso arrastavam para muito mais longe o calendário dos dias idos. Ainda bem que a memória se gastou como uma borracha se gasta ao apagar o desnecessário, o errado sem remédio, o esboço que não tem beleza nem nunca fará rir o universo. Ainda bem, pois assim podia morar em exclusividade o presente, sem raízes nem amarras, sem rumores nem remorsos, sem outros que morassem em si sem convite nem desejo, e beber, beber para ser oceano, beber desalmadamente sem suscitar cobiça, todos os mágicos líquidos que o faziam voar sobre lugares mais auspiciosos em ar e beleza por um urinol de barro novinho em folha.

quarta-feira, maio 06, 2015

Estrela do Norte

Agora, quando viajo, já não levo aquele cão que abana a cabeça a cada irregularidade da estrada, porque ficou no ford cortina com que me cruzei à saída da minha infância. Todos os ford cortina eram beges e deixavam fumo a anunciar a partida para lugares que eu invejava. Subia as persianas mal caía a noite e certificava-me que a ursa menor continuava a morar por cima do meu reino. Outros dias escondia-me para perder o norte e segurava o magnete que teimoso dizia sempre o mesmo. E é isso que acontece a quem não viaja: diz sempre o mesmo, ainda que use outras palavras. Todos adormeciam ao afinar o coração pelo relógio de parede, mas eu com olhos e eco de morcego exigia dias mais longos, porque não queria que os sonhos tivessem que obedecer a uma métrica de vida sóbria. Do lado de fora, as borboletas noturnas desciam da sua morada lunar e passavam à altura dos meus olhos e algumas aí ficaram para sempre para que os meus olhos também pudessem ser mais leves que o ar. As memórias ora são papagaios coloridos ora são corvos a debicar os dias que somos, é por isso que os mais hábeis de nós os enganam dando-lhes a memória das árvores em sementes. Das muitas viagens que nunca fiz guardo uma grande saudade, mas sei com absoluta certeza que o ford cortina bege ainda por aqui há de passar para me devolver o mundo e as palavras que não incomodam o silêncio. 

terça-feira, março 31, 2015

de areia e dos castelos

Já corri tanta praia à procura do único grão de areia que me falta e vou ter que continuar porque sem ele este castelo de tanto de tudo não se segura. Arquitetarei lugares efémeros para receber a noite com seu corcéis de sangue, enquanto os estábulos que mandei fazer em vime entrelaçado não vierem das margens de qualquer desassossegado rio. Há uma batalha à espera que alguém tenha uma vontade de morte, mas talvez a morte se canse de esperar e se faça coisa natural e suave como os fins de dia de junho quando amorna o vento e as aves são exclamações em voo dolente. Aqui deste lado, à sombra do castelo quase perfeito, vejo o mundo todo e paro sempre o olhar à tua porta grená. Esse vinho na cor embebeda-me e por isso toda a outra viagem que me obrigo a fazer é de uma violenta lucidez. Cruzo-me com raparigas magníficas de tão breves e descubro que há um pintor renascentista a desfazer-se dos amores porque lhe faltam as telas e o tempo. Os gritos das cores compõem a geometria rigorosa dos campos e o moleiro recolhe as velas porque apenas quer o assobio do vento para recitar a noite. Quando forem três horas o luar e o voo da coruja virão do mesmo lado do horizonte e um fio de frio beijar-te-á os ossos só para que saibas que estás vivo. Sobressaltos são abertos pela manhã e o dia é um limão gotejando na boca e ainda que beijes toda a água do mar e barcos de ampla vela ondeiem teus lábios só a mulher que amas saberá neutralizar a acidez do destino que não existe. Olho este relógio de dizer horas, porque não tenho os olhos dos gatos para ver as horas – como fazem os chineses -, e percebo que é quase silêncio certo neste mostrador inox que foi prenda de uma quarta classe de reis, rios, caminhos-de-ferro e alguns adjetivos superlativos. Entretanto no rendilhado da costa e no corpo oceânico o mar trabalha para que o meu castelo se cumpra. Somos mais líquidos do que sólidos e ainda assim não nos cresceram escamas em nove meses de amnióticas navegações.

sexta-feira, março 27, 2015

Meio dia absurdo ou a morte do poeta

Por entre sinos, buzinas e cornetas sem luz nem lustro o dia acabou por surgir mais curto que os outros, mas igualmente sinistro e decisivo. Amélia tinha uns pequenos laçarotes, em tom rosado ou vermelho demasiado gasto, que usava só em pensamento. Habilidade muito difundida esta de usar coisas em forma pensada. Falo de mim próprio, quando me vejo nas margens e sem fôlego para atravessar para o lado da sombra,  quando isso acontece, imagino uma árvore com uma copa saia rodada, com cigarras em dose reduzida, frutos já colhidos, e posso assim continuar num sol de 42º até haver escadas de água branca e casas de cal luminosa. Tenho mais dificuldade com as palavras do que com os lugares e, por mais que fechem as janelas e roubem os marcos geodésicos, perco-me com muito maior frequência no significado do que nas encruzilhadas por onde navego. Não preciso de relógios, bússolas e de nada me servem as estrelas porque as confundo todas numa imensa orgia de cor e de noite não vejo aqueles galos que nos telhados confidenciam para onde sopra o vento. A vida é como os chocolates é o que eu sei cada vez melhor. Os amargos são os mais saudáveis mas poucos os querem para despedir os dias. Coisas absurdas atrás de coisas absurdas acontecem se nos damos ao trabalho de estar atentos, e é talvez nestas alturas que homens de coração robusto, trabalhado em granito, descobrem que a mariquice das lágrimas liga bem com uma mini fresquinha, porque só choram quando o gás os engasga. Abro uma gaveta quando me quero aventurar num mundo novo. Debaixo da folha de papel com malmequeres miniatura que lhe forra o fundo há sempre uma carta, um postal, uma certidão de ter morrido, casado ou nascido. Em pequeno cheguei a pensar que já as vendiam assim, que só lhes acrescentavam as bolas de naftalina e o ruído da madeira seca a aninhar-se na escuridão da cômoda. Sei agora que são lugares onde se guardam os sedimentos dos dias vividos. Há um pouco de cada um de nós espalhado pelo fundo das gavetas, e hesito em chamar-lhes berço ou esquife apenas porque não sei para que lado se inclina a memória. Gostava de pensar a cores, mesmo nos dias sinistros e decisivos, porque assim podia escorregar no arco-íris sem precisar de uma licença de infância ou ter que pedir um poeta emprestado à morte. 

sábado, dezembro 27, 2014

borboletas em vez de coelhos

De tão longe chegam os rumores que ainda os não traduzi
Mas sei que são poucas as palavras que valham a pena repetir
Não houve tempo para puxar o lustro das paredes e fazer janelas
Nem quem quisesse esse trabalho por dois dedos de conversa
E tu sem vires por mais que eu olhasse a estrada antes de curvar
Temi que chegassem primeiro as estrelas e o uivo dos cães
Nada me comove mais que um luar adornado de cães ao longe
Em pequeno esse uivo era mais inteiro e dava-o aos lobos
Tinha uma janela especial por onde via se chegavas e onde surpreendia os lobos
Hoje não sei o que foi feito dessa janela nem dos lobos cinzentos
Ficou-me uma memória quase tão insegura como a água sem margens
E não sei ao certo se lastimo ou apenas digo o que aconteceu sem inventar
Continuas a não chegar apesar da espera inquieta
E tu sabes como eu me inquieto com as cores, os sons altos e as margaridas de maio
Saberás agora que tu não estares e deveres estar também me inquieta
É verdade, quando crescemos outras coisas se somam às que nos inquietam
Se chove demais ou o estio é prolongado ou a senhora de cima morreu sem avisar
Tudo isso começa a inquietar-nos e a criar modelações nos dias de calmaria
Tu sabes, tu conheces-me, para não ter que descrever tudo ao pormenor
Sabes quando eu adormeço porque não quero que a conversa se prolongue
Sabes das minhas técnicas de ilusão e sabes como a magia é um dos meus refúgios
Sendo mais barato faço aparecer borboletas em vez de coelhos
E se alguém tem de desaparecer geralmente sou eu que me presto a tal serviço
Tu ficas para ouvir os aplausos e nunca me contas das pateadas e dos assobios
E foi assim que descobri como se fazem filtros com o amor
Preocupa-me que ainda não tenhas chegado a esta cadeira que fiz para ti
E logo te havias de atrasar no dia em que te queria surpreender
Que estranho é essa coincidência ser no preciso dia em que te ia falar ao ouvido
Não queria que ninguém soubesse que coisas te digo quando te separo do universo.