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domingo, julho 11, 2021

Ao Renato














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Fechado o círculo

Eis o encontro

Com o sentido

Contrário

 

Eu mesmo

Comigo defronte

 

Mas depressa

A pressa da fuga

É o confronto

Liberto

 

A face do verso

E do anverso

 

Recomeço

 

A minha medida

 

O que meço»

 

Renato Monteiro

 

Se dizer a tristeza fosse forma de a amenizar eu regressaria de imediato ao tempo das repetições infindas sem que isso fosse castigo, mas não há regresso, não há prestidigitação que sirva para enganar a ausência. É nestas alturas que invejo os que acreditam numa qualquer forma de reencontro, num breve interregno que a seu tempo permitirá reatar o que ficou incompleto, mas esta inveja é coisa de sentir, porque pela razão, ainda assim, continuo do lado do universo irrepetível, desencontrado e absurdo.

Estou cheio dessa ideia apaziguadora do enquanto houver memória, estou cheio desse bálsamo barato de que fica sempre o passado, estou cheio desses paliativos contrafeitos para amenizar a perda, é o futuro a cumprir que fere pelo vazio, pelo silêncio, pelo intocável e tudo isto é irremediável quando o tempo deixa de acolher no mesmo ciclo os que caminhavam juntos.

Calcorreámos estradas, resgatámos veredas, navegámos rios e margens, e discutimos o nome das árvores que nelas escondiam as garças e as cegonhas retardatárias. E visitámos conversas que duraram uma cerveja ou uma borba sem fim anunciado e que entravam pelas noites dentro antecipando o luar absoluto.

A quem vou eu agora pedir conselhos sobre os cinzas que das fotografias se precipitam para a vida? A quem vou eu agora pedir que recite de memória e de forma ímpar os poetas que me ensinaste a amar? A quem vou eu agora pedir que partilhe as histórias de pirilampos, de angariador de paixões pelo deserto, ou de tudo o que é ao Sul tirando a Ribeira e a beleza das coisas simples? A quem vou eu agora pedir que de áfrica relembre os cheiros do capim e das cubatas e a metamorfose dos rapazes que a guerra tornou homens? A quem vou eu agora pedir que sem rumo se faça à estrada porque me ensinaste que viajar é o único alimento das almas inquietas?

Não sei que deuses deva insultar se acaso algum existe, não sei que relógios deva destruir quando me dizem que chegou a tua hora, não sei como me insurgir contra este inclemente e inexorável ciclo do carbono, não sei contra o quê ou quem deva dirigir a minha insanável e descomunal revolta de te ter deixado ir tão cedo e tão breve, querido amigo.


terça-feira, setembro 22, 2020

Ao Diogo

Sabemos todos, como havíamos de não saber, que o inevitável é como um pano de cena infame que cai quando entende que é tempo de dar descanso aos atores. É só então que nos apercebemos que algumas representações são as últimas, que não há próxima sessão, que não há mais voz, nem palco, nem espetadores que partilhem uma qualquer das formas de gostar de estar junto, porque já não há como estar junto. 

A vida vai tecendo uma extensa e emaranhada teia onde alguns ficam sem esbracejar, onde outros, momentaneamente, habitam para logo partir e onde outros, ainda, porque sabiamente nos alertam para o que há de frágil, mas também de espantoso em toda a teia, são o lugar onde a ancoramos. 

Sim, é certo, a memória torna o inevitável, lento, prolongado, suportável. Mas não bebe connosco, não dá abraços, não usa a vontade e o cuidado para se importar com o modo como nos corre a vida, sendo já parte da nossa vida...

Os atores exigentes e inteligentes serão sempre os mais incómodos, porque não se restringem ao papel que lhes destinam, desafiam, inventam, criam, emocionam e reescrevem e comprimem o tempo à sua volta, e também por isso serão os mais lembrados, porque cala fundo a sua ausência. 

Se encontrares por aí o Schopenhauer, ou outro do teu seleto Olimpo, diz-lhe que um dia destes beberemos qualquer coisa juntos e voltaremos a filosofar sobre o que ficou em falta nas tardes que não se cumpriram.

quarta-feira, maio 06, 2020

das estevas


De longe a longe regresso aos cheiros da infância. O resto praticamente não existe. E os cheiros perduram porque ninguém arranca todas as estevas, ou impede que o vento sopre quando quer soprar. Se eu apenas voltasse para rever o que resta de memória visual rapidamente me sentiria perdido, estrangeiro do passado dentro de mim mesmo.

Os meus agostos eram grandes e cheios de aventuras. As velhas, que só o eram porque eu era menino, sentavam-se à porta ao fresco enquanto os paralelos da calçada ainda tinham um resto de sol a arder por dentro, e nós corríamos arrastando o luar e algumas das estrelas mais frágeis. O chico carrão e o palheiro onde não havia agulha que escapasse, o zé corneta e as primeiras lições de bem acertar com qualquer fisga, o bonifácio e o ciúme por uma avó partilhada, a maria joaquina e o jogo do lenço, e com todos eles joguei às escondidas, e tanto joguei que os fui perdendo, escondidos que foram ficando em algum lugar algures no tempo.

Gostaria de ter daquelas memórias fabulosas que tudo guardam, que nunca se confundem e que servem de abrigo a histórias sem fim. Mas, de facto, não fui prendado com esse inestimável atributo. Sensatamente devia habitar em exclusivo o presente, contudo arrisco regressar ao passado e talvez a única vantagem deste frágil arquivista esteja na necessidade de inventar, imaginar, completar os pequenos e sincopados episódios que me ocorrem depois de um esforço insano. À falta de testemunhos fidedignos, tudo o que disser é verdade.

As carroças serviam de esconderijo. Por entre os varais e as enormes rodas, onde a madeira e o ferro se afeiçoavam na perfeição, furtávamo-nos ao olhar indiscreto de quem nos perseguia. As cadeiras de palhinha, um ou outro mocho, um oleado de tapar a cal ou as melancias, davam vida e cor à rua até perder de vista. Os nossos gritos de total alegria não confundiam as conversas dos mais velhos e ninguém se amofinava se os excessos fossem repreendidos com a severidade merecida.

O alcatrão aos poucos ia arrefecendo, solidificando de novo e uma vez mais, enquanto os esparsos candeeiros alimentavam de luz miríades de seres mais leves que o ar. Algumas dessas noites de agosto eram gémeas das noites do deserto e só assim era possível sobreviver ao inclemente estio diurno. O céu, esse magnífico lugar sem fundo, era uma sinfonia de cor e todos os naipes afinavam para que a via láctea e estrada de santiago tocassem em uníssono. Os gatos, todos pardos como convém, observavam-nos com inveja de cima dos telhados e as osgas de olhos esbugalhados aprisionavam no arredondado da língua as melgas antes que estas nos infetassem o sangue. Numa ou outra noite, algumas garrafas de pirolitos da tia maria amélia eram sacrificadas, sendo decapitadas à altura do gargalo para resgatar o esplendoroso berlinde, qual mago liberto definitivamente do presidio da lâmpada.

A recolha era sempre depois dos avisos mais ásperos. Que desperdício ter que adiar a vida por tantas horas. Beijos, abraços e juras de amizade, para sobreviver a uma noite de separação, era um ritual obrigatório. Sei, embora nenhum me tenha dito, que todos sonhávamos o mesmo sonho. E continuo a saber, embora alguns já não o possam confirmar, porque entretanto se completaram e morreram, que quando mais longe essas noites estão mais nítidas e essenciais elas são. É a brisa suave e única dessas noites que procuro quando abro a janela e as estevas me fazem sentir sem tempo.

sábado, maio 02, 2020

memória de adriano


Curiosamente não as vejo perder o viço da cor acabada de pintar, no entanto, o artista, crestado dos dias carregados de sol, é cada vez mais castanho. Apenas uma ligeira linha branca na testa assinala onde termina a sombra protetora do barato chapéu de palha e recomeça a cor antiga.

Aguarelas de Lisboa num humilde escaparate voltado de costas para a foz do Tejo competem com o vivo olhar. Entre o real e a representação, apesar do esforço do artista, poucos são os que se deixam seduzir por sofrível arte. Deviam esmaecer, ganhar o tom que anuncia o fogo já cinza, mas não. O elétrico continua em movimento no seu amarelo forte, o cavalo da estátua brilha à altura da crina no seu imponente bronze, o busto do poeta ofusca na sua marmórea brancura, o rio corre em forma de inverno no seu azulão de nuvens. Tudo cheira a tinta recente em antiga imagem. A memória não é muito exigente, mas a recordação sim.

No intervalo dos dias iguais, desce os degraus e na humidade que sobe do Tejo já mar, arremessa restos de pão às gaivotas que se renderam à terra. Gostava de saber o que se passa no íntimo de um animal que podendo voar para onde o ar é leve e puro, prefere esperar por migalhas de asas caídas. Ou no coração de um homem que, podendo caminhar sem fronteira nem destino, fixa, temeroso, raízes contra as tentações.

As pessoas chegam em contínuo. Mulheres exóticas molham os pés cansados e esquecem o corpo no calcário cais. Homens de vozes e feições estranhas treinam o ver à distância entre margens. As crianças chapinham felizes porque não têm os pés cansados e podem olhar sem compromisso a espuma e outras coisas efémeras. Entre luas, as águas arredondam as arestas. Entre sóis, as lajes riscam em surdina o nome dos que passam.

Dos arrebatadores beijos, tentativa frustre de devorar a alma, até ao choro do amargo desespero, capaz de altear o Tejo sobre o Bugio, lá onde o rio e o mar se confundem no doce e no sal, nesse palco, tendo por espectadores indefectíveis o vento, a água e a distância, o mundo todo desagua em babel festim, enquanto um estrangeiro de si mesmo, ilude o tempo entre marés e malte, aguardando que uma duvidosa aguarela valha um dia de cada vez.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

A senhora x



A senhora x levantou-se, ouvindo o mesmo relógio dos outros dias. Apesar de ser sábado era como se um ritmo antigo, um misto de relógio de sol, estrelas e lua, demasiado antigo para ser alterado lhe falasse ao ouvido dizendo que era tempo de retomar o movimento do corpo. As molas do colchão, com a memória de antigas batalhas, ecoaram nas paredes, resvalaram no terço de cortiça e abafaram-se no cortinado desbotado. Tacteou as pantufas, meteu os ombros dentro do robe e abriu a porta da cozinha. O malhado, companheiro felino, ronronou mas não desviou os olhos abertos sobre o parapeito que esperavam o sol. Aqueceu o resto do café com leite da véspera e antes de pôr a dentadura amoleceu o pedaço de pão para enganar a fome. As janelas do prédio em frente estavam ainda tomadas pela sombra, a roupa nos estendais fazia lembrar um desfile de veleiros engalanados. Nos vidros escorriam gotas de orvalho que daí a pouco o calor do sol haveria de lamber. A casa estava fria. De forma mais precisa: silenciosa e fria, como se uma qualidade não pudesse existir sem a outra. A casa de banho estava, havia muito, a pedir umas pinceladas para esconder o caruncho recorrente. A torneira jorrou água fria em abundância e a concha das mãos levou-a aos olhos. A saia azul escura, já fora mais escura, agora ganhava um luzido herdado do uso repetido. As meias de vidro cobriam-lhe as varizes e faziam sobressair o vinco dos ossos. O soutien apertava-lhe o peito e a alma e simulavam uma orografia há muito perdida. A escova do cabelo descia repetidamente até aos ombros, numa espécie de ritmo encantatório. Brancos e cada vez menos eram os cabelos que via no espelho e estes enquadravam as rugas que não só a idade mas o trabalho e o sofrimento tinham esculpido impiedosamente. Doeram-lhe os pés quando tentou enganá-los com os sapatos que a dona Teresa lhe havia dado. Mas eram uns sapatos bonitos, com dois botões de cada lado e com o espaço para os joanetes já moldado. Talvez a cor creme não ficasse muito bem com a mala verde que comprara nos chineses, mas não se podia dar ao luxo de recusar oferendas. Até porque a dona Teresa lhe dissera que aqueles sapatos tinham custado uma fortuna há cinco anos atrás. E a cavalo dado não se olha o dente, sobretudo se não vier descalço. Desceu as escadas e entrou na rua. Eram poucas as pessoas que arriscavam começar a viver tão cedo ao sábado e os que o faziam era quase todos seus conhecidos. O Francisco, o leiteiro, a Mariana que fazia a limpeza no teatro Morgado, a D. Iria que vinha passear os dois cachorros e mais uns quantos sem rosto, porque não lhes sabia o nome. Caminhou do lado esquerdo da rua, evitando os carros que escondiam o passeio, contornou o miradouro da penitência e entreviu os telhados das casas rompendo a neblina. Estavam duas pessoas na paragem do eléctrico. A senhora Garcês, das poucas que antes de si já usavam aquele eléctrico e que era pessoa de poucas falas, sobretudo desde que ficara viúva, embora não recusasse e retribuísse a saudação matinal, e um senhor de meia idade que nunca vira por aquelas bandas. Era um homem de bom porte, fato de fazenda, mala de cabedal na mão direita, e um chapéu como aqueles que usavam os gangsters. Fumava com os dois dedos da mão esquerda muito hirtos e lançava grandes baforadas de fumo que subiam primeiro numa espiral certinha e logo que era apanhado pelo vento se diluía quase que por magia. O eléctrico não demorou. Sentou-se no banco da frente, logo atrás do guarda-freio e passado pouco tempo já estava a cabecear. Ninguém lhe roubava pelo menos cinco minutos de sono no eléctrico. Eram estes cinco minutos, achava ela, que lhe serviam para fazer as pazes com a vida. Abriu as portas do prédio. Um prédio antigo com grandes portadas e umas escadas de madeira quase tão gastas quanto íngremes. Sentiu a respiração mais forte e o coração mais vigoroso na batida. Apoiou-se no corrimão e continuou a subir até ao terceiro andar. Cheirava a mofo na escadas. Talvez fosse da humidade que nos dias de mais chuva escorria da clarabóia para as paredes e que alimentava assim lentamente a degradação dos degraus de madeira mais que centenária. O escritório que todos dias limpava, à excepção de domingo, era de uma empresa de transportes. O senhor Antunes, o patrão velho, era uma pessoa austera mas simpática, já o filho, o doutor Rodrigo, era arrogante e tratava todos os empregados pouco melhor que escravos. Ainda bem que ela quase o não via. Também quando o via, mesmo que se cruzasse com ele, nunca foi capaz de um simples bom dia ou boa tarde, era como se ela fosse transparente, ou tão insignificante que nem de uma simples palavra de saudação fosse merecedora. Chegou a rogar-lhe uma praga quando o ouviu despedir aos insultos o Américo que já lá trabalhava há mais de dez anos. Não sabia contudo se a praga se havia consumado ou não. Não tinha tido o prazer de o ver agarrado à barriga a uivar como os cães por querer e não conseguir aliviar a natureza. Mas deus não dorme, era o que sempre dizia. Este era o lema que aplicava sempre que presenciava qualquer forma de injustiça. Embora muitas vezes fosse obrigada, de forma pouco católica, a admitir que ele pode não dormir, mas lá que anda muito distraído, lá isso anda e ninguém tem dúvidas. Limpou tudo com o cuidado habitual e sentou-se cinco minutos a olhar pela janela enquanto recuperava o fôlego. Fechou a porta à chave e desceu as escadas cada vez mais íngremes. Começou a caminhar sem destino certo. Ninguém, a não ser o malhado, esperava por ela, por isso podia-se dar ao luxo de caminhar e olhar as montras com o detalhe de quem um dia talvez venha a comprar tudo que aí está exposto. Havia agora mais gente na cidade, gente apressada, gente distraída, gente que já não é gente, e até polícias. Do outro lado do largo viu o supermercado a abrir as portas. Pensou no que precisava de comprar se tivesse dinheiro. Era, aliás, um exercício repetido para não perder o conhecimento das coisas que é possível comprar; fazia mesmo visitas a esses lugares, como se se tratasse de uma visita de estudo. E foi isso que lhe apeteceu fazer nesse preciso momento. Atravessou por entre os pombos que esticavam e encolhiam as asas como se as quisessem treinar para voos mais altos, olhou a gente que já quase não é gente, que dormia aos pés da estátua e contornou a carripana do almeida que varria pérolas de pó, pois abanava a vassoura acima da cabeça. Entrou no supermercado. Longas avenidas de cor. Tanta coisa a luzir pelos corredores. Percorreu demoradamente com um cesto teimando em estar vazio as estantes onde outros gulosamente retiravam o desejo e não a necessidade. Às vezes chegava a rir da gula dos que por ali passeavam: um carro apinhado, às vezes mesmo dois carros, e não se tratava de nenhum comandante a comprar comida para um batalhão. Eram pessoas que se tratam da melancolia nas compras... O supermercado começava agora a fervilhar de vida. Era a altura ideal para a sua visita favorita. Abeirou-se do longo corrimão de cosméticos e como alguém com grande entendimento na matéria olhou demoradamente o frasco, fingiu ler o rótulo, agitou para ver a limpidez e a robustez da cor, e, enquanto um olhar lateral a protegia dos olhares avaros, aspergiu demoradamente o peito gasto e suado. Deu dois passos laterais e, com a mesma sequência de gestos, aspergiu outro com a mesma veemência, um terceiro, possivelmente um quarto e talvez no fim tenha mesmo conseguido afogar perfumadamente a solidão. Isso já não sei, porque aquilo que narrador viu, com os olhos e não com a imaginação, foi a senhora x no supermercado numa manhã de sábado, visitando um a um os perfumes expostos, tudo o resto é ficção, menos o desejo que a alma lhe tenha ficado, mercê esse gesto, também ela mais aconchegada e perfumada.


terça-feira, janeiro 01, 2019

Amêijoa em tons vermelhos...


Ao fim de incontáveis horas de balanços, muitos mais do que alguma vez um colo lhes tenha dado, retornam a terra.
Falam alto, como se quisessem ouvir-se acima das ondas, desse ruído permanente para ouvidos que perderam aos poucos a poesia e a música tão do agrado dos visitantes ocasionais. Não há nomes, apenas designações úteis de modo a não comprometer, esse é o jogo. E há um gosto, quase infantil, de intimidar, de veladamente inventar uma vida marginal. A dureza, a virilidade, a masculinidade, é avaliada pelo confronto com a autoridade, um homem para ser homem tem que ter batido, ameaçado, ou chamado nomes (mesmo que entre dentes) a um bófia. Só assim merece ser homem, só assim merece respeito, só assim pode amedrontar os forasteiros vindos de longe, dos lugares da legalidade, onde habitam os domesticados, os que nunca insultaram um único bófia que fosse...
Todos estiveram presos, todos saíram na semana passada, os menos afortunados saíram ontem. Hoje ganharam duzentos euros, hoje ganharam tanto que talvez possam comprar uma gaja, uma bebedeira, uma viagem vertiginosa, dificilmente uma felicidade ancorada.
De cócoras escolhem as pedras que se entremearam na amêijoa. São negras as pedras e a amêijoa, são negras as mãos, os rostos, e o sorriso para lá caminha. A vida aqui é dura e pouco extensa. Contam-se pelos dedos os que passado o meio século ainda arrastam o aparelho. Este precisa de braços fortes, este alimenta-se de braços fortes que aos poucos ali vão deixando o músculo e o nervo.
Quando a fibra já não permite viagem rentável, ficam na praia olhando o rio e o perfil longínquo da cidade, ajudam a puxar o barco, a carregar um saco para se dizerem vivos, e partilham as memórias com os que pisam o areal. Há sempre um barco que precisa de afagos de nova pintura, há sempre uma cerveja que precisa de ser bebida, há sempre uma conversa que ficou de ontem, e há sempre que arejar o olhar para o recolher nas tempestades.
Habitualmente de poucas palavras, mas quando se entusiasmam deixam numa conversa a vida toda. Dos filhos, das mulheres, das desgraças, dos sonhos, das vitórias, da guerra, da vida toda nesse lugar, tudo se diz numa vertigem de quem sabe que pode não haver outra maré e se houver nada nos garante que será propícia a navegações.
O rio corre para a foz e afaga o ventre prenhe dos pequenos barcos vermelhos. As sombras dão lugar ao festim de luzes. A cidade deita-se na margem como uma serpente.
Algumas amêijoas não sabem que esta será a sua última noite morada no rio, amanhã umas mãos calejadas as separarão das pedras e, por uma estranha magia, as transmutarão em euros, amores fortes, francos e fátuos e numa interminável gama de anestésicos em um qualquer porto-bar da Trafaria.

sexta-feira, outubro 19, 2018

manifesto contra o tempo


Um gajo fica deveras fodido quando descobre que o filho da puta do tempo é um vetor orientado que vai alisando e tornando infértil os terrenos por onde passa. A paisagem, antes diversificada e frondosa, chegando mesmo a ter frutos ímpares, é agora monótona e incolor. O corpo, que era uma espécie de vulcão que nos esforçávamos por manter dentro da cratera, mesmo quando em erupção, é agora uma imagem espetral cada vez mais pálida e de limites imprecisos.

Esta maneira de consumir o pavio em lume brando, fingindo que se ilumina alguma coisa, quando, de facto, apenas se consegue ver onde se coloca o pé seguinte e nem sempre, é uma espécie de tortura. Uma espécie de imposto diluído a pagar pela vitalidade, pela força, pelo ânimo, pela vontade e desejo que nos foram preenchendo dias atrás de dias.

Não temo envelhecer. Até porque não é retórica dizer que se está a envelhecer desde que se nasceu: é um facto! Mas chateia-me esta substituição da força pela flacidez, da garra pela condescendência, do espírito pronto pela inércia supostamente contemplativa.

A idade transforma-nos de uma forma indecente, alheia à nossa vontade. Deixamos de ser senhores de partes do nosso corpo que ganham, por estas alturas, vontade própria ou, na pior das hipóteses, não respondem seja qual for a vontade que as provoque. Ocorrem, com uma frequência desajustada, o mau feitio, a revolta, a ira, e o desejo de fechar os olhos.

Em tempos cuidava, e cuidava mal, cuido eu agora, que aqueles velhos que demoravam a mover-se, que pareciam um guindaste em periclitante equilíbrio ameaçando dobrar-se de vez a cada instante, eram preguiçosos, apenas procuravam chamar a atenção uma vez o charme do vigor já ido… pois, de facto, a injustiça acaba sempre por ser corrigida, demore o que demorar, e o verdadeiro justiceiro, Anaximandro dixit, é o tempo. 

É verdade que agora dialogamos com mais partes do corpo: falam as articulações, falam os músculos e falam muitos terminais sensoriais que nem sequer imaginávamos que existissem. Em contrapartida, os outros julgam, quem sabe se com razão, que já esgotámos tudo o que tínhamos a dizer e por isso deixam-nos descansados e absortos com as nossas novas e demoradas vozes de dentro para dentro.

Mas a idade traz a sabedoria! Oh, que felizes deveríamos ficar!... Mas quando chega a sabedoria estamos a fazer as malas e, assim sendo, para que raio nos serve a sabedoria se a viagem das viagens é a mais solitária de todas? Para sabermos o caminho, para não nos enganarmos no caminho? Pois deixem-nos andar sem norte! A sabedoria não partilhada não existe, como as obras-primas por publicar não existem, como o futuro não existe senão quando se faz presente. Trocava, de bom grado, a sabedoria por uns gémeos mais ágeis, por uma coluna versátil, por uns neurónios em excelente forma eletroquímica e por um fígado capaz de causar inveja a Baco...  Será pedir demasiado?




quinta-feira, agosto 02, 2018

da incerteza...


Eu nem sempre sei qual será o enredo do próximo momento e, esse facto, ao invés de me perseguir como uma ameaça, deixa-me a pensar que a liberdade é possível. Liberdade em pequeno formato, simples constatação de não saber programar à distância, péssimo gestor do tempo, outra forma de ser veleiro…

Tudo o que se possa dizer a propósito do modo como cada um faz a gestão do seu tempo é aceitável. Sei que há aqueles que temem um segundo de vazio como os beatos temem o mais pueril dos pecados, ambos sofrem terrível e irremediavelmente essa queda no abismo. Mas há outros que navegam sem carta, ou o moderno gps. Hesito em chamar-lhes aventureiros, embora também estes caibam nesta secção, e por isso chamo-lhes apenas espetadores pacientes. Sabem que por mais tarde que cheguem haverá sempre um lugar para eles e, mesmo que o lugar não seja o melhor, isso não significa que a cena de entrada que perderam roube a magia do filme ou que aquilo que não viram não possa ser imaginado com vantagens e deslumbramentos que o realizador sequer sonhou.

Também não tenho muitas certezas, embora oiça amiúde dizer que a idade nos traz certezas. Pois, a mim, a idade traz-me tempo e pouco ou nada de certezas… Claro que fica bem aos olhos dos outro, e à composição da nossa autoimagem, afirmar sem um átimo de hesitação que ter certezas, ter fixado respostas definitivas, é uma prova de maturidade, mas… e as dúvidas que ficaram instaladas nos bastidores, e a sombra sinistra que tira o resplendor que tal solar afirmação aparentemente transporta? Frequentemente me lembro do outro que tinha amigos que nunca tinham levado porrada, apenas ele parecia ter nascido para saco de boxe, e sei que há muitos amigos assim, gente forte, robusta, superior e que nunca, nunca por nunca ser, se deixa cair, se deixa enrolar como uma serpente ferida de morte no último abraço…

Dizem-nos coisas ao longo da vida, dizem-nos o que já lhes disseram, e se hesitamos em continuar essa cadeia de comunicação, essa veia aorta da tradição, desmerecemos da confiança e não somos mais do que um ruído incómodo para a paz e tranquilidade das boas consciências que urge silenciar. Depois há os corajosos, há os cobardes e há aqueles que têm dias, sobretudo se há público para alimentar a vaidade… Pois eu também sou daqueles que leva porrada, e talvez seja daqueles que mais porrada dá a si próprio. Não nasci para grandes empreitadas, não nasci para subir muitos evarestes, não nasci para inclinar a terra, não nasci para conduzir os povos, mas também não nasci para me embebedar solitariamente. Nasci para me embebedar de imenso, como dizia o poeta, e isso pode parecer uma extrema ousadia, para os que se embebedam apenas com álcool ou com o ódio ao que não é costume.

É possível que a haja um jogo, que cada um joga à sua maneira, entre a vida e a morte. Entramos em campo precocemente, dotados de muito poucas habilidades, e vamos ganhando tempo. Tempo é o prémio. Cada vez que sobrevivemos a mais um luar de insónia, a mais uma paixão em fim de festa, à perda daqueles que respiraram perto das nossas mãos quando as apertaram, ao desaparecimento dos lugares onde escondemos sementes para um dia virem à luz, ao ódio merecido porque fomos crápulas quando podíamos não ter sido, ganhamos tempo. Mas, como nos modernos jogos da era digital, vamos perdendo vidas atrás de vidas, ou como na biologia vamos acumulando lixo nas células e somos cada vez mais incapazes de usar o tempo para fazer a higiene necessária. Envelhecer pode ser, então, sinónimo de fazer mau uso do tempo, de não ter tanto domínio sobre a pilha de segundos que se acumulam e que pode agora ruir, apenas porque me esqueci de fechar a porta e a corrente de ar os fez estatelar num chão que é duro de mais para que os segundos caiam confortavelmente, como antes acontecia. 

Não tenho a certeza...

domingo, abril 01, 2018

o cavalete


Theo devia ser um irmão muito especial... Não o deixava morrer à fome, eventualmente suportaria o custo dos pincéis, tintas e telas e teria sempre disponível uma palavra de conforto nos tempos de maior desespero.
A família de amigos tem o privilégio de aceder aos lugares que permitem prolongar a  sobrevivência. São uma espécie de aporte imprescindível de oxigénio quando a apneia se afigura fatal…
Outros há, porém, que nasceram sozinhos, sem qualquer espécie de irmãos ou amigos que saibam, para além do nome, dizer palavras que aquietem o desânimo. É verdade que também estes podem ter história, podem ter deixado marcas na vida dos outros, ter mesmo acreditado, a espaços, que futuro não é só um tempo verbal.
Não havendo Theo resta-lhes a fome, o desabrigo, a solidão magra dos dias de incerteza absoluta. Todavia podem continuar a ser artistas… Todos sabemos que os artistas passam fome, emagrecem para caberem nos papéis, ou para pesar menos quando morrem. Todos sabemos que os artistas enlouquecem mais vezes que os humanos vulgaris de lineu e isso é o preço que a fama lhes cobra. Todos sabemos que os artistas são assessorados por deuses menores para também eles poderem participar na criação. Todos sabemos que os artistas ao beber néctar e ambrósia de imediato alucinam porque se deixam sugestionar por paraísos e palavras esdrúxulas que anestesiam a língua. Todos sabemos que os artistas são nuvens pouco densas e ainda assim nos trazem tempestades à alma.
Eu conheço um artista destes. Tem uma morada com uma vista privilegiada sobre o Tejo, é o primeiro a ouvir o rumor da ondas brandas, mal a manhã desponta. De noite o cavalete é privilegiado com o luar total, e o orvalho em parceria com a maresia deixam uma aguada para uma aguarela a cores suaves. Acenam-lhe dos transatlânticos quando vagam o Tejo e ele retribui o aceno, passando o pacote de vinho tinto de uma mão para a outra. Endireita-se para saudar o sol e retoca com a nobreza dos gestos certos o cartão da barraca por onde toda a noite o vento assobiou fantasias de uma portada entreaberta…
Mas do lado direito, esperando um irmão mecenas, o cavalete, decorado a sacos de plástico, espera por todos os quadros possíveis… Falta-lhe a família e a sorte, mas tem as duas orelhas!

segunda-feira, março 05, 2018

da eternidade possível...


















Não olho os dias segundo o calendário das cores
Perder-me-ia se fosse essa a bússola dos caminhos
De manhã nada espero para que tudo seja novidade
Assim tudo me surpreende se quiser fazer grande o dia
Ou nada me perturba se não quiser somar tempo ao tempo
Decido no momento a duração de vida desse momento
Amar muito ou ficar-me pelo assim assim Insossa figura
Dar tudo como se fosse maior a vontade do que lugar onde caibo
E fazer artesanalmente a minha história imprestável de tão única
Acordar é um privilégio dos que ainda sonham e inspiram
Até que um dia voltemos ao infindável ciclo do carbono
Que é única eternidade que nos há de roubar ao tempo
Do que penso, do que sinto, nenhum átomo sobreviverá
Mas destes ossos que seguram a caneta brotarão ervas daninhas
E outros alimentos para paleontólogos curiosos… 

quinta-feira, junho 22, 2017

à procura da sombra que acalma

Ao que venho, pergunto-me eu, num sítio que faz eco. Folheio, sem convicção, a memória de curto prazo, mas percebo, ainda assim, que a história é antiga.

Falo-me em demasia. Reclamo, protesto, encanzino-me, e por aí vou noutras direções semelhantes, algumas pouco dignas e outras de gosto duvidoso.

Concluo que a multiplicidade é um atributo muito mais presente e persistente na nossa espécie do que podíamos suspeitar. Nalguns casos chamamos-lhe doença e noutros genialidade, embora a ordem dos fatores possa mudar se as personagens não forem do nosso agrado.

Reflito enquanto caminho à procura de uma sombra. Talvez deva confessar, para não ser acusado de empedernido hipócrita, que a sombra que procuro tem a forma da resposta que acalma. Repetida sombra e repetido caminho.

Vivo, pois, malquisto da sorte, assombrado por dúvidas que ora se esclarecem passado o tempo em que a desgraça devia ocorrer e não ocorre, ora permanecem como uma espécie de padrão a assinalar que saber muito é vedado aos mortais que negam a imortalidade (e aos outros também, só que eles não sabem…).

Para quase tudo (e não digo tudo, só para parecer humilde) o toque da distância, quer espacial quer temporal, mas, sobretudo, temporal, tem a virtude de retirar peso, importância e dramatismo às coisas mais avassaladoras na análise sem intervalo. O presente convoca as dores todas, a incompreensão inteira, o ódio perfeito, a raiva completa, mas também a felicidade absoluta, o deleite sem fim, o zen decisivo. Vistos à distância estes momentos vividos tão intensamente no passado são, na maioria das vezes, tão tocados pela hipermetropia que deveríamos avisadamente duvidar da graduação convocada no imediato e esperar, pacientemente, que os olhos aprendam a focar à distância. A nitidez, dizem-me as experiências desfocadas, precisa de exposições longas e que cessemos de tremer.

Adiar a gratificação que nos chega do prazer imediato ou obrigar o sofrimento a diluir-se porque agora não tenho tempo nem paciência e sei que a chama intensa se há de consumir como se consomem as memórias, tudo isto se pode tentar e até fica bem na literatura e nos consultórios psiquiátricos. Mas, aqui, nos dias que teimam em ter dentro minutos que se somam em horas, que raio havemos de fazer ao humano que obstinadamente quer viver em continuo? Amestrá-lo como um Adão e uma Eva sem cobiça? Ou dar-lhes uma Eva Herzigová e um George Clooney que lhes anestesiará as dores lhes embotará o espírito e os tornará animais em trabalho de cio permanente? Em última análise, poderemos sempre recorrer à criogenia e esperar o apuramento da raça, que não chova quando partimos as últimas varetas e que não morra ninguém de fome enquanto jantamos…

Despreocupada corre a brisa com toques de verbena, voa a borboleta seguindo o eclipse por detrás de cada árvore, canta o melro em sol menor num apelo para haver mais melros e cresce a erva para que o mar possa ser verde nos lugares em que só se navega para naufragar.

Fico doente dos olhos quando penso e fico doente do que penso quando olho. E o poeta lá continua em bronze esplendidez com odores de absinto e uma enfado irreparável de tanto silêncio.

sábado, junho 17, 2017

depois do inverno...

Com o tempo fora perdendo o apetite, a voracidade, o encantamento, o entendimento da sedução. Ou se sentia e percebia tudo isso, fazia por esquecer com um encolher dos ombros que, não sendo de derrota, era, pelo menos, de tréguas prolongadas.

Quando se chega aos cinquenta é difícil não fazer uma espécie de balanço intermédio. Porque cinquenta é um número redondo e, sobretudo, porque cinquenta é muito tempo de vida. Na maioria das vezes, significando muito mais passado do que futuro.

Ela fizera esse balanço. Continuava a fazer esse balanço, porque já fizera os cinquenta e um e os cinquenta e dois. Um casamento de vinte e seis anos, dois filhos prontos para voar quase de forma autónoma, uma casa sem grandes luxos mas suficientemente confortável para não se sentir agredida no regresso ao fim de cada dia, uma condição económica suficientemente desafogada para não ter que viver angustiada pela duração dos meses e um emprego supostamente estável e com poucas notas de escravatura, tudo isso foi objeto de avaliação e continuava a ser.

Tendo aparentemente tudo o que se assume como essencial na vida de uma pessoa, questionava-se porque não se sentia realizada, feliz, completa ou qualquer outra sensação que a deixasse viver os dias, pelo menos mais dias, com olhos brilhantes.

De manhã, quando se olhava ao espelho, com as últimas gotas ainda a sulcarem o corpo, sentia que as esculturas do tempo tinham como modelo as peças mais avantajadas de Moore e isso nem sempre lhe agradava. O rosto que via trás do seu, emergindo do embaciado vidro, bafejando-lhe pescoço e orelhas, nem sempre o reconhecia de imediato. Os filhos que, sem voz nem gestos ternos, comiam manhã cedo para logo desaparecerem, sentia que tinham crescido demais e talvez o coração se tivesse afundado em demasiado tamanho.

De casa saía todos os dias quase ao cronómetro. Sete minutos até ao autocarro, vinte e oito, trinta de viagem e mais cinco a seis de passo reservado até ao café, a um quarteirão do emprego. Embora não a irritasse, não a deixava particularmente feliz, ver as mesmas caras, ouvir as mesmas vozes e ter que responder a cumprimentos sem vontade. Sentava-se dez minutos, não mais que isso, para beber um café e fumar um cigarro imaginário. Quando isso era possível, escondia-se atrás da coluna e da escada que levava ao primeiro andar e imaginava fumo e sabor sozinha e podia estar em silêncio. Pelo menos para o exterior.

No emprego tudo era mecânico. Dá o braço, estica o braço, aperta, enfia a agulha e suga o sangue. Se se sentir tonto espere um bocadinho lá fora. Até as palavras eram ditas numa sequência irrepreensivelmente igual, fosse qual fosse o cliente ou o dia da semana. Escreve etiqueta, cola etiqueta, guardar num escaparate e chamar o seguinte. Depois, a meio da manhã, correr para o hospital e iniciar outro turno. Outros dias, começava no hospital e acabava em casa e toda a jornada era um vazio absoluto. Se lhe perguntassem o que tinha feito, que contasse um episódio, mesmo que pequeno e usual, nesses dias não era capaz. Descobria que também as pessoas podem funcionar em piloto automático. O que lamentava era que isso não lhe desse espaço, tempo, liberdade para viver em paralelo com a rotina uma espécie de vida.

Perguntava-se, nesse já prolongado balanço, se sempre assim tinha sido. Se, há muito tempo atrás, tinha saboreado a vida, o companheiro, os filhos e tinha ficado com os lábios adocicados. Embora a memória fosse difusa ocorreu-lhe que sim, que lá atrás as coisas que fizeram a sua vida tinham sido diferentes.

Numa pequena janela do tempo, na sua década de trinta, antes de ser mãe, lembrava-se de episódios de grande e completa entrega, de deslumbre amoroso, de jornadas épicas de sexo. De uma ou outra viagem em que, quase em êxtase, descobriu que as fronteiras não são muros mas portas abertas. Mas até esses episódios perdiam intensidade e cor a cada nova revisitação. E depois tudo o resto, a grande amálgama, o caos, a unidimensionalidade.

O homem que a olhava por cima do ombro, num vidro embaciado, logo pela manhã, eclipsava-se durante os dias e cada vez mais se eclipsava durante as noites. Ainda bem, dizia de si para si, até representar era uma tarefa cada vez mais difícil. E quantas vezes representara no passado… Quem é que nunca representou para sentir menor culpa,  pensava ela para se reconfortar. Quando lhe acontecia não coincidir no período de sono, olhava-o à procura da antiga ternura, das palavras meigas, dos tais desafios à animalidade mais humana da entrega, e não conseguia ver. Via uma coisa roncadora, desprotegida, como tudo o que dorme, e que nem a atraía nem a repelia, antes instalava a estranheza e a inquietude e doía-lhe por ser assim.

Na sua década dos trinta aquele homem foi todos os homens. Depois, começou aos poucos a deixar-se seduzir por outros homens que nunca conheceu, com quem nunca falou e que nunca suspeitaram da sua existência. Chegou a levá-los consigo para a cama e a partilhar algumas respirações ofegantes. Nunca teve coragem para encher a imaginação de carne, ossos e sangue. Não sabia dizer se era arrependimento que agora sentia ou se alívio. Apenas sentia confusamente, como sentem as coisas que estão vivas.

Seriam os próximos dez, vinte anos, iguais a estes, igualmente cheios de coisa nenhuma? Seria este o caminho em que todos os humanos desembocam, ou seria o seu caso especial e particularmente agudo? Quem teria guardado o seu fio de Ariane e condenara a deambular sem ver luz nem saída?

Talvez fosse apenas um momento de crise, embora um momento um pouco mais dilatado daquilo que costumam ser os momentos, mas que teria o seu epílogo. Ao mesmo tempo animava-se com a ideia, que já ouvira repetidamente, que as crises são também, ou podem ser, momentos de oportunidade, momentos de viragem. Crise não tem que ser sinónimo de tragédia ou final sem remissão. Estes pensamentos eram uma espécie de analgésico, uma mezinha contra o infortúnio. Ela tomava-os sem parcimónia, tão incómodas eram as dores por que passava…

Nos piores períodos, quando recolhia redonda, qual tartaruga amedrontada, ao centro de si mesma, chegou a pensar que o melhor era despedir-se, perder-se de vez. E era tão fácil! Mas, paradoxalmente, foi essa facilidade que a reteve, que a fez abrir a janela, que a levou a respirar de novo. A facilidade advém da sabedoria ou da ignorância e percebeu que não era sábia e recusava a ignorância. Quando soubesse porquê e como tinha chegado até ali, então, sim, tomaria uma decisão sobre o que fazer de si, e não era preciso saber tudo, decifrar ao pormenor, esmiuçar detalhe por detalhe, não. Bastava-lhe, pensava agora, um simples vislumbre mas nítido, a marcação do que fora sombra e podia ser luz, quando parara e devia ter continuado, ou de como a alegria de viver, seja lá isso o que for, pode reanimar-se em respiração boca a boca.

Até que um dia, perdeu propositadamente o autocarro, hipotecando por instantes, que são sempre definitivos, o cronómetro que lhe geria a vida. A chuva miúda humedecia-lhe os lábios, os cabelos, as mãos e turvava-lhe as lentes com que via, julgara durante muito tempo, a nitidez do mundo. Caminhou sem rumo, pelo puro prazer de se deixar ir. A cidade escurecia dentro da noite. Não atendeu o telemóvel, mas sentiu um prazer pérfido em ouvi-lo tocar repetidamente. Avenida após avenida, ruas e cruzamentos, calçadas e escadarias e nada de cansaço, nada de arrependimento.

Os filhos voltaram a falar detalhada e insistentemente, mas agora é ela que não responde. O marido sente frio e desconsolo sempre que vê a almofada vazia e procura-a afincadamente noite após noite e apenas a encontra na memória.

O campo de refugiados na fronteira da Etiópia também tem pessoas com braços, mas voltou a precisar da habilidade que julgava ter perdido para encontrar as veias quase secas. Aos poucos voltou a sentir-se útil, necessária e desejada em dois lugares distanciados por milhares de quilómetros.  

Aos poucos voltou a ter trinta anos.

Esperava, pacientemente, que os outros também voltassem a ter.

sexta-feira, abril 28, 2017

voar como os falcões

A linha de costa perdia-se ao longe onde o olhar acabava por se render. Apenas as aves polvilhadas com a cor da espuma emergiam por entre as nuvens. A manhã abria-se à luz, ao sol e ao anúncio de outro dia. Tudo em repetição rigorosa como nos outros infinitos dias. O mesmo cheiro húmido complexo de ervas e algas; o mesmo frio cortante a embater na arriba tão velha quanto o mundo; a mesma música das ondas a dobrarem-se sobre si próprias, a respirar sal e embalar os viajantes da rebentação. 

Embora parecesse uma estátua, a respiração acabava por o incriminar como gente. Estivera toda a noite a olhar hipnoticamente para uma pequena luz laranja que subia e descia na cadência da onda. Sentira frio e os goles de whiskey trataram de remediar tal mal. Sentira fome e a sandes mal amanhada depressa corrigira tal estado. Mas, tirando a contemplação dos astros e o ouvir a forma como caem os segundos ao somar o tempo, nada tinha tirado do mar. O isco, teimosamente, não seduziu nenhum dos peixes que ele sabia existirem naquela linha de espuma, música minimal e força bruta repetida.

Debruçado sobre o abismo, os primeiros raios de claridade souberam-lhe bem, aconchegaram-lhe o corpo. Não eram tão intensos que chegassem à alma, protegida que esta está por uma carapaça de palavras e senhas desconhecidas, mas, ainda assim, alertavam-no para a sua condição de ser vivo.

Três gaivotas planavam a não mais que cinco metro do seu lugar de pernoita e todas viraram a cabeça interrogando-se acerca daquela ave estranha que competia com elas em altura e envergadura.

Recolheu anzol e chumbada e afeiçoou a cana num saco preto de pano que terminava com um nó que já há muito desistira de desatar. Bebeu os dois goles de álcool que ainda restavam e acendeu um cigarro. Pela altura do sol, eram sete horas e quarenta e três minutos quando mergulhou de sessenta e seis metros de altura. Nos poucos segundo que voou como um falcão ouviu repetidamente a voz da mulher: “vai, vai lá à pesca, mas não te atrevas a voltar de mãos vazias!”


Nunca os peixes daquele litoral tinham visto tão grande e suculento isco. Começaram pelos olhos castanhos…

terça-feira, março 07, 2017

Build sofas, not walls


É nos lugares mais imprevistos e com as personagens menos esperadas que nos surgem as grandes revelações.
Todos sabemos que a velha Lisboa é agora, segunda década do século XXI, uma espécie de Babel, onde aportam vozes e fisionomias que até há bem pouco tempo atrás eram viajantes de outras latitudes e que só muito esporadicamente por aqui aportavam. A calma, a hospitalidade e o baixo custo de vida, para o standard da maior parte dos países desenvolvidos, torna a lusa terra um lugar muito apetecível.
Um simples passeio pelas ruas que desembocam no rio, ou pela cidade alta, é uma incursão nos compêndios linguísticos e, ao mesmo tempo, um revisitar daquelas cadernetas de infância onde se colavam os cromos com povos das diferentes partes do mundo. Do inglês, com e sem sotaque, passando pelo alemão, francês, italiano, russo, japonês, chinês e, sobretudo, o castelhano, e mais um sem número de sons e palavras indecifráveis, tudo se encontra sem ser preciso procurar muito.
Vêem tudo ao pormenor, com e sem guia; a pé, no afamado 28 ou no infelizmente ruidoso tuk-tuk; parando demoradamente para descansar os pés das exigentes colinas e, na maior parte dos casos, para ler com a luz única de Lisboa um romance que sai, deste modo, inevitavelmente favorecido. Param junto às montras e fotografam as exóticas comidas: pastéis de nata, peixes e mariscos variados, como quem fotografa baratas, gafanhotos ou serpentes sem escalpe num mercado de Banguecoque.
Junto ao rio celebram votos e tiram fotografias de grupo e, alguns, permanecem imóveis, verdadeiramente hipnotizados, tocados pela magia do Tejo, horas a fio, sem qualquer outra intenção que não seja guardar para sempre a visão de uma vida.
Nesta Lisboa há também lugar para os desavindos com o destino, sejam eles lusitanos ou dos que percorrem o mundo, transpõem fronteiras, à procura do paraíso que, para eles, está sempre mais além e, cada dia que passa, parece afastar-se mais e mais. Não chega a estar no horizonte, mas sempre para lá, muito para lá do horizonte, de qualquer horizonte…
De braço estendido, arrastando uma muleta e uma perna destroçada; prostrados sobre si próprios num sono que antecipa um desejo de morte; tocando instrumentos afinados pelos passos apressados ou interpretando um canto agónico que não há álcool suficiente que afine; com os filhos no colo que nunca pôde ser abrigo e ternura; estes humanos, demasiado humanos, são também uma das faces de Lisboa.
Vivendo na miséria, ainda assim mantém um traço de humanidade que me surpreende: a capacidade de partilha. Vejo-os, repetidamente, a dividir o que têm, o que conseguem com as esmolas. Mas, também, são capazes de desenvolver mecanismos apurados de sobrevivência.
No cais das colunas, lugar onde o Tejo beija de forma mais intensa, repetida e cúmplice a cidade, há meses que para sobreviver um casal esculpe uma efémera estátua com areia do rio. Começou por ser um cão, seguindo o modelo do seu próprio cão; passou, posteriormente, para um sofá onde o dito cão aparece refastelado e, numa última versão, o sofá com o cão e ainda uma miniatura de um canídeo na frente junto à caixa que espera pacientemente as moedas que possam cair. A actualidade política está também presente, com palavras de ordem escritas a vermelho: Build sofas, not walls ou Welcome friends except Donald Trump.
Ora bem, os artistas têm também que descansar, é a sua parte humana. As moedas ganhas durante o dia deverão providenciar uma refeição, um lugar de sono e pouco mais. Para ser justo aos factos, providencia ainda umas cervejas ou uma garrafa de tinto, inteiramente merecidas, de resto. Assim, cedo, numa manhã morna de um dia feriado, o artista ainda ausente, a escultura com marcas esparsas das gotas de chuva que caíram durante a noite, foram a oportunidade imperdível para multiplicar a gente feliz e a afirmação mais convincente do valor e importância da arte.
Um dos mendigos, daqueles do braço estendido e da muleta, apropriou-se do território museológico do cais e, timidamente, sempre em modo de alerta, não fosse o verdadeiro artista sair subitamente das areias, encostou-se à parede, qual guardião desta esfinge que se desmoronava, não sem antes colocar a sua caixa de cartão à frente da peça, e aguentou, tanto tempo quanto lhe foi permitido pelo seu medo, a invasão do território alheio. Algumas moedas foram caindo, algumas moedas foram sendo recolhidas e nessa parte da manhã o artista foi o verdadeiro mecenas. Em pouco tempo o dia ficou ganho e tão lesto quanto a muleta lhe permitiu afastou-se do lugar do delito.
A meio da manhã com os escultores ainda ausentes, a efémera obra continuava a ser visitada, registada fotograficamente, enquadrando o Tejo e a ponte vinte e cinco de Abril, e dando azo a comentários que oscilavam do espanto à estupefação. Faltava porém o artista, o curador ou, no mínimo, o vigilante. Mas não faltou durante muito tempo…
O aguarelista residente no cais fixou as suas obras, acomodou os seus parcos haveres e sondou rapidamente o vigor do comércio matutino. Poucos eram os potenciais clientes, pouco interesse despertavam as suas suaves aguarelas, mas muito interesse despertava o sofá, os canídeos, as palavras de ordem e o enquadramento.
O sol era pouco e o chapéu podia ser dispensado para funções mais elevadas e mais altruístas. Aproximou-se e numa reverência estudada descobriu a cabeça e posou o chapéu na frente da escultura. Encostou-se ao pilar e não foi preciso esperar muito para que as moedas fossem caindo de mãos reconhecedoras da grande arte. A musicalidade das moedas a tocarem umas nas outras deve ser para estes homens o verdadeiro, o sublime hino à alegria. Sem outra fonte senão esta que brota da boa vontade, não é difícil perceber esta selecção musical…
Mas se se partilha o que é exíguo, também se protege a pequena propriedade, e em virtude desse desígnio o homem da bandeira, que empresta o símbolo nacional a troco de uma moeda, cuidadoso ao verificar que no chapéu estava uma nota de cinco euros, que podia levantar voo como se de uma gaivota se tratasse,  lesto se apressou a alertar o aguarelista dono do chapéu que, com rapidez e destreza, a guardou no bolso registador.
Primeiro fora uma caixa de cartão, agora era um chapéu e logo mais, chegados que fossem os modeladores da areia, seria um pano, a recolher as migalhas que somadas tornam possível somar dias.
Acredito que o homem da caixa, o homem do chapéu, o escultor de areia e, talvez, até, o homem da bandeira, pertencem todos a uma mesma família e que um cão de areia os guarda e alimenta a todos, o que vem provar de forma decisiva que o cão, mesmo de areia, continua a ser o melhor amigo do homem.


domingo, outubro 16, 2016

A música já está feita, o texto está por fazer.



A música já está feita, o texto está por fazer.
Talvez por isso escolhas essa forma de assobiar sobre o vento
Em vez de ousares aparelhar palavras que podem erguer muros e moradas
E deixar vestígios de saliva e tinta seca nas mãos cavas
E que nada apaga ainda que se tornem incómodas tatuagens na memória.
É fácil, é até sedutor, emprestar os ouvidos às mulheres que cantam
Em silêncio deixar que elas julguem a quantidade de desejo que as ouve
E que imaginem os cenários mais idílicos para compensar todos os não-dias.
As palavras podem ser melaço de cana ou uma lâmina de brilho inquieto
E algumas, labirintos em que o inclemente eco se teme mais que o Minotauro.
A música tem arestas boleadas e claves de Sol mesmo nas notas invernosas
Os violinos dão pouso aos pássaros e a flauta usa-lhes a voz emprestada
O maestro segue fiel atrás da batuta que sabe de cor todas as músicas
E até as crianças de ouvidos pequenos adormecem por Si sem Dó.
O texto desafia sem pauta a travessia branca do deserto
Exige um rio, mas não sabe apaziguar a sede
E liberta personagens que nunca mais te deixarão viver sozinho.
Alguém escreve a branco e preto neste piano que se ouve
É fim de tarde, hora profunda e um acorde solta-se ágil e completo,
Alguém, com jazz na voz, esta noite improvisará o que há de música no poema.

quinta-feira, julho 21, 2016

Ao Ruy Belo


Possivelmente ainda não chegaste, o areal está deserto e ao longe apenas gaivotas
Disseram-me que havia dias em que chegavas cedo, antes de haver luz
Que vias os pescadores, em barcos coloridos, romper as ondas enquanto acenavas
E seguias entre a tua melancolia e a espuma do mar a desaparecer no vento frio
Talvez esperasses que o poema se escrevesse no teu rasto de polvo das palavras
Ou o percebesses nítido e íntegro apurado o ouvido junto à senhora da guia 
Mas hoje, já percebi, hoje não te apetece o sal a colar os lábios nem ouvir as varinas
A noite teve muita lua, o uísque correu vagaroso e tiveste um problema com as unhas.
As algas dançam a meia água e morrem em tons castanhos, como os teus olhos
Chegou um homem descalço até aos joelhos e ameaçou o mexilhão com uma faca
Hesito em dizer em qual dos teus versos melhor o descreves
Porque lhe falta um saco de serapilheira para acomodar o destino.
Irisa-se o céu do lado de onde costumas aparecer
Mas a todos os que vejo vir lhes falta o ar de poeta e de ter insónias amiúde
Terás tu deixado Vila do Conde ainda com uma garrafa em maré cheia
Ou acometido de paixão súbita enlouqueceste de novo como na primeira vez
E rumado à Consolação para te livrares das dores que dão nos ossos que há na alma?
Vou perguntar por ti no cais, antes, talvez, ao velho banheiro, mal acenda o cigarro
Todos te conhecem com o mar ao fundo, poucos te sabem pedreiro das palavras
Se acaso morreste e, por isso, te atrasaste em voltar à praia
Manda um recado pelo homem que faz bom o caminho alumiando o farol
Evito assim andar Atlântico acima Atlântico abaixo para te dar um abraço
Dar to ei em qualquer lugar onde leia os teus versos que me inquietaram a vida.