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quinta-feira, outubro 18, 2007

Why?


Na minha adolescência, no tempo em que os dias eram maiores que 24 horas e em que eu sonhava a cores sem ter que adormecer, tinha um poster na parede do quarto com um soldado a ser abatido e um WHY? em letra inquietantemente grande que teimava em ser lido de onde quer que eu me encontrasse. Hoje já não tenho esse poster na parede, mas sou assaltado frequentemente por essa interrogação e continuo a não ter resposta. Agora que o bilhete de identidade teima em dizer que sou adulto era suposto ter encontrado ao longo da caminhada um conjunto de respostas que me apaziguassem os dias, mas não! Há no mais íntimo da alma humana um absurdo inextricável que, por mais que me esforce, não consigo entender. De onde vem esse ódio que guardamos uns em relação aos outros? O que é que rapidamente, demasiado rapidamente, nos transforma em implacáveis predadores, quando, segundos antes, éramos inofensivos seres prontos a ajudar os outros? Porque é tão frágil e evanescente essa fronteira entre o amor desmedido e o ódio cego? Pergunto-me como é que coabitamos com essas personagens tão opostas em cada um de nós? Não seremos todos nós de forma irrevogável doentes mentais sem cura possível? Temos um profundo horror ao ilógico, ao que é desregrado, ao que é imprevisível, mas se nos olharmos atentamente, o ilógico, o desregrado, o imprevisível são modos de ser caracteristicamente humanos, demasiadamente humanos...
O que me causa profundo espanto é essa flutuação entre os extremos não ocorrer em simultâneo em todos os homens e assim, enquanto uns ateiam as chamas incontroláveis do ódio, outros teimam abnegadamente em ajudar os que sofrem. Fazemos intervalos nas guerras, interrompemos a morte por instantes e logo depois voltamos a matar. Curamos as feridas dos que não conseguimos liquidar eficientemente; tratamos os prisioneiros, que momentos antes pretendíamos aniquilar, com regras e respeito. Que animal estranho é este? Onde reside o sentido disto tudo?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Além Tejo, Além mar


O Alentejo da minha infância era muito parecido com o mar, um mar verde de espigas e o horizonte lá muito longe para descanso dos olhos. Talvez por isso, hoje, que me desterrei em terras sem verde e com o horizonte mutilado com nuvens de betão, precise do mar para relembrar a infância e das gaivotas para continuar a acreditar na liberdade. O céu da cidade, mesmo naquelas noites em que a lua se ausenta, tem muito menos estrelas que pirilampos havia no meu quintal. Abro a janela, e não sei se é por estar muito perto do céu, não consigo cheirar o tojo, nem o rosmaninho, apenas me chega o odor apressado do autocarro e dos fritos da vizinha de baixo. A lentidão dos rebanhos que apenas se moviam na sombra, as mulheres coloridas que atavam as saias nas pernas, a panela de barro que me iniciou aos paladares superlativos, tudo isso se some como um nevoeiro que acinzenta as cores da memória. Só o mar é grande como o Alentejo da minha infância. Os barcos singulares riscando caminhos com chaminés e fumo são os montes onde o sol do entardecer gritava na brancura da cal. E os bandos de pássaros e as majestosas cegonhas regressavam como regressam as gaivotas a terra firme e conhecida. Nadar é como caminhar seara dentro e na pele o sal marca os mesmos caminhos que as farpas das espigas deixavam. O meu além tejo é agora o meu além mar, paixões paralelas que sei tocarem-se no infinito da minha infância.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Do ovo à borboleta


Devo um ovo Kinder a umas meninas que me ajudaram a rir em dias cinzentos e que eu gostaria de ver voar para lugares onde só a felicidade é possível. Foram muitas as horas que aturaram o meu mau humor e pacientemente regressaram sempre vestidas com o melhor olhar. Por entre a inexorável necessidade lógica e a urgência de entender do que é feita a vida riscámos papéis e trocámos histórias que arquivámos na memória que é o único cofre para guardar as coisas importantes. Como um velho rezingão teimei em repetir-lhes que os tortuosos caminhos do futuro só se aligeiram se ganharmos balanço no presente e que desperdiçar a vida é o único desperdício não reciclável. Talvez um dia percebam que aqueles que tiveram o privilégio de vos ver crescer, e que cuidam ingenuamente ter-vos ajudar a crescer, hão-de seguir pela vida fora a questionar-se se algum contributo terão dado para que da crisálida a borboleta magnífica pudesse sair.

domingo, agosto 26, 2007

A indelével memória


Gosto de imaginar as mãos como roteiros de vida, uma espécie de memória de lugares e afagos. Nelas se plasmam os dias de raiva e a urgência da ternura. Quando nos detemos a olhá-las é possível num vislumbre perceber que campos lavraram e se estiveram caídas tempo em demasia. Por muita água que tenham levado à boca algumas serão sempre mais desertas que outras e fracos serão os vestígios de um dia terem florido. Como baixos-relevos guardam a marca de todas as que apertaram e mesmo para os mais treinados nas técnicas de ver o que é essencial se esse aperto tinha a conivência do coração ou apenas disfarce de circunstância. As mãos ao contrário das palavras, porque menos dadas a coisas da razão, são sempre testemunhos de verdade. A ingenuidade com que revelam o passado torna-as no mais evidente calendário de se ter vivido. Nas mãos guardamos a essência de todas as peles que tocámos e nenhum tempo é suficiente para a diluir ou confundir. Depois de tanta procura, talvez seja nas mãos o melhor lugar para encontrar a morada da alma...

quarta-feira, julho 11, 2007

Das cores, dos sons e do silêncio


Apuro o ouvido para desvendar que ruído faz a noite ao cair. Talvez um dia, com muito treino, seja capaz de ouvir, como Safo, as pegadas da primavera, o lento murmúrio do rio espreguiçando-se nos degraus do tempo, o sol em absoluto fulgor transportando a manhã, os cavalos mais vermelhos que o sangue que galopam o coração, as nuvens entrechocando em caprichos de tempestade, a oitava perfeita em que as galáxias se afastam nos confins do universo. Desde que me sei que uma sonata a muitas mãos me embala o sono. E de tudo o que vivi me ficou o eco a percutir as cordas da memória. Por vezes, confundo as cores e os sons da infância e já não sei se os meus amigos tinham uma voz azul ou se a lagoa era grave e silenciava com pétalas de chuva o verão excessivo no meu corpo. O tempo distante chega-me quase em surdina e preciso por isso de habitá-lo também com os olhos. Lembro-me do som dos passos inesperados. Lembro-me da voz dos que diziam o meu nome. Lembro-me do requiem na noite dos que partiram. Lembro-me de como o vento requebrava em teus cabelos de âmbar no primeiro entardecer. Lembro-me de como tecia fio a fio um absoluto silêncio e, só então, a noite me caía nas mãos para eu a adormecer.

sexta-feira, junho 29, 2007

Das palavras à palavra



Há dias vasculhava o dicionário e uma palavra chamou-me intempestivamente. Depois demorámo-nos à conversa porque era grave o seu tom e ficava nos lábios como resíduos de amora. Habitava o meio da página quatrocentos e qualquer coisa e dizia ter o corpo pronto de areia para uma vida breve. Olhei-a onde se acentuava e com uma timidez inusitada pediu-me que passasse a folha que outras mais extraordinárias adiante me esperavam. Disse-a vagarosamente até que se tornasse maiúscula e ela começou então a perceber que a minha boca era também outra casa onde podia morar demoradamente. Soletrei cada sílaba como se fosse construir uma ponte de música ou como um bebedor de licores tão subtis que só podem beber-se gota a gota. Uma euforia adolescente desceu-me do corpo às mãos e pensei em rasgar a folha para torná-la só minha, mas... acabei por recuar, porque já a tinha dito e era, por isso, também já do vento e dos que ouvem o vento. Todas as palavras germinam no teu peito diria eu a uma mulher se a amasse, todas as palavras na boca dir-lhe-ia serem necessárias para esperar o alvorecer, todas as palavras em uma só é o que numa vida inteira tentamos dizer.

segunda-feira, junho 25, 2007

Por detrás do silêncio


esta noite soa-me a violoncelo
e se houvesse nuvens seriam verdes
branco seria o hálito das avenidas
e vermelho o curso dos navios nas estrelas
e porque as aves migram de uma mão à outra
o olhar é uma cidade deserta
onde respiram pouco as mulheres que se dão
e as estátuas são gestos de silêncio
esperam um corpo os bancos nas praças
e adormecem os cheiros de haver primavera
só a brisa abraça a areia nas dunas
enquanto o mar arde de prata
esta noite as palavras são ditas pelo violoncelo
com uma absoluta precisão todos os nomes
com uma certeza dolorosa tudo o que há a dizer
e se um impreciso dedo perturba a melodia
o dia nasce insidiosamente mais cedo
esquecido das cores que iluminam o rosto
de quem não dorme para se alimentar de fantasia.

sexta-feira, março 23, 2007

o lugar próprio das coisas


toda a noite se ouviu um piano, um piano já rouco de tanta música dizer. nos degraus de marfim deslizaram histórias antigas e uma paisagem de sóbria harmonia acomodou-se para saudar o dia. as janelas de casa deixavam entrar na luz pouca de fim de noite a cidade serpenteante. tremeluziam os olhos das pessoas no brilho branco dos lençóis. a árvore grande despenteada pela noite de vento respirava verde. nas paredes brancas dissimulavam-se os fantasmas das semi-colcheias em ecos perfeitos. a fronteira de luz separa dois mundos e a música do piano rouco é o passaporte para cruzar de um ao outro. as estrelas retardatárias acomodam-se em pequenas gavetas de nuvens. e o sol aparece com os ombros expostos e um sorriso de enternecer quem na cela acorda atento ao ruído da vida. as gaivotas partem para a pesca com as asas cheias de nada e só por isso planam iludindo o cansaço e o azul imenso. uma criança ri porque o cão ladra e o gato mia e fica feliz pelo lugar próprio das coisas.

quinta-feira, março 22, 2007

De cavalos e desejo


Desejo um cavalo, um simples com quatro patas e um coração de vento e que traga nas ventas frondosas um olhar fixo de ver o mundo.
Se for possível, um corso de Carnaval para embelezar o curso dos dias e a árvore onde anoitece primeiro.
Depois, porque o tempo é curvo, um relógio que pingue gotas de ócio porque é urgente selar para viagens por outras vozes.
Se alguém quiser tenho um rio de ostras e margens de ternura onde os peixes são de névoa e as correntes de espuma.
Por pouco mais que um raio de sol, vendo a alma e uma assoalhada que dá para albergar um exército de sonhos. Talvez espere pela primavera que vem subindo dos trópicos com odaliscas e tâmaras de paladares inconfessados.
De Andrómeda é possível que chegue um aceno de vida, uma voz semi-breve ou, quem sabe, uma vela que enfunada arraste o universo. Ou talvez chegues tu com o teu tacto de talco e os lábios de amansar as marés excessivas.
São oito os dedos que apontam a lua e só sobram dois para endoidecer os teus seios que se recusam a morrer de tédio. Quando chegar esse alazão que o poeta prometeu trazer ao poema deixarei escrito que nada é impossível mesmo amar demasiado às segundas-feiras.
É verdade que o mar é um egoísta azul que se veste de gala nas tempestades, mas ainda assim sobra muito de desejos e praias com contas de vidro para incrustar em teu pescoço de cisne.
Ao longe ergue-se no dorso fugidio da manhã uma novidade: um sol prometido por Galileu e caem graves as aves da noite.
Tu és um réptil de cores cintilantes, uma língua de fogo a lembrar as iluminuras, uma fada com olhos em forma de asa, uma sossegada fonte para um coração deserto.
Ainda não chegou o meu puro-sangue, aquele que dará leveza aos meus passos, que da distância fará perto e que ao acasalar com Pégaso voará para onde quisermos.
A música com que respiras é uma suave harpa, é a ondulação imensa deste trigo que só no teu ventre se confunde com o ouro.
Outro dia choveram palavras, um dilúvio de verbos pelas calçadas fora, uma torrente de preces sem destino, um poema inteiro desaguou no rio.
De quem são estas mãos que seguram o mundo? É grave que me falem da gravidade que eu não percebo e se esqueçam do valor absoluto do sabor dos teus lábios. Por isso, dois são já os cavalos do meu desejo, um que traz os dias nunca iguais e outro onde alijo o peso do tempo em que te não vejo.

quarta-feira, março 07, 2007

Elogio do múltiplo


Há quem não saiba que os dias são redondos e a cores. Há quem viva tudo no vértice de um só dia. Há quem não saiba por onde começar a vida. Há os que no desespero circulam como o sangue numa tangente à alma. Há os que nos lábios semi-curvos deixam morar palavras demoradas. Há os que não hesitam e deixam que o desejo ofusque a própria luz. Há mesmo os que mergulham nos sonhos para ser mar e rocha e tempestade e visitar a morte. Há os que inocentemente abdicam das horas para dar magia aos dias. Há os que amam os dedos que erguem mundos do nada e poisam suavemente nas janelas olhando só azul. Há quem caminhe sem hesitar no gume das estrelas que nunca anoitecem. Há os que preenchem a boca de aromas absolutos para dizer simplesmente que o tempo é velho de mais para ainda existir. Há também os que nunca saíram da margem de si próprios e ainda assim sabem todos os segredos que a existência oculta. Há mesmo os que acreditam que um simples gesto de ternura mais ousada pode desequilibrar o universo.

terça-feira, março 06, 2007

Ingratidão do tempo


Talvez fosse tempo de repensar o curso que vinha dando à sua vida. As noites eram agora mais amargas, os velhos amigos escasseavam e o álcool já não despertava a alma de forma avassaladora como antigamente. Nos bares que frequentava as mulheres eram cada vez mais esquivas, as aventuras de uma noite rareavam e, quando consumadas, deixavam-lhe um trago amargo de pouca valia. Lembrava-se dos tempos em que as noites eram um festa ininterrupta, em que tudo era luz e cor e música para alimentar os sentidos. Os tempos mudam, pensava ele, para justificar as mudanças na própria vida. As jovens de pele luzidia e libido intempestiva procuravam garanhões, machos no zénite da pujança, e olhavam-no já com alguma desconfiança. A barriguinha combatida a muito custo começava a atraiçoá-lo. No entanto, ele considerava-se na posse de todas as suas faculdades, mas a melhor publicidade é conseguida pela adesão à primeira imagem e essa era madrasta. Nessa noite, quando lhe cantaram os parabéns e lhe ofereceram o bolo de aniversário com as 86 velas estranhou que nenhuma das moças que solidariamente cantaram o tivesse desafiado para uma noite de arromba. Adormeceu convencido que o tempo é ingrato.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Coisas d'alma


Quantas vezes o silêncio não é mais expressivo que uma enxurrada de palavras? Esta ideia, se não servir para mais nada, serve, seguramente, para acalmar a alma quando ela emudece. E a alma tem esse terrível defeito, ter daqui ter dali: emudece! Depois é preciso trazer-lhe aos lábios néctar e ambrósia e esperar pacientemente que se restabeleça. É verdade que também há gente prosaica que lhe chama preguiça, mas estes nunca acordaram com uma terrível ressaca de sonhos metafísicos, nem voaram mais alto que o metropolitano, nem sabem ou sequer desconfiam que o sexo dos anjos é de cores mais arrojadas que o arco-íris.
Se há coisas que nos fazem sentir um suave gosto a liberdade no corpo todo, com especial destaque nos dedos e na língua (nada de pensamentos indecorosos...) é a escrita! Coisa de invenção, coisa de amador, coisa de artesão, coisa de arrepiar quando sucede surpreender-nos... Talvez sejam estas algumas das razões para haver quem se perca nesta liberdade, livre inexoravelmente. Outros bem tentam mas a obesidade dos lugares comuns condena-os a um purgatório do ridículo. Mas eu prefiro o inferno e por isso faço da desconfiança e da blasfémia a minha barca.
Vou só por um penso-rápido na alma e já volto...

domingo, dezembro 17, 2006

A estatística da vergonha!



Soube há poucos dias que pertenço ao restrito grupo dos 10% mais ricos do mundo e, curiosamente, ao invés de sentir orgulho, senti uma enorme vergonha. Senti vergonha por saber que 90% das pessoas têm pouco, demasiadamente pouco para viver condignamente. Embora não pertença ao excelso e exclusivo número dos 2% que detém mais de 50% da riqueza mundial, ainda assim considero que pouco mais fiz do que ter tido a “sorte” de nascer numa parte do mundo que habilidosamente tem espoliado as outras partes das suas riquezas e, deste modo, vive esbanjando o que melhor distribuído faria deste mundo um mundo mais justo. Quis o acaso que não nascesse no coração de África ou num qualquer subúrbio de Nova Deli e, em virtude desse privilégio, que nada fiz por merecer, não sei o que é a fome, o frio ou o sofrimento atroz de ver morrer os meus à míngua de tudo o que torna a vida possível.
Quando cada um dos mais de 5 biliões de seres humanos exigir a quota-parte de felicidade a que tem direito, quando resolverem pedir a parte da riqueza que lhes foi sonegada e que outros com usura acumularam e viciosamente ostentam, nesse dia não nos bastará o traçado fictício das fronteiras, nem exércitos e polícias nos valerão, a razão pode demorar mais tempo do que a força a vingar mas ela há-de sobrevir como aquelas sementes que por muito tempo que passe apenas aguardam um solo fértil que lhes permita abrir caminho até ao Sol.

terça-feira, novembro 28, 2006

A uma filha do vento


Tem um olhar de veludo, um corpo franzino esculpido na fome, uma voz mansa e pouco mais, para além da miséria tão absurda onde o próprio sonho é um luxo inalcançável. Contudo, já sabe, como as crianças nunca deveriam saber, que o frio traz lâminas inclementes nas intermináveis noites de Inverno. E no desaconchego absoluto da palha, certamente, muitas foram as vezes em que mordeu os lábios para não acordar os cinco irmãos com o choro não dos olhos mas da alma. A boneca mutilada que já testemunhou noutros lugares a felicidade é agora cúmplice da longa espera de quem nada espera. Chove copiosamente deste lado do mundo e esta menina cigana que mereceria o conforto que nós esbanjamos contará a medo, com os pequenos números que sabe, cada gota de chuva que escorrendo pelo puído pano da tenda lhe escorre pelo corpo e a impede de adormecer, de esquecer, de morrer brevemente para interromper o infausto ciclo da dor. Guardo o teu sorriso sem saber a que baú assombroso o foste buscar. Guardo o brilho inocente dos teus olhos como uma dávida de ternura de quem tudo dá porque mais nada tem para dar. Mas grito a plenos pulmões a raiva e a revolta contra os deuses e os homens que se esqueceram de te amar!

Foto Erik Reis

sexta-feira, novembro 24, 2006

Quem chora as borboletas nos dias em que morrem?


De tempos a tempos vêm-me à memória as palavras da Maria Joana, a professora de português que há umas décadas atrás se cruzou no meu caminho, dizia ela que as únicas pessoas verdadeiramente livres eram os vagabundos, porque esses nada tendo nada temem perder e a liberdade é exactamente essa ausência de amarras que a posse do que quer que seja imediatamente institui. O vagabundo possui de seu os passos, os caminhos que faz ao caminhar, o ar que respira e a fome que engana com ardis de ocasião. Não é seu o brilho das estrelas, nem o luar baloiçando no rio, nem tão pouco o frio de Dezembro, embora os conheça como ninguém. Vive cada dia à vez, nada o prende ao passado e nada o chama do futuro. É inteiro porque se leva todo para onde quer que vá. Enquanto nós, arrastamos a cada passo as grilhetas dos compromissos, o medo de que nos subtraiam o que chamamos nosso, a angústia permanente de que façamos o que fizermos nunca havemos de ser suficientemente felizes. A morte assusta-nos não porque seja inevitável mas porque nos há-de separar irremediavelmente do que acumulámos com tanto esforço e obstinação. O vagabundo morre todos os dias em paz, só de si ele sentirá falta se não voltar a acordar. Quem chora as borboletas nos dias em que morrem?

segunda-feira, outubro 30, 2006

Navegações interiores


Podia perfeitamente ser um marinheiro, daqueles clássicos com camisola às riscas e sacola desbotada às costas. Talvez trouxesse um chapéu à Corto Maltese e a memória cheia como uma maré viva. Havia de se lembrar das mulheres que nas tascas dos portos têm o olhar lascivo reflectido nos copos sempre vazios e amam brevemente entrecortando a respiração. Possivelmente, no rosto, num braço ou fundo no peito, teria uma cicatriz a marcar a dureza que acaba as conversas que falam com suspeita da honra. O caminhar teria que ser ondulante para tornar evidentes as longas travessias dos oceanos e teria no bolso mais próximo do coração uma fotografia sépia de alguém que quase já esquecera o nome. Teria certamente a voz rouca enrolada em tempestades e acenderia cigarros em cigarros para estar rodeado de um perpétuo nevoeiro lugar onde começam todas as aventuras. As mãos haviam de ser rudes como as amarras que mantém o barco fundeado incólume aos recifes que o reclamam com gritos alterosos de espuma. Perder-se-ia numa pensão barata com cheiro a salitre e com janelas incompetentes para emudecer a voz do mar. Havia de olhar a sua vida por uma bússola que nunca soubera apontar o caminho da felicidade, mas apenas a imperativa necessidade de zarpar sempre para os lados em que o Sol é maior. Podia, perfeitamente, ser um marinheiro, ou qualquer um de nós, navegando os dias roubados ao oceano do tempo.

sexta-feira, outubro 27, 2006

de onde vêm as estrelas?


para os teus lados sopra a nuvem branca essa máquina de endoidecer os que amam as cores com nomes separam-se as pétalas dos lábios para adormecer numa cama dividida entre a água e a areia e ouvem-se os bichos da espera tecer casulos no teu corpo doce como as noites de luar absoluto
para os teus lados desaguam os rios de fogo e voam os pássaros de asas ambiciosas para quem o infinito é coisa ridícula nada se compara ao teu braço com hastes de fumo verde e ao teu torso polvilhado de rosáceas hexagonais que perfumado uma só vez pela primavera decisiva traz todos os poetas inebriados pela memória dos cheiros
para os teus lados irradiam todas as auroras desde o início dos tempos e há mesmo quem diga que as estrelas são sinais que um dia te desceram do corpo até ao céu dos homens

quinta-feira, outubro 05, 2006



herdei uma alma de pássaro

assim como uma paixão enorme

por este poleiro entre as estrelas

quarta-feira, outubro 04, 2006

Do tempo sem tempo


tragam-me orquídeas para colorir os dias e um perfume de África no lóbulo da orelha e peças de âmbar com insectos maravilha e um cometa com uma cauda de muitas gaivotas e uma mão cheia de pedras de chuva mas escondam na pele a carícia do vento azul porque ninguém acredita que um nome possa inventar um caminho sem retorno para a alma adormeço com a mágoa acesa de te saber longe o meu braço só te toca e não te envolve arrisco assim estar demasiado distante do centro do universo só oiço o marulhar dos teus antigos passos na relva na areia na calçada na encruzilhada das linhas da minha mão e escorres pelos lábios da serpente do tempo finjo a morte para não te ofender o sono esqueço-me de respirar para não embaciar os teus olhos de vitral e canto a vida como os seres de um só dia se nos encostássemos sustentaríamos o mundo à altura do peito então tu beijarias o hemisfério norte e eu traçaria a linha do equador na curvatura do teu ventre assusta-me só saber ler a primeira página do teu rosto e há quase uma eternidade te ouvir dizer as palavras que me sossegam amo o mistério da tua opacidade como amo os cisnes que voam da tua para a minha boca não sei se amanhã é o primeiro ou o último dos dias e por isso hoje aqui agora neste instante te ergo esta catedral de fulgurantes pérolas trazidas do âmago do tempo e deixarei que nas escadas de mármore escandalosamente impoluto corra um rio para que possas navegar na tua casa no teu mar de desejos como uma ave de prenúncios de delícia avisto já o relógio nas altas esferas solares mas é cedo demais para vestir o futuro pois ainda não descoloriram as orquídeas e não se dissipou o perfume na tua orelha.

sexta-feira, setembro 29, 2006

No princípio...


Adorava saber quanto custa uma palavra, dessas mais raras que a boca ainda não disse, e na sua insuspeitável leveza provocam sismos na alma e o estertor dos vulcões na língua. Soubesse eu onde mora essa palavra apocalíptica e atravessaria o deserto carregando as estrelas maiores só para a dizer uma vez e esquecê-la. Como deve ser extraordinário esse sabor de sílabas virgens a descer pelos lábios e a inquietar o universo. Uma palavra sem ângulos nem sombras suspeitas, redonda como as marés e a morte. Eu sei que ela existe, que se oculta na música dos dias que valem pelo entardecer. Pode confundir-se com o vibrato da harpa, mas é anterior ao dedilhado e à respiração dos pardais. Talvez se esconda no bolso das crianças que vão nascer, para uma palavra assim tudo é possível. Há quem treine as cordas vocais julgando-se eleito na espera, mas pode acontecer que ela não queira ser dita, que ela seja o que há de mais silencioso no silêncio ou, quem sabe, o efémero verbo que no início foi o princípio.