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quarta-feira, agosto 22, 2012

a nossa sorte...


Podia escrever sobre o mundo nos seus mais ínfimos pormenores: a queda da folha no seu outono próprio na bilionésima segunda árvore a contar do lado esquerdo do continente africano ali no coração do zaire, ou será que já não existe o zaire e esse grande pormenor ocultou-se aos meus olhos?... Podia falar do bicho-da-seda que resolveu tecer-se a si mesmo numa caixa de sapatos ténis baratos numa favela do rio e tem sonhos de borboleta várias vezes ao dia; podia falar de uma imprecisão no osso externo de um gibão fémea que lhe dificulta as acrobacias matinais ao redor da fruta doce e suculenta; podia falar do oitavo planeta que gravita uma estrela no coração de andrómeda onde corre ácido sulfúrico numa cascata fumegante e não há ninguém para adormecer à janela; podia falar de tanta coisa sem mérito nem significado mas temo despertar-vos para lugares sem luz artificial nem sofrimento, por isso falo-vos apenas do tempo incerto para amanhã à porta do vosso desespero…

segunda-feira, março 26, 2012

de um só dia




A música como uma insidiosa serpente enrosca-se na boca pequena,
nos violinos saídos do ventre magnífico das prostitutas
um poema é escrito para impedir que a noite possa fechar,
o cavalo das tuas coxas fulminantes salta todos os obstáculos
e a cor azul desbota dos teus olhos grandes para dizer a foz,
os rostos tocam-se numa bissectriz rente aos lábios
e quando tudo isso acontece, sem que o tempo o saiba,
eu danço com as palavras e morro no dia único das borboletas
porque tão efémero é aquilo que digo como aquilo que vivo.

terça-feira, março 06, 2012

dos deuses e do cómico


Entardece nas colinas de Lisboa. A verticalidade calcária da igreja impõe-se no rigor da sua branquidão a toda a cidade em redor. Corre uma aragem minuciosa e fria que fende a pele nos lugares expostos. A porta range nos gonzos e abre para um lugar divino a acreditar nos crentes.
Solicito, o moço guardião, pede-nos que tomemos um dos corredores laterais, uma vez que se está a realizar uma cerimónia litúrgica. Surpresos, porque os religiosos se não divisavam, dissemos ao que vínhamos: à imposição do novo manto ao senhor. A nave central franqueou-se-nos de imediato. Se vos move tão nobre objectivo, podeis dirigir-vos para a sala ao cimo das escadas.
A sala era pequena. Algumas das testemunhas não tinham conseguido lugar prioritário e amontoavam-se na porta franqueada. Movi-me estrategicamente e, junto de uma das ombreiras, serpenteei o olhar por meia sala, a parte que me foi permitido aceder do lugar em que me encontrava. Rostos compenetrados, com um profundo e temeroso respeito, deixando, na maior parte dos casos, ver as marcas do tempo, olhavam centripetamente um vulto no centro da sala. Podiam ouvir-se, se de ouvido atento fizéssemos uso, pequenas ladainhas de pesar. Algumas mãos retorciam-se de autêntica paixão.
No meio da sala, no coração de todos mas no meio físico e geometricamente definido da sala, um figura imponente permanecia passiva e pacientemente imóvel. Não obstante sobre si pendia, não a luz sapiente e omnipresente do pai, não o espírito santo em trabalho quotidiano, mas uma formidável e intimidante chave de fendas em trabalho de aturada e escrupulosa pontaria. Cada vez que a chave descia, como há dois mil anos atrás cada martelada no cravo, a multidão sentia um quase fatal aperto no miocárdio. A auréola do senhor, com a rosca provavelmente moída de tanta renovada imposição, teimava em não unir-se ao corpo do senhor. Do fundo do meu olhar sacrílego e lutando tenazmente entre o cómico respeito e respeito cómico, só me lembrei do poema de Augusto Gil: mas as "beatas", Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...
Abandonei o cerimonial com uma atinente dúvida metafísica: será que no fim, já noite dentro, lhe ministraram paracetamol para as dores causadas por tão satânico parafuso?

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Vivaldi


Vivaldi falou-me em cordas, e logo a mim que já não sei do pião… não chegámos a discutir porque nenhum som soou grave. Apenas um suavíssimo sussurro me trespassou a pele e esta tamborilou noite dentro entre um frio esquecimento e a memória de palcos de festa. Acordei entre acordes de arcos perfeitos e adormeci um dia inteiro na insaciável sombra da rotina. Saber que sem música a própria harmonia celeste desafinaria deixou-me confortado, um relojoeiro de sonhos em forma de roda dentada, um mágico de estrelas entre marés e um escorpião escarlate para me envenenar os pensamentos sombrios, povoaram o meu descanso e semearam tempo a meu lado. Vivaldi murmurou em dó sustenido uma história de dedos de alma irrequieta e eu sosseguei esperando pelo exato tempo da próxima estação.

segunda-feira, julho 11, 2011

do silêncio


O meu reino por uma palavra, o meu reino e a minha vida por duas, o meu reino a minha vida e toda a minha memória por um verso que me ajude a fechar os olhos sem temer a duração do sono. Há quem apanhe borboletas filtrando o vento, quem pesque peixes purpura que nunca existiram, quem conte histórias para alisar o caminho das palavras e chegue a beijá-las para que a ternura as ligue sem remissão umas às outras. Talvez nenhum dicionário contenha tantas palavras quantas o silêncio e por isso tantos o habitam demoradamente.

segunda-feira, novembro 22, 2010

a minha mãe

Sei-me na imagem da árvore a quem insensivelmente secaram o que restava da raiz. Sei que já não resistirei com o mesmo vigor aos inclementes vendavais que assolam a alma e alquebram o corpo. Sei que já por mim não velam nem esperam os mesmos braços e o terno colo onde aprendi a dormir em sossego. Sei que adormeceste e no sonho derradeiro moraram os que amaste acima de tudo. Sei que, enquanto houver memória, beijarei o teu rosto e ouvirei os teus sensatos conselhos todas os dias... Sei que uma mãe nunca morre, apenas se esconde para se alegrar a ver-nos voar sozinhos...

segunda-feira, julho 05, 2010

my friend


My friend sabe mais da pesca do que muitos alguma vez saberão acerca da vida. É um verdadeiro filósofo crestado pelo sol de uma Lisboa inclemente, não pelo calor, mas pelo desabrigo que dá a alguns dos seus… Pensa cada pormenor antes de escolher o fio, o tipo de empate, o anzol, a chumbada e a altura das marés.
Ele é que nem sempre está de maré, nem sempre peixe decente se deixa tentar pelo suculento anelídeo, e então só resta o refugo, a miséria que flutua. Nessas alturas, a água corre pardacenta, o vento é inelutavelmente frio, e as sombras descem as colinas para cobrirem o Tejo.
De longe, da babilónia dos desalojados da sorte, chegam-lhe os amigos para ouvir as argutas dissertações, para partilhar um não destino, para revender um Tejo tinto, para olhar e aprender as técnicas de parecer feliz. Mas tem filhos que se perderam entre a Ponta dos Corvos e a Baía do Seixal, ou noutro recanto espraiado do Tejo, numa maré de azar tudo foi ter ao mar do esquecimento. Antes assim, dirá num estoicismo inevitável, não preciso de ninguém nem quero que ninguém precise de mim.
A desgraça é maior quando o dinheiro investido não produz nenhum bem, quando as águas correm depressa de mais para que o peixe se deixe ficar por ali a olhar Lisboa, e por engano se deixa enganar. Nesses dias longos, de horas feitas de segundos sólidos como alfinetes a lavrar a pele, valem todas as vociferações contra deus e o diabo, contra os políticos sem vergonha e com vergonha, contra os amigos e os inimigos. É preciso dizer mal de alguma coisa, “dizer mal” é o remédio mais antigo para não se olhar para dentro.
No fim a estratégia de recurso, o kit de salvação, o grau zero do pescador: apanham-se as tainhas. Cegas e prenhas de merda. Mas se lhe esquecer a cabeça e as barrigas talvez engane o estômago, engane a dignidade, engane a corvina que lhe morou o sonho nessa noite e noutras noites todas iguais. Mas mais difíceis que os sonhos e as noites são os dias de obsidiante sobriedade em que tudo teima em ser tão nítido e quanto mais nítido mais obscenamente doloroso. As caravelas do absurdo já não partem: fundeiam no próprio Tejo!

quinta-feira, julho 01, 2010

do inverno e da saudade


Começou o inverno: a saudade é fria e chuvosa e dias há em que enregela a parte mais habitável da alma.
Teremos colhido nas palavras, ou suspeitado apenas, a sua seiva doce, a sua entoação reticulada, a música das vogais mudas, aquilo que elas nunca saberão dizer, porque só pode ser dito não se dizendo…
É estranho este caminho pelo passeio dos instantes quando abre para paisagens que já floriram antes de chegarmos. Que não aguardaram que o nosso sopro levasse o pólen, as sementes e o nome provável do que há-de germinar.
Não há quem fique a segurar o sorriso, como uma janela aberta, como um convite, como um fio de seda, como um cálice de memória, apenas a sombra do que nunca foi alimentado pelo Sol e nunca sentiu a vertigem de ser maior sem tamanho.
Ainda podia falar do cuidado, da fragilidade das asas das borboletas, do cristal que alguns olhos emitam, e do adormecer a contar os segundos fora das horas onde se acordam as pessoas doces de dizer. Mas quem arrisca, quem desce ao chão mesmo da raiz, à nascente para perceber a foz, ao silêncio para perceber a fecundidade da música, à dúvida para nunca mais acreditar nas certezas.
Creio que são os grilos que desafiando a noite me entram pela alma e por qualquer estranha e desconhecida harmonia me convidam a cantar às estrelas, talvez aproveite e cante também aos que apesar da usura do tempo nunca esquecerei…

domingo, março 14, 2010

mãe-mar


Estar com a mãe é outra forma de ver o mar: o regresso mudamente desejado às águas primordiais! Elas são de um azul variegado da ternura à cólera, numa mesma maré e muitas vezes numa mesma vaga, o barco é colo e logo de seguida um anzol que nos recolhe para dentro da memória que não nos deixam esquecer. A mãe é uma rede cuja malha teceremos envergonhando Minerva e a cada dia que subtraímos ao calendário a malha há-de apertar-nos cada vez mais até ao nó górdio da leveza decisiva.
Estar com a mãe é outra forma de ver o mar: as mãos peixes voadores e os cabelos sargaços que nos fertilizaram o sonho e o sono. Às vezes entram por o mar adentro porque anteciparam o nosso naufrágio, outras assistem do mais alto promontório à nossa bolina desajeitada. Transformam-se, quase sempre, em faróis e é então que mesmo na mais feroz tormenta uma luz ainda que ténue e distante sempre nos aponta o exacto caminho do regresso a casa.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Na exactidão do tempo


duas palavras para uma só voz e ainda assim o mercado que era aberto a sul e com oleados a fingir a garganta estreita dos peixes não fechou de imediato e a tua boca é uma praça bela como o paço que é terreiro ou o vento em arremetidas para que se acorde mais cedo e mais capaz para ouvir os cântaros a partir um instante antes de refrescar a água ficam as mãos para afastar os meios-dias para um dia inteiro
o mais é simples e quase vermelho como os poemas dentro dos morangos na exactidão do tempo.

sábado, novembro 21, 2009

Voo no olhar


É turvo o anoitecer e voluptuoso o mergulho no branco da gaivota. Parece haver passos nas nuvens e uma mão de quase chuva. Porque há-de haver um peixe sempre que falo do rio, não bastará o azul e a areia de construir o mundo, não bastará a palavra na margem para chamar a maré?
Deixo que as estrelas venham na sua navegação geométrica aparecer antes da foz. Podia pendurá-las junto à natalícia lareira, mas a chaminé ainda cheira a enchidos e a tímido eucalipto. Será que as gaivotas e as andorinhas do árctico têm das estrelas os olhos riscados, ou apenas uma láctea mancha de todos os excessos?
Ficaram passos no início da terra e no fim do mar. O que há de mais efémero que esta brisa que vai sempre atrasada para a sua morada mais além? Caiu a onda, como a cabeça no ombro, como uma boca na boca, ou, talvez, como todas as outras ondas. São os olhares que teimam em não ser só olhar que desvirtuam as coisas, que as despem, que as reinventam, é por isso que eu odeio esse olhar mesquinho, manso, míope, que guarda a virtude das coisas. Prostituo-me em cada olhar, como a gaivota que se dá a todo o vento, e não recuso dar-me a um novo horizonte ainda que em toque breve.
É preciso voar, é preciso voar! até que a luz do vento se apague e na tarde mínima o cordame da memória se dilua neste absoluto desejo de sem rumo para todos lados rumar...

quinta-feira, novembro 12, 2009

Esperar de olhos sentados...

Para olhar havia uma janela, um dia partiram o vidro e colocaram uma fotografia das Caraíbas, só que a areia escorreu ferindo os olhos... Vieram então os peixes de prata que rodearam o luar e cintilaram na fome do pescador. Um barco de junco entrelaçado veio do antigo Egipto e Cleópatra quis ver como se ama no futuro. Tanto tempo nos calendários, disse ela, e ainda assim continua a haver quem morra à míngua de palavras que não estão mais que um segundo nos lábios. Foi aí que chegaram uns estranhos que inabilmente mexeram no coração dos caranguejos e todas as paixões recuaram. Chamaram, com voz de haver ternura, as mulheres de olhos garridos, injectados de sonhos e sons vespertinos, e ninguém as esperou para colher as papoilas de ígnea brevidade. Logo, chegaram os vendedores de milagres, frios e fundos como a noite, mas irresistíveis como uns lábios que até servem para respirar. Ele há coisas de difícil dizer, ele há coisas de ser sem palavras, ele há coisas de terno e absoluto abandono, ele há coisas de esperar que aconteçam, ainda que isso me dê muito sono…

sexta-feira, setembro 04, 2009

abraço-te à distância...


Ela gesticulava energicamente. Brandia os braços, retorcia as mãos e todo o corpo se agitava como se quisesse com essa forma de expressão mostrar mais do que as palavras, apenas as palavras, eram capazes de mostrar. Um olhar um pouco mais atento pôde mesmo fazer ver que no seu rosto algumas lágrimas desciam pela força da gravidade ou pela força implacável da emoção. Não teria ainda os trinta anos, não era portanto ainda uma mulher balzaquiana, mas evidenciava um ar de arranjada burguesa e uma beleza indiferente à sua condição social. A beleza ocorre democraticamente, a sua manutenção é que pode eventualmente ser marcada pela assimetria social. Incomoda ver alguém que, pelo modo como se agita, indica que o mundo a hostiliza ou, no mínimo, não a compreende e era exactamente isso que um incauto observador, um observador ocasional, um improvável e imprevisível observador dava conta: uma mulher que está ferida ou que antecipa a ferida. Uma hipótese que me ocorreu na altura foi a da perda, isto é, uma perda acarreta sofrimento, acarreta dor, uma espécie de extirpação indesejada, e toda aquela agitação, toda aquela raiva, podia ter os deuses como destinatários ou se não os deuses pelo menos os senhores do destino, quem quer que eles fossem…
Elevei ligeiramente o meu ponto de observação. Queria saber quem a ouvia e era incapaz de atenuar, apaziguar, aquela tempestade. Tive que me deslocar e momentaneamente deixei de a seguir em pormenor. Logo que nova oportunidade surgiu morei nela os olhos tentando identificar o inábil companheiro. Precisei do intervalo entre dois semáforos para perceber que ainda não inventaram “mãos livres” capazes de dar abraços ou limpar as lágrimas.

segunda-feira, julho 13, 2009

da viagem e do horizonte


Para uma viagem nunca sabemos ao certo aquilo que não devemos levar. Há aqueles que se assenhoreiam de metade da vida para levar junto e são poucos, muito poucos, os que se despem até ao mais íntimo para não levar marca do passado. As viagens são, por isso, para estes últimos, formas de nascer mal se fecha a porta. Gostaria de pertencer a esta última casta, mas julgo situar-me numa espécie de ínterim que liga e simultaneamente cinde passado e presente, mas que os leva inevitavelmente na mesma viagem.
Descobri há relativamente pouco tempo o deslumbre da viagem. Não mais que dois passos após a soleira e já a alma se alegra. Se a viagem for mais longa, para lá do que a vista alcança desta janela de uma vida feita na sombra e, portanto, a amenizar a clausura de anos a dormir por dentro, então a distância é proporcional à festa, festa dos olhos, dos odores, dos sons, das texturas e dos paladares, e que embora podendo ser em tudo semelhantes aos de ontem e de sempre ganham pelas coordenadas diferentes o sentido da descoberta e inebriam por isso. E só quem nunca sentiu o sortilégio da ebriedade, uma das muitas possíveis, pode não a desejar repetida.
Nos rios nadam peixes diferentes num azul diferente e os pés cansados afogam-se em águas sempre diferentes. Os verdes das folhas são de paletas afins mas com um pequeno, embora decisivo, pigmento a marcar a diferença. A luz que vai riscando a angulosidade das sombras ao longo do dia varia entre a luz crua e dolorosa e a meiga e morna de entardeceres inigualáveis. E tudo isto sucede por influência do horizonte que se cruza. Para lá do horizonte é o reino do tudo possível. Viajar é por isso a sedução do horizonte e de muita sedução resulta por vezes a fusão absoluta.

segunda-feira, junho 15, 2009

Façamos de conta...


Façamos de conta, como nas histórias de poucas palavras, que o mundo é um pássaro embriagado de cevada. Que a avó é uma nuvem, pode ser um cúmulo ou um cirro, uma coisa ligeira e etérea, mas que ninguém se lembra se a chuva vem de um céu conservador ou progressista. Que em nenhum lugar ficam impressões definitivas, apenas uma leve poalha que convive na perfeição com a eternidade e outras medidas do tempo para os que facilmente se impressionam. Que um dia, daqueles em que morte tem doze horas e a vida vinte e quatro, alguém te chama como quem canta e te lembra que um melro diz o teu nome todas as noites ao largo das três. Que o rio, que pode ser essa torneira que pinga em perfeita sincronia com tudo o que irrecuperável, transborda e leva os peixes a sítios alucinantes. Que tudo o que aparenta sentido, como a intensidade da luz no rosto pela manhã e periodicidade dos equinócios à altura da cintura, é também uma história de mais ou menos palavras e com um final substituível como um chip de memória.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Passos imprecisos



De todo o tempo o único que enraíza fundo é o da palavra certeira, da maçã verde e do romance inacabado. Se falta a luz nas margens é porque o rio é memória. Troco uma vida por um olhar ainda que meigo ou incertamente míope. Todos dizem que sabem de que é feito o passado ou os passos imprecisos. Conta-me, apesar de tudo isso, daquilo que te faz respirar ou mastigar um sonho denso, de quantas cores esmaecidas havemos de redigir os beijos incendiários, acontecem dias minuciosos e só dizê-los é assassiná-los para uma realidade maior que a boca ainda que doce, que ágil, que deslumbrada. A tua mão versátil é uma borboleta com os olhos de Darwin e evoluímos juntos e nada a não ser o querer nos cruza. Desce a maré no dorso da falésia, águia de voo lento e coração onde o adjectivo de entrada é imenso. Caem as horas em vez de pingos de líquidos de embriagar, o meu relógio cava os seguros segundos do futuro e do passado, e chego sempre atrasado, tenho fome e o universo é indigesto.

sábado, novembro 08, 2008

da luz e das sombras

1. Entardece: luzes longas no rumor das sombras. O ponteado das nuvens tece silhuetas e mãos de cirros que teclam um horizonte quase perfeito. É a hora mágica das gaivotas, dos que se perdem no olhar, dos ocasos iridescentes e do último suspiro solar.

2. Anoitece: alguém acende as estrelas, aguça as cintilantes pontas e afaga seios meia-lua como se dissesse boa-noite. Há uma nocturna vida que cumpre o ciclo do contra luz e explode em vivo vermelho nos olhos dos amantes e dos cães famintos. Há um manual de sobrevivência à espera em todos os jardins sobranceiros a Lisboa e os perfumes antes do orvalho.

3. Amanhece: a menina que leva beterraba para alimentar o sol está atrasada. É fria a divisão da vida dos que rangem como os eucaliptos velhos. De que brisas vieram tantas aves madrugadoras e os rios a cintilar pepitas na nudez das margens? Deixo uma harpa em bom estado, um dedo gasto das cordas, uma voz a soar a café matinal e vou-me deitar na cama de onde se levanta o dia.

quarta-feira, outubro 08, 2008

da ausência


Por muita saudade em que as abrigue, ainda assim elas apenas me acenam e logo se dissipam como poeira. Mesmo que as olhe como quem olha em ternura viva, e as ouça muitos hertz antes do que é possível, este silêncio mura-me os dias. Sinto-as nos lábios e são amoras negras e melífluas de agosto, mas também elas se desfazem se as toco. Distanciadamente, como amantes de juvenil timidez, sabemos que o outro existe mas tocar-lhe seria profanar a estátua líquida, ou tornar a poesia uma ciência exacta. Sussurro, rumorejo, cicio, e nestes gestos que também servem para respirar, nenhum som emerge da transparência, nenhum som se ergue com corpo de dizer, nenhum som se aparte da minha boca-fonte-exaurida.
Por onde correm as palavras que do sangue sei eu?

terça-feira, agosto 05, 2008

No ponteiro dos dias...


Corre um rio alterado no ponteiro dos dias e a paisagem é a memória da cor. O céu que aluguei nesta janela é a minha quota-parte de incomensurabilidade e esta palavra se não é grave é líquida para uma boca em início de anoitecer. Há dias assim, em que ao dizer as palavras elas se insinuam por sabores e nos dias irrepetíveis as palavras tem mesmo corpo e cheiro e nessa altura, nessa altura, eu mordo o silêncio e sabe-me a paixão adolescente e inalo âmbar num pescoço que é só de vento.
Corre um dia alterado no fulgor do rio apesar de longínquo o Outono dos olhos. Pergunto-me pelas veredas por onde nunca chegaste embora eu as tenha pensado para ti, pergunto-me pelo papagaio de jornal e canas que ganhou vida num cinzento de trovoada, pergunto-me pelas manhãs de bebedeira e da necessidade de enlouquecer uma noite para não enlouquecer uma vida, pergunto-me como aqui cheguei tão depressa, e se não foi culpa desse rio alterado que corre no ponteiro dos dias…

quarta-feira, junho 25, 2008

do carvão ao tinteiro


Dei comigo a pensar que os escritores são indivíduos normais, pacatos, perfeitamente misturáveis com outros humanos Vulgaris de Lineu, apenas com uma audição mais arguta e talvez, também, com um especial dote para traduzir línguas em vias de exposição, ou em potência, como diria Aristóteles.
Olhei para cima da mesa e vi um usado, mas ainda com um porte nobre, recipiente para lápis, esferográficas e canetas. E eles, multicolormente dispostos, estavam ali como uma espécie de desafio. Era como se me dissessem: agarra-me e obriga-me a dizer o que tenho em mim. Sim, porque afinal todas as histórias, todas as grandes ideias, todos os romances e todos os poemas saíram de dentro de uma caneta, de uma esferográfica ou de um lápis. Não é preciso ser adepto de ficção científica para ousar dizer que são eles os autores, são eles que riscam o papel o cartão e deixam traços contra o tempo. É bem possível que esteja neles: na mina negra, na tinta azul, no pigmento entre o cinza e o preto, todas as histórias que megalómanos vários disseram ser suas. Alguém viu, alguém testemunhou, alguém sabe, de um romance, de uma reflexão filosófica, de um poema, escrito com ideias em vez de tinta?
Poderá muito bem haver uma alma na tinta, um coração que se esgota cada vez que se afia um lápis, uma dor violenta e indizível no impressivo borrão do aparo que morre inclinado demais.
Todos falam do papel, da sua brancura atemorizante, do desafio à vertigem, da provocação aos olhos que só pedem tréguas, e todos se esquecem que quem verdadeiramente o ama porque se funde nele é a tinta, é o aparo que o risca como unhas na carne, é a esfera que rola e por magia vai deixando atrás de si interrupções no branco que aprendemos a dizer por palavras. Nós apenas ouvimos o que o lápis diz de forma difusa e desconexa, mas o escritor é aquele que tem uma acuidade especial para a voz que circula entre o tinteiro e o aparo e o muito ouvir chega a transformar-lhe o sangue em tinta permanente.