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terça-feira, março 07, 2017

Build sofas, not walls


É nos lugares mais imprevistos e com as personagens menos esperadas que nos surgem as grandes revelações.
Todos sabemos que a velha Lisboa é agora, segunda década do século XXI, uma espécie de Babel, onde aportam vozes e fisionomias que até há bem pouco tempo atrás eram viajantes de outras latitudes e que só muito esporadicamente por aqui aportavam. A calma, a hospitalidade e o baixo custo de vida, para o standard da maior parte dos países desenvolvidos, torna a lusa terra um lugar muito apetecível.
Um simples passeio pelas ruas que desembocam no rio, ou pela cidade alta, é uma incursão nos compêndios linguísticos e, ao mesmo tempo, um revisitar daquelas cadernetas de infância onde se colavam os cromos com povos das diferentes partes do mundo. Do inglês, com e sem sotaque, passando pelo alemão, francês, italiano, russo, japonês, chinês e, sobretudo, o castelhano, e mais um sem número de sons e palavras indecifráveis, tudo se encontra sem ser preciso procurar muito.
Vêem tudo ao pormenor, com e sem guia; a pé, no afamado 28 ou no infelizmente ruidoso tuk-tuk; parando demoradamente para descansar os pés das exigentes colinas e, na maior parte dos casos, para ler com a luz única de Lisboa um romance que sai, deste modo, inevitavelmente favorecido. Param junto às montras e fotografam as exóticas comidas: pastéis de nata, peixes e mariscos variados, como quem fotografa baratas, gafanhotos ou serpentes sem escalpe num mercado de Banguecoque.
Junto ao rio celebram votos e tiram fotografias de grupo e, alguns, permanecem imóveis, verdadeiramente hipnotizados, tocados pela magia do Tejo, horas a fio, sem qualquer outra intenção que não seja guardar para sempre a visão de uma vida.
Nesta Lisboa há também lugar para os desavindos com o destino, sejam eles lusitanos ou dos que percorrem o mundo, transpõem fronteiras, à procura do paraíso que, para eles, está sempre mais além e, cada dia que passa, parece afastar-se mais e mais. Não chega a estar no horizonte, mas sempre para lá, muito para lá do horizonte, de qualquer horizonte…
De braço estendido, arrastando uma muleta e uma perna destroçada; prostrados sobre si próprios num sono que antecipa um desejo de morte; tocando instrumentos afinados pelos passos apressados ou interpretando um canto agónico que não há álcool suficiente que afine; com os filhos no colo que nunca pôde ser abrigo e ternura; estes humanos, demasiado humanos, são também uma das faces de Lisboa.
Vivendo na miséria, ainda assim mantém um traço de humanidade que me surpreende: a capacidade de partilha. Vejo-os, repetidamente, a dividir o que têm, o que conseguem com as esmolas. Mas, também, são capazes de desenvolver mecanismos apurados de sobrevivência.
No cais das colunas, lugar onde o Tejo beija de forma mais intensa, repetida e cúmplice a cidade, há meses que para sobreviver um casal esculpe uma efémera estátua com areia do rio. Começou por ser um cão, seguindo o modelo do seu próprio cão; passou, posteriormente, para um sofá onde o dito cão aparece refastelado e, numa última versão, o sofá com o cão e ainda uma miniatura de um canídeo na frente junto à caixa que espera pacientemente as moedas que possam cair. A actualidade política está também presente, com palavras de ordem escritas a vermelho: Build sofas, not walls ou Welcome friends except Donald Trump.
Ora bem, os artistas têm também que descansar, é a sua parte humana. As moedas ganhas durante o dia deverão providenciar uma refeição, um lugar de sono e pouco mais. Para ser justo aos factos, providencia ainda umas cervejas ou uma garrafa de tinto, inteiramente merecidas, de resto. Assim, cedo, numa manhã morna de um dia feriado, o artista ainda ausente, a escultura com marcas esparsas das gotas de chuva que caíram durante a noite, foram a oportunidade imperdível para multiplicar a gente feliz e a afirmação mais convincente do valor e importância da arte.
Um dos mendigos, daqueles do braço estendido e da muleta, apropriou-se do território museológico do cais e, timidamente, sempre em modo de alerta, não fosse o verdadeiro artista sair subitamente das areias, encostou-se à parede, qual guardião desta esfinge que se desmoronava, não sem antes colocar a sua caixa de cartão à frente da peça, e aguentou, tanto tempo quanto lhe foi permitido pelo seu medo, a invasão do território alheio. Algumas moedas foram caindo, algumas moedas foram sendo recolhidas e nessa parte da manhã o artista foi o verdadeiro mecenas. Em pouco tempo o dia ficou ganho e tão lesto quanto a muleta lhe permitiu afastou-se do lugar do delito.
A meio da manhã com os escultores ainda ausentes, a efémera obra continuava a ser visitada, registada fotograficamente, enquadrando o Tejo e a ponte vinte e cinco de Abril, e dando azo a comentários que oscilavam do espanto à estupefação. Faltava porém o artista, o curador ou, no mínimo, o vigilante. Mas não faltou durante muito tempo…
O aguarelista residente no cais fixou as suas obras, acomodou os seus parcos haveres e sondou rapidamente o vigor do comércio matutino. Poucos eram os potenciais clientes, pouco interesse despertavam as suas suaves aguarelas, mas muito interesse despertava o sofá, os canídeos, as palavras de ordem e o enquadramento.
O sol era pouco e o chapéu podia ser dispensado para funções mais elevadas e mais altruístas. Aproximou-se e numa reverência estudada descobriu a cabeça e posou o chapéu na frente da escultura. Encostou-se ao pilar e não foi preciso esperar muito para que as moedas fossem caindo de mãos reconhecedoras da grande arte. A musicalidade das moedas a tocarem umas nas outras deve ser para estes homens o verdadeiro, o sublime hino à alegria. Sem outra fonte senão esta que brota da boa vontade, não é difícil perceber esta selecção musical…
Mas se se partilha o que é exíguo, também se protege a pequena propriedade, e em virtude desse desígnio o homem da bandeira, que empresta o símbolo nacional a troco de uma moeda, cuidadoso ao verificar que no chapéu estava uma nota de cinco euros, que podia levantar voo como se de uma gaivota se tratasse,  lesto se apressou a alertar o aguarelista dono do chapéu que, com rapidez e destreza, a guardou no bolso registador.
Primeiro fora uma caixa de cartão, agora era um chapéu e logo mais, chegados que fossem os modeladores da areia, seria um pano, a recolher as migalhas que somadas tornam possível somar dias.
Acredito que o homem da caixa, o homem do chapéu, o escultor de areia e, talvez, até, o homem da bandeira, pertencem todos a uma mesma família e que um cão de areia os guarda e alimenta a todos, o que vem provar de forma decisiva que o cão, mesmo de areia, continua a ser o melhor amigo do homem.


domingo, outubro 16, 2016

A música já está feita, o texto está por fazer.



A música já está feita, o texto está por fazer.
Talvez por isso escolhas essa forma de assobiar sobre o vento
Em vez de ousares aparelhar palavras que podem erguer muros e moradas
E deixar vestígios de saliva e tinta seca nas mãos cavas
E que nada apaga ainda que se tornem incómodas tatuagens na memória.
É fácil, é até sedutor, emprestar os ouvidos às mulheres que cantam
Em silêncio deixar que elas julguem a quantidade de desejo que as ouve
E que imaginem os cenários mais idílicos para compensar todos os não-dias.
As palavras podem ser melaço de cana ou uma lâmina de brilho inquieto
E algumas, labirintos em que o inclemente eco se teme mais que o Minotauro.
A música tem arestas boleadas e claves de Sol mesmo nas notas invernosas
Os violinos dão pouso aos pássaros e a flauta usa-lhes a voz emprestada
O maestro segue fiel atrás da batuta que sabe de cor todas as músicas
E até as crianças de ouvidos pequenos adormecem por Si sem Dó.
O texto desafia sem pauta a travessia branca do deserto
Exige um rio, mas não sabe apaziguar a sede
E liberta personagens que nunca mais te deixarão viver sozinho.
Alguém escreve a branco e preto neste piano que se ouve
É fim de tarde, hora profunda e um acorde solta-se ágil e completo,
Alguém, com jazz na voz, esta noite improvisará o que há de música no poema.

quinta-feira, julho 21, 2016

Ao Ruy Belo


Possivelmente ainda não chegaste, o areal está deserto e ao longe apenas gaivotas
Disseram-me que havia dias em que chegavas cedo, antes de haver luz
Que vias os pescadores, em barcos coloridos, romper as ondas enquanto acenavas
E seguias entre a tua melancolia e a espuma do mar a desaparecer no vento frio
Talvez esperasses que o poema se escrevesse no teu rasto de polvo das palavras
Ou o percebesses nítido e íntegro apurado o ouvido junto à senhora da guia 
Mas hoje, já percebi, hoje não te apetece o sal a colar os lábios nem ouvir as varinas
A noite teve muita lua, o uísque correu vagaroso e tiveste um problema com as unhas.
As algas dançam a meia água e morrem em tons castanhos, como os teus olhos
Chegou um homem descalço até aos joelhos e ameaçou o mexilhão com uma faca
Hesito em dizer em qual dos teus versos melhor o descreves
Porque lhe falta um saco de serapilheira para acomodar o destino.
Irisa-se o céu do lado de onde costumas aparecer
Mas a todos os que vejo vir lhes falta o ar de poeta e de ter insónias amiúde
Terás tu deixado Vila do Conde ainda com uma garrafa em maré cheia
Ou acometido de paixão súbita enlouqueceste de novo como na primeira vez
E rumado à Consolação para te livrares das dores que dão nos ossos que há na alma?
Vou perguntar por ti no cais, antes, talvez, ao velho banheiro, mal acenda o cigarro
Todos te conhecem com o mar ao fundo, poucos te sabem pedreiro das palavras
Se acaso morreste e, por isso, te atrasaste em voltar à praia
Manda um recado pelo homem que faz bom o caminho alumiando o farol
Evito assim andar Atlântico acima Atlântico abaixo para te dar um abraço
Dar to ei em qualquer lugar onde leia os teus versos que me inquietaram a vida.

quinta-feira, março 24, 2016

poesia-me...

É sábado e não sei o que é feito do contador dos dias
As árvores estão quietas sobre raízes quietas sob nuvens desfeitas
À distância formam-se as palavras no recorte dos lábios e soam
Mulheres e crianças caminham enquanto crescem
Um cão sobe pelo passado e é quase lobo
Numa mesa decide-se o teu futuro entornando-o.
Sempre me disseram que os sábados são rápidos de viver
E ainda que os sonhos durem as primeiras horas
Geralmente não sobrevivem à luz desmedida com que te acordam
Nem ao excesso de picante com que condimentam a realidade
Mas, ainda assim, os amantes florescem ao fim de semana
E dois em cada três admitem ter gemido de prazer autêntico.
Os sábados são os dias em que ninguém quer morrer
Porque as coletividades estão cheias e os bilhetes pagos
E irrita interromper uma dança para varrer folhas,
Ou defumar de eucalipto a mágoa e a saudade.
É preferível  amanhar as criancinhas, enlaçar-lhes cabelo e voz
E descer aos rios que só existem para as entreter,
Com gaivotas que são balões de gás mais baratos,
E peixes que saltam para lacrimejar nos círculos de azul onde se escondem.
Os sábados, mesmo os mais cinzentos, têm sempre enormes janelas abertas.
Os escravos vão à missa e são voluptuosas todas as mulheres livres
Que nos jardins consideram usar cores extra e perfumes de  Marrakesh.
Estes são os dias de aventura e risco e de abocanhar a vida
Porque nos domingos o trapézio está preso no lado obscuro da lua
E as lantejoulas emudecem nas gavetas entre mofo e bichos do pó.
Os sábados antigos eram generosos com os magalas e as sopeiras
Davam nós nas mãos, beijos clandestinos e faziam filhos em pensões baratas
E as meninas de família nesses dias invejavam quem urgentemente se amava
Enquanto elas com o cio amarrado ao corpo se mortificavam em ânsias e suspiros
E pecados mortais atrás de pecados mortais de tantos desejos atirados para o futuro.
A família fazia dos sábados um restaurante de apaziguar ódios
Distribuíam gratuitamente um enorme sortido de beijos de judas
E no fim contavam as facas e as feridas abertas.
Nos sábados por impositivo legal nunca chovia
Ninguém vestia fatos usados nem punha ouro a fingir
Nem lamentava amar o mesmo homem durante décadas.
Aos sábados são permitidos todos os excessos que dão asas
E usar beijos e festas acintosas acima da cintura para depois levantar voo no corpo todo.
Aos sábados há futebol e outras perdas de memória
Os filhos saem pela primeira vez para se embebedarem
E a vizinha do lado aspira-nos o sono mal rompe a madrugada
No sábado dispensamos o sossego e outras coisas inúteis
E todos acreditamos na imortalidade até segunda-feira…

sexta-feira, março 18, 2016

contaminar os dias

















O meu mundo é o que digo
e as muitas vezes em que silencio o que me vai algures no corpo todo,
é uma vontade irracional de desejar ser mais que só palavras,
mas fico sempre aquém numa margem indefinida
entre rios e marés de torpor e sombra
e mais que tudo as máscaras que não sei como tirar de cima
não dos ombros que as palavras são ligeiras
mesmo quando fervem na língua
e me deixam ferido para não ter que dizer nada,
mas nada é o mesmo que tudo
quando se perde o pé e as mais felizes horas são essas em que olho o mar em             suspenso,
como se a raiz dos dias se tivesse levantado para dizer o nome das coisas
e são ásperos os nomes das coisas que não consigo guardar,
que não consigo acoitar no meio do peito fechado
com sete ou mil e duzentos cadeados de aço e fogo
mesmo que não os consiga contar a todos,
mesmo que as garras do destino
que não acredito que tenha garras me levante do chão
me lance pelas janelas
que todos os precipícios têm para quem chega desconfiado
ou com medo das alturas
e eu creio que chego sempre com medo a todos os lados
ainda que não saiba que altura tenho
e se os dedos que começo a saber contar
poderiam contar para outra coisa
que não este miserável ofício de serem sempre apontadores de infortúnios vários
e ainda assim contínuo a sorrir
a forçar estes músculos manhosos todos os dias
todos os santos e infernais dias eu continuo a mostrar a língua
que me sai do interior mais oculto como se nada fosse
ou como se fosse tudo e mais um outro universo de coisas raras
deixo de lado os simples caminhos que não me levam onde quero
eu que gostaria de estar em todos os lugares ao mesmo tempo
a mim nunca me bastou a ubiquidade
isso sempre fui capaz de fazer sem esforço
o que eu queria, mas queria mesmo, era ser uma espécie de deus
que sem fazer nada de especial, só porque é deus, consegue esse - pasme-se - sortilégio
de estar em todos os lados sem esforço, sem nada de especial, apenas sabe de tudo,
tudo guia, tudo reconhece, porque testemunha de tudo aquilo que respiras
e não se cansa de te destruir o que querias que fosse tão íntimo
que em absoluto nem tu próprio tinhas memória fiel de ter acontecido
sempre há deuses com sorte
sobretudo quando despes a pele e no lugar de ti surge a maresia azul de contaminar os dias.

sexta-feira, maio 22, 2015

baco no cais

Atrás de si ficava uma estrada só de perfume e um esquecimento permanente de onde viera. Trazia na mão mais à direita um chocolate, de onde já libertara a vaca que habitualmente pasta junto à percentagem do cacau, por isso a prata estava pronta para repousar na braseira. Na superfície mais fina do olhar balançava um palhaço, um chapéu de três bicos e um urinol de barro novinho em folha. Só sabia os nomes dos pássaros do entardecer, porque nunca saía de casa com o sol a este e porque não queria acordar demasiado cedo o palhaço que trabalhava no turno da noite e só começava a sonhar quando abria a alvorada. Nunca fora a Espanha, mas sentira múltiplas vezes esse vento espesso que soava a castanholas e flamenco e empurrava para cá da fronteira chapéus de três bicos negros como a fome e a morte no choro dos contrabandistas de palavras impronunciáveis. Se os passos não o atraiçoassem, a sua vida caberia em meio século, mas esses passos de barco tempestuoso arrastavam para muito mais longe o calendário dos dias idos. Ainda bem que a memória se gastou como uma borracha se gasta ao apagar o desnecessário, o errado sem remédio, o esboço que não tem beleza nem nunca fará rir o universo. Ainda bem, pois assim podia morar em exclusividade o presente, sem raízes nem amarras, sem rumores nem remorsos, sem outros que morassem em si sem convite nem desejo, e beber, beber para ser oceano, beber desalmadamente sem suscitar cobiça, todos os mágicos líquidos que o faziam voar sobre lugares mais auspiciosos em ar e beleza por um urinol de barro novinho em folha.

quarta-feira, maio 06, 2015

Estrela do Norte

Agora, quando viajo, já não levo aquele cão que abana a cabeça a cada irregularidade da estrada, porque ficou no ford cortina com que me cruzei à saída da minha infância. Todos os ford cortina eram beges e deixavam fumo a anunciar a partida para lugares que eu invejava. Subia as persianas mal caía a noite e certificava-me que a ursa menor continuava a morar por cima do meu reino. Outros dias escondia-me para perder o norte e segurava o magnete que teimoso dizia sempre o mesmo. E é isso que acontece a quem não viaja: diz sempre o mesmo, ainda que use outras palavras. Todos adormeciam ao afinar o coração pelo relógio de parede, mas eu com olhos e eco de morcego exigia dias mais longos, porque não queria que os sonhos tivessem que obedecer a uma métrica de vida sóbria. Do lado de fora, as borboletas noturnas desciam da sua morada lunar e passavam à altura dos meus olhos e algumas aí ficaram para sempre para que os meus olhos também pudessem ser mais leves que o ar. As memórias ora são papagaios coloridos ora são corvos a debicar os dias que somos, é por isso que os mais hábeis de nós os enganam dando-lhes a memória das árvores em sementes. Das muitas viagens que nunca fiz guardo uma grande saudade, mas sei com absoluta certeza que o ford cortina bege ainda por aqui há de passar para me devolver o mundo e as palavras que não incomodam o silêncio. 

terça-feira, março 31, 2015

de areia e dos castelos

Já corri tanta praia à procura do único grão de areia que me falta e vou ter que continuar porque sem ele este castelo de tanto de tudo não se segura. Arquitetarei lugares efémeros para receber a noite com seu corcéis de sangue, enquanto os estábulos que mandei fazer em vime entrelaçado não vierem das margens de qualquer desassossegado rio. Há uma batalha à espera que alguém tenha uma vontade de morte, mas talvez a morte se canse de esperar e se faça coisa natural e suave como os fins de dia de junho quando amorna o vento e as aves são exclamações em voo dolente. Aqui deste lado, à sombra do castelo quase perfeito, vejo o mundo todo e paro sempre o olhar à tua porta grená. Esse vinho na cor embebeda-me e por isso toda a outra viagem que me obrigo a fazer é de uma violenta lucidez. Cruzo-me com raparigas magníficas de tão breves e descubro que há um pintor renascentista a desfazer-se dos amores porque lhe faltam as telas e o tempo. Os gritos das cores compõem a geometria rigorosa dos campos e o moleiro recolhe as velas porque apenas quer o assobio do vento para recitar a noite. Quando forem três horas o luar e o voo da coruja virão do mesmo lado do horizonte e um fio de frio beijar-te-á os ossos só para que saibas que estás vivo. Sobressaltos são abertos pela manhã e o dia é um limão gotejando na boca e ainda que beijes toda a água do mar e barcos de ampla vela ondeiem teus lábios só a mulher que amas saberá neutralizar a acidez do destino que não existe. Olho este relógio de dizer horas, porque não tenho os olhos dos gatos para ver as horas – como fazem os chineses -, e percebo que é quase silêncio certo neste mostrador inox que foi prenda de uma quarta classe de reis, rios, caminhos-de-ferro e alguns adjetivos superlativos. Entretanto no rendilhado da costa e no corpo oceânico o mar trabalha para que o meu castelo se cumpra. Somos mais líquidos do que sólidos e ainda assim não nos cresceram escamas em nove meses de amnióticas navegações.

sexta-feira, março 27, 2015

Meio dia absurdo ou a morte do poeta

Por entre sinos, buzinas e cornetas sem luz nem lustro o dia acabou por surgir mais curto que os outros, mas igualmente sinistro e decisivo. Amélia tinha uns pequenos laçarotes, em tom rosado ou vermelho demasiado gasto, que usava só em pensamento. Habilidade muito difundida esta de usar coisas em forma pensada. Falo de mim próprio, quando me vejo nas margens e sem fôlego para atravessar para o lado da sombra,  quando isso acontece, imagino uma árvore com uma copa saia rodada, com cigarras em dose reduzida, frutos já colhidos, e posso assim continuar num sol de 42º até haver escadas de água branca e casas de cal luminosa. Tenho mais dificuldade com as palavras do que com os lugares e, por mais que fechem as janelas e roubem os marcos geodésicos, perco-me com muito maior frequência no significado do que nas encruzilhadas por onde navego. Não preciso de relógios, bússolas e de nada me servem as estrelas porque as confundo todas numa imensa orgia de cor e de noite não vejo aqueles galos que nos telhados confidenciam para onde sopra o vento. A vida é como os chocolates é o que eu sei cada vez melhor. Os amargos são os mais saudáveis mas poucos os querem para despedir os dias. Coisas absurdas atrás de coisas absurdas acontecem se nos damos ao trabalho de estar atentos, e é talvez nestas alturas que homens de coração robusto, trabalhado em granito, descobrem que a mariquice das lágrimas liga bem com uma mini fresquinha, porque só choram quando o gás os engasga. Abro uma gaveta quando me quero aventurar num mundo novo. Debaixo da folha de papel com malmequeres miniatura que lhe forra o fundo há sempre uma carta, um postal, uma certidão de ter morrido, casado ou nascido. Em pequeno cheguei a pensar que já as vendiam assim, que só lhes acrescentavam as bolas de naftalina e o ruído da madeira seca a aninhar-se na escuridão da cômoda. Sei agora que são lugares onde se guardam os sedimentos dos dias vividos. Há um pouco de cada um de nós espalhado pelo fundo das gavetas, e hesito em chamar-lhes berço ou esquife apenas porque não sei para que lado se inclina a memória. Gostava de pensar a cores, mesmo nos dias sinistros e decisivos, porque assim podia escorregar no arco-íris sem precisar de uma licença de infância ou ter que pedir um poeta emprestado à morte. 

sábado, dezembro 27, 2014

borboletas em vez de coelhos

De tão longe chegam os rumores que ainda os não traduzi
Mas sei que são poucas as palavras que valham a pena repetir
Não houve tempo para puxar o lustro das paredes e fazer janelas
Nem quem quisesse esse trabalho por dois dedos de conversa
E tu sem vires por mais que eu olhasse a estrada antes de curvar
Temi que chegassem primeiro as estrelas e o uivo dos cães
Nada me comove mais que um luar adornado de cães ao longe
Em pequeno esse uivo era mais inteiro e dava-o aos lobos
Tinha uma janela especial por onde via se chegavas e onde surpreendia os lobos
Hoje não sei o que foi feito dessa janela nem dos lobos cinzentos
Ficou-me uma memória quase tão insegura como a água sem margens
E não sei ao certo se lastimo ou apenas digo o que aconteceu sem inventar
Continuas a não chegar apesar da espera inquieta
E tu sabes como eu me inquieto com as cores, os sons altos e as margaridas de maio
Saberás agora que tu não estares e deveres estar também me inquieta
É verdade, quando crescemos outras coisas se somam às que nos inquietam
Se chove demais ou o estio é prolongado ou a senhora de cima morreu sem avisar
Tudo isso começa a inquietar-nos e a criar modelações nos dias de calmaria
Tu sabes, tu conheces-me, para não ter que descrever tudo ao pormenor
Sabes quando eu adormeço porque não quero que a conversa se prolongue
Sabes das minhas técnicas de ilusão e sabes como a magia é um dos meus refúgios
Sendo mais barato faço aparecer borboletas em vez de coelhos
E se alguém tem de desaparecer geralmente sou eu que me presto a tal serviço
Tu ficas para ouvir os aplausos e nunca me contas das pateadas e dos assobios
E foi assim que descobri como se fazem filtros com o amor
Preocupa-me que ainda não tenhas chegado a esta cadeira que fiz para ti
E logo te havias de atrasar no dia em que te queria surpreender
Que estranho é essa coincidência ser no preciso dia em que te ia falar ao ouvido
Não queria que ninguém soubesse que coisas te digo quando te separo do universo.

segunda-feira, outubro 27, 2014

a bailarina

Para que se saiba, ou para que apenas fique registado, independentemente de se vir a saber ou de, sequer, interessar a alguém, vou contar a história da bailarina que caiu em desgraça e acabou a dançar ao sol e para outras estrelas de menor importância.                                                   
Não muito longe no tempo, mesmo sem saber se é ele que passa ou se somos nós que passamos e, deste modo, fazemos o tempo, uma jovem de tamanha leveza, que inúmeras vezes se confundiu com uma ave, vivia no auge de toda sua magnificência, abundava a força, a vitalidade, a beleza, o arrojo, o desprendimento por tudo o que fosse além do fruir o imediato. Esta rapariga, passado que foi o tempo próprio de o ser, logo depois mulher, tinha tudo de que é feito a riqueza, mesmo aquela riqueza que se vê no que se possui por mero capricho ou ostentação, coisas pequenas a que nenhum ser humano escapa, por mais perfeita e bem acabada que seja a obra... Ora, alguém assim, imagina-se imortal em demasiados momentos para ser verdade, mas dificilmente aceita que isso seja miragem, ou coisa impossível de mais para ser parte da realidade. E, quando essa sensação de imortalidade se apossa de alguém, a única modalidade de acontecimentos que a trará de novo ao reino dos simples mortais é aquela que fala das grandes desgraças, das hecatombes que fazem eco e permanecem arrastando-se por muito tempo.

Todos os palcos se renderam ao seu encanto, à magia com que riscava figuras no espaço, figuras que passariam a viver para sempre na memória dos que felizes a viam nesses momentos fugazes de que se faz a eternidade. Teve amantes demorados e de corpo inteiro e outros que no instante seguinte fugiram para não cair no abismo da perdição. Teve promessas de enlouquecer só por uma única dança e dançou algumas para satisfazer a sua perfídia e outras para desgraçar propositadamente a sua pífia educação católica. Teve a aura do sucesso que lhe abriu as portas mais difíceis e a guindou aos concorridos lugares da fama. Teve dias sem calendário e noites longas de mais para caberem em palavras.

Os seus movimentos eram graciosos por natureza e, por isso, pouco esforço dedicava ao treino do corpo. Tudo em si fluía como se só assim pudesse ser. Todos os outros camaradas de companhia sofriam as agruras das longas horas a tentar domar o corpo e a suportar a dor de exigir de um humano tarefas sobre-humanas. A inveja mascarava-se nos curtos sorrisos e na raiva interior. Ninguém consegue perceber porque o destino escolhe sempre os outros para brilhar e nos reserva uma tíbia luz que nem nas trevas mais pesadas alumia rosto inteiro.

Mas o deslumbramento!… Muitos nos esquecemos daquilo que o deslumbramento é capaz de trazer e já muito longe e alto na queda vai Ícaro para ainda haver memória bastante; e Narciso também já demasiadas vezes viu o inverno destruir-lhe o esplendor e a beleza, que a primavera paciente recompõe uma e outra vez, para que ainda haja quem recorde a sua insana sina. Se a nossa bailarina apenas suspeitasse que arrastamos, da mesma forma que os cometas o fazem com a cauda, todo e cada gesto, toda e cada decisão, todo e cada instante de estarmos vivos – porque é esse o preço de estar vivo! – talvez desenhasse ainda passos noutros palco e percorresse outras inflexões musicais… Mas, se assim fosse, ou tivesse sido, nunca eu a teria visto bailar como as aves do paraíso num cais que é o palco do Tejo, e isso seria desequilibrar o universo das memórias que contam.

A perdição ou a salvação de uma vida, que é única e vivida sem mestre nem livro de instruções ou possibilidade de apagar e reescrever, chega de muitas e variadas formas e talvez apenas o poeta e a bailarina tenham percebido o que nela verdadeiramente se joga, e só eles possam afirmar de forma absolutamente autêntica: «Mais qu’importe l’éternité de la damnation à qui a trouvé dans une seconde l’infini de la jouissance?»

quinta-feira, janeiro 23, 2014

o fotógrafo


O olhar felino deve-o ter herdado, muito provavelmente, de um parente longínquo de África. Do alto da sua mediana estatura perscruta o horizonte da grande praça, como faria na savana sobre a alta erva ondulante ao fim da tarde. Chega a rodar sobre um só pé, como bailarino experimentado, sem perder o equilíbrio, abandonar o ritmo, perder a melodia, ou esquecer o tema de fundo, para percorrer, com inegável souplesse, sem falhas, todos os pontos cardeais.

Armado de inofensivo instrumento de captura, avança sobre as indefesas presas. Várias são as vezes que arremete sem sucesso, mas, ocasionalmente, é vê-lo triunfante, fazendo o “v” de vitória, com um amplo sorriso aberto no rosto, enquanto contabiliza “mais uma” na coluna do haver. Frente a frente, olhando a presa surpreendida nos olhos, amolecendo-lhe as defesas, negoceia no meio da praça o seu mundo todo.

Imagino, ao longe, a conversa numa das muitas línguas possíveis. De residente antigo do burgo, transmutar-se-á, num ápice, em mais um dos que aqui aportam em deslumbrado périplo turístico. A cidade velha apaixona qualquer um, logo a comunhão de espíritos apaixonados pelo lugar é conseguida sem particular habilidade ou verve sedutora. Já o conseguir arrastar essa paixão para outros temas, outros lugares, outros tempos, é a verdadeira prova de fogo, o verdadeiro e derradeiro desafio. Muitos e muitos são os fracassos e, por isso, mais saborosas são as esporádicas vitórias. Cada vitória retempera o ânimo, aconchega o amor-próprio e alimenta as futuras investidas.

Conheço-lhe o ar triste das longas esperas em vão e o ar de festa quando, recolhendo pacientemente a linha, vê que o anzol está seguro e que é apenas uma questão de tempo para ter as escamas cintilantes ao alcance da mão. Seriam cómicas se não fossem trágicas as suas corridas de costa a costa, de sereia a sereia, de presa a presa.

Do engenho e da arte muito tenho ouvido falar, mas não há nada que supere a arte em ato. Acredito que este jovem artista tem uma parede em casa onde coloca os troféus. Dispostos segundo a beleza, talvez a maciez da pele, porventura o grau de loucura ou, talvez, da mais para a menos ingénua.

Porque é necessário manter viva a descoberta a cada dia, porque é necessário desbravar um novo corpo para revisitar o que há de mulher em cada mulher, cada fotografia inicia e finda uma história e esgota toda a luz e sombra possível. Imagino que nesses dias em que a fotografia lhe franqueou o que há de ternura na pele que se desconhece, ele possuído por um alucinado e incendiado lirismo lhes grite ao ouvido: "amar-te-ei eternamente até amanhã de manhã, porque de tarde sou fotógrafo…"

sexta-feira, dezembro 27, 2013

que horas são fora dos dias?

A imaginação, com cores ainda sem nome, desceu pelas margens, roçou os pulsos das árvores aquáticas e levantou voo rumo à primeira nuvem no azul escarlate de um falcão peregrino. Os peixes de relance nadaram o futuro nos répteis que se aquecem no inferno.
É quase noite, nestas oito horas da manhã, tarde demais para que a mulher de vidro, com filigrana esbelta na cintura, possa beber o orvalho. A embriaguez vai ter que esperar por lábios pontuais, enquanto um casulo tece a malha dos dias e nas folhas de outono um rapaz desenha o universo num só sopro.
São raras as camélias nos chapéus, raríssimas as máquinas de costurar sonhos e não existem, de todo, deuses sóbrios de sobra. Há quem nunca adormeça com receio de acordar outro, de não saber colar peça a peça, no exato lugar, o primeiro beijo e o relâmpago que prenuncia o alfabeto do desejo.
Um cavalo galopa a tua imaginação e és a estepe, uma ave debica o teu olhar inquieto e és a linha do horizonte, uma boca de dizer abocanha o teu pescoço breve e és o acordar ao lado de quem amas. Mas também podes ser nada porque tudo te maça e porque a vida é demasiado longa para quem tem o relógio sempre atrasado. 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

"Em caso de dor, dance."


E o que fazer se, ainda assim, a dor persistir ou se se agudizar? Talvez dançar de forma mais inteira, entregar-se nos braços dos ventos de levar para longe, deixar que os pés lavrem o palco, o pátio, o quarto esconso e com o cheiro a noites de tanta gente. Dançar no auge do inverno e entre as mãos e os dedos curvos, curvos como as velhas âncoras que seguram o barco de sempre a sempre, arranjar lugar para lançar sementes da tua voz balsâmica e do teu corpo opiáceo. Não se inventou, ainda, melhor forma de apaziguar a dor.
Depois, em segredo, dir-te-ei que há um universo de multifacetadas dores. Da mais fina, do florete a beijar a pele, à mais insidiosa, que é a lâmina traiçoeira da perda antes do tempo próprio. Para todas há um passo de dança. Do tango à rumba, passando pelo valsa, o alívio é súbito e avassalador como uma alvorada tropical.

E quando, quase em êxtase, o teu corpo renascer como o eterno tambor das noites africanas, nenhuma dor ousará sequer visitar-te quanto mais morar-te. Dançarás, então, à lua para a encher de crescente inveja e queimarás a última dor nessa fogueira das altas estrelas que dão brilho aos teus olhos.

terça-feira, setembro 24, 2013

A António Ramos Rosa

                                                                                                   abril, 2011

Ao António,

quase um sussurro, uma última palavra aberta, um olhar vagaroso fundeado na ria
as mãos de onde eclodem conjugações improváveis são ramos da grande árvore
o teu olhar meigo e fundo como todas as noites com estrelas
a cadência meticulosa do dizer o que há de música no fim dos dias
tudo era natural em ti como as paixões excessivas por um único verso.
ainda os poemas te hão de procurar por muito tempo no quarto virado ao sol
e virão os pássaros e o cheiro a relva e um relâmpago ver o que escreves
na mesa redonda de onde os poemas pendem como água para ávidos lábios
far-se-á amanhã silêncio e sem palavras também não nascerá uma mulher pelo rosto
outro dia dos dias que te hão de contar alguém te há de dizer como uma rosa
e uma e outra a cada nova floração te dirá ao vento ou ao ouvido de quem se ama
e tu pela derradeira vez “te illuminas d’immenso” e trocas a eternidade por um poema…

domingo, janeiro 20, 2013

ler a sina


Queria-me ler a sina, e eu quase fui tentado a pôr um pé no futuro e deixar o outro aqui enraizado neste instante. Sendo tudo tão incerto, porque não haveria ela de pertencer a um tempo adiante e vir de propósito para me ler a caligrafia do inevitável. Habituado a duvidar, olhei-a por cima do ombro e disse que já sabia tudo o que me esperava, porém, segui com a inquietude a crescer, como uma erva daninha, a cada passo somado. De facto, nada sabia e ela, no fundo daqueles olhos cândidos, podia guardar o segredo da textura dos meus dias a vir, ou o caminho de ser completo e feliz, ou a astúcia para contornar as etapas em que se perde sem remissão. Quem sabe se ela não guarda todas as vidas de memória e a revelação desse segredo se oferece como um presente no presente, mas apenas uma vez e como um desafio para os mais temerários. Quem sabe se em cada mão por mais gasta e ausente de ternura não se oferece o itinerário do futuro. Quem sabe se ela não me esperava ali desde sempre e a minha pressa em não acreditar me condenou ao que há de eterno no presente…

quarta-feira, janeiro 16, 2013

anilhagem


Com mãos absolutamente gentis homenageiam a fragilidade. Encantado permanece suspenso nessa encruzilhada de olhares, quem sabe, arriscando hipóteses sobre o futuro. Pouco tempo antes, habitando na sua extrema leveza, o limite era a força do seu minúsculo coração-motor, agora um destino de gente estranha cruza-se com as suas rotas por entre nuvens e azul infinito. Olhos habilitados a ver de cima não estão treinados para evitar armadilhas suaves, embora, ainda assim, armadilhas. É possível que durantes os próximos voos a autoestima esteja baixa e as asas mais trémulas do que era hábito, talvez evite os insetos que antes suculentos o faziam voar mais perto do solo, mais perto desse lugar que a memória registou como um inesperado e súbito aperto de asas. Com medo que os esquecesse marcaram-lhe o corpo. Apesar de tudo as mãos que o aninharam eram suaves e o sopro que lhe abriu as penas na direção da quilha era muito semelhante a uma brisa de verão. No final, de novo mais leve que o ar, só pôde concluir que há alguns humanos menos vorazes que os gatos…

quarta-feira, dezembro 19, 2012

elogio da memória

 
Para a memória é indiferente que o teu rosto se esconda para mudar. Para lá da sombra, do que de nuvens se pode esperar em dias de desencanto, os traços firmam-se no bronze indelével que há logo abaixo da pele, e é lá que a memória mora.

Os pequenos truques de cor não passam de invenções de luz, como esse cabelo que terá ascendido em demasia para tão intenso nevão, e não chegam para iludir os que de perto te reconhecem os passos, mesmo os mais suaves, mesmo os que não se chegam a consumar, mesmo o que de movimento há na mais absoluta quietude.

É quase um gracejo primaveril o olhar que lança uma âncora para impedir partir, ingénuo como um cortejo de personagens de névoa, manso como tudo o que se abstém de acontecer, frágil como o gelo que se faz teto na água de uma só noite.

Em tudo o que respira há um relógio que, embora retalhe o tempo, nada lhe retira nem acrescenta, como esses rios, mares e oceanos que correm no mesmo corpo e são sangue do mesmo sangue e se inventam correntes e marés e são apenas um líquido abraço sobre um dorso de mulher.

Revisito a memória como quem revê um velho amigo, e ela, como os verdadeiros amigos, porque me vive por dentro, persiste nas histórias em que parece ter vivido sozinha, talvez para incentivar o espanto e a admiração e acordar o que da imaginação sobreviveu aos invernos de diluviana realidade.

terça-feira, novembro 20, 2012

o bibliotecário


Todos nós sabemos que as aves de arribação têm uma bússola inserta que as conduz repetidas vezes ao mesmo lugar. Poucos saberemos, pelo contrário, que há humanos, quiçá biologicamente aparentados a essas aves, que gozam do mesmo comportamento: de tempos a tempos, quase com uma meticulosa certeza, voltam ao mesmo sítio.

É evidente que, para determinar com suficiente rigor tais frequências, necessário se torna adotar semelhantes comportamentos. Se de máquina fiel registadora não podemos fazer uso, só nos resta uma saída: aumentar o nível das coincidências e depreender, desse irrefutável facto, que se nós regressamos muitas vezes e o outro regressa muitas vezes, então assume-se como consequência necessária que também o outro tem um comportamento repetitivo.

Das razões da nossa rotina, das visitas sucessivas, do tempo que nesse lugar passamos, conseguimos, com relativa facilidade, dar conta e explicação convincente. E desses outros, desses que tanto ou mais do que nós ao mesmo lugar regressam vez atrás de vez, será que saberemos enunciar as razões? Temo que não.

É nesta altura da conjetura que a imaginação se impõe como um guia mais ou menos fiável, fiabilidade esta que dependerá do grau de dados objetivos que tome em consideração e que lhe sirvam de ponto de partida. Dalguns sabemos a suposta nacionalidade, a língua que falam, os conhecimentos que veiculam e o modo como se relacionam com outros naquele palco iluminado. Como sobrevivem? Que forma mais ou menos clara os mantém com capacidade para suprir as necessidades diárias? De onde vieram para onde vão? Quanto há de verdade no que dizem, no que dizem do que fizeram, ou no que fizeram do que dizem? São personagens enigmáticas que falando aparentemente de si nunca saberemos de quem falam.

Ocorreu-me hoje e com a evidência da intuição cartesiana: Lisboa é de tal maneira acolhedora que só podemos estar perante personagens que se cansaram dos romances e quiseram ser gente durante breves instantes roubados à eternidade da obra. É possível que, um dia destes, Paco volte ao romance de Ballester de onde saiu para ler o El país e sonhar ser basquetebolista; que o tunisino volte a ser uma personagem de Camus ou de Maluf, mesmo que não saiba quando a mãe morreu; que o negro cantando blues e gospels volte para o disco de onde tirou umas breves férias, cansado de tanta volta em torno de si mesmo; o encantador de gaivotas volte para a caneta de Sepúlveda, ainda com algumas migalhas de pão para espalhar pela mesa de trabalho e que a velhota que adormece nas escadas do cais, dias incontáveis, volte a ser a sereia que se apaixonou irremediavelmente por marinheiro de outro tempo e outras navegações.
Quando isso acontecer será tempo de arrumar as câmaras de vez e castigar com a irremissível solidão o bibliotecário do cais.

segunda-feira, outubro 01, 2012

reservado


Palavra por palavra e o caminho surge pelo nome das coisas como se a luz dos dias apenas iluminasse o que pode ser dito por um qualquer recado assim descobrimos a sonoridade  criadora e descansamos o olhar na língua inaugural todos somos crianças entregues à sorte do alfabeto entre alfa e ómega uma nota segura a compreensão do universo e as aves desafiando a gravidade não se entusiasmam nem regozijam de júbilo em tal evidência apenas nós senhores do sentido ou temporários guardiães do sentido percebemos a perfeição de gotas simétricas que de queda em queda fazem erguer a vida.