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quarta-feira, outubro 08, 2025
Do tempo antes do tempo
quarta-feira, dezembro 11, 2024
Haverá vida antes da morte?
Haverá
vida antes da morte? Pergunta o poeta romeno Dinu, amigo do António Lobo
Antunes. Embora a pergunta possa parecer
retórica para os que vivem tão atarefados em viver que não lhes sobra tempo
para pensar naquilo que a vida poderia ser, acredito que, para outros, talvez, esta seja uma questão de longe mais pertinente que aquela outra, com que nos
azucrinaram a vida e acicataram os medos: haverá vida depois da morte?
Lembro-me
que durante a adolescência entre cromos de futebolistas e pósteres de beldades
desnudas também colecionava frases. Frases que guardava numa longa lista e que,
de tempos a tempos, relia e sobre as quais me detinha para tentar perceber como
as podia usar para mudar o mundo, a começar pelo meu pequeno mundo. Ainda hoje,
e a adolescência já é pré-história há muito, me lembro de uma boa parte dessas
frases, e faço uso de algumas delas quando vem a propósito impressionar com uma
citação.
As
minhas fontes eram diversas, e nem sempre as mais recomendadas, sobretudo para
um futuro intelectual, sendo as seleções do Reader's Digest uma das
privilegiadas, uma vez que alguém na redação já se tinha apercebido do bom uso
que eu fazia das frases que ia selecionando e que colocava estrategicamente ao
longo da revista. Ainda assim, não
descurava uma frase sonora de um qualquer romance ou novela, cuja leitura me
ocupava tardes e noites de irrepetível prazer.
Desse
tempo, ainda me assalta um pequeno remorso, aliás já pressentido na altura. Como
é que alguém que já sabia que o seu lugar na barricada era do lado esquerdo lia
uma revista que, despudoradamente, intoxicava os leitores mais desatentos? Mas
onde é que eu ia, sem internet, ter uma melhor fonte de pensamentos profundos,
já descarnados e prontos a usar? Tentava não me deixar enganar. Quando chegava
a noite, apesar do medo do meu pai, lá tentava chegar no velho rádio de
válvulas, já na altura lento a aquecer, à rádio moscovo ou à rádio argel e
assim contrabalançar essa deriva reacionária.
A
partilha do saber é uma daquelas poucas coisas que, como é usual afirmar-se,
não empobrece quem dá mas enriquece quem recebe. E, de facto, não há muitas
coisas assim. As frases com o seu sentido polido, com o seu teor reduzido ao
essencial, com as suas ideias espantosas, produziam a quando da sua leitura
repetida a mesma emoção que a descoberta das reluzentes pepitas nos garimpeiros
de sonhos.
Haverá
vida antes da morte? Parece uma frase retirada do repertório da minha adolescência. A resposta está condicionada pela definição do conceito de
vida, na exigência que se coloca naquilo a que chamamos vida. Se restringirmos
a vida ao conceito biológico, isto é, cumprir as funções vitais, então tudo o
que está animado está vivo e há claramente vida antes da morte, mas se a
exigência aumentar, se viver for mais do que comer, beber, procriar, se, como
dizia Platão, aos homens não basta viver, é preciso viver bem, então a
dificuldade cresce exponencialmente. Porque, então, já não basta perguntar se
há vida antes da morte, mas se se viveu bem antes da morte. Se a resposta
biológica é relativamente fácil, a resposta filosófica abre ao abismo.
Viver
bem é viver uma vida virtuosa. Mas o que é a virtude? Viver bem é ter vencido
todos os desafios. Mas o que é um vencedor? E podíamos continuar com questões
atrás de questões e, ao invés de nos aproximarmos de uma resposta apaziguadora,
apenas conseguiríamos ampliar o nosso leque de dúvidas e inquietações. Mas eu
julgo entender a questão do poeta, eu julgo perceber o íntimo da questão, e que
não é uma questão tão inusitada como poderia parecer ao início. É, aliás, uma
das questões mais recorrentes e que todos colocamos quando nos apercebemos que
o fim está para breve. Terei eu vivido o que poderia ter vivido? Terá a minha
vida feito sentido? Terá valido a pena? A resposta pode ter o formato de
espinho, alfinete, cravo, cadafalso, ou jardim das delícias. Mas valerá a pena
fazer este balanço? Não será este balanço uma espécie de tortura anunciada, não
será esta retrospetiva espúria e masoquista? Ou será que esta resposta tem,
inevitavelmente, a marca do modo como se viveu. Assim, os que gozaram a vida, usufruíram
do tempo sem o achar pouco ou em demasia, não se consumiram em raiva de si e
dos outros, estes, na hora do balanço, eternizam-se nesse estado de paz e
quietude e nem uma queixa os há de lembrar, enquanto os outro, aqueles que se
consumiram em azedume, em procurar a perfeição que há dentro da perfeição, a
ganância que não cabe na maior riqueza, o maior amor para olhar de cima o
pequeno amor, para esses a eternidade chegará sempre cedo de mais e julgá-la-ão
um óbvio castigo e nunca uma recompensa.
Haverá
vida antes da morte? A melhor resposta, se não a única, é a daquele que vive inteiro e por inteiro, seja
lá o que isso for…
quarta-feira, julho 31, 2024
Do desassossego
Conheci alguns que eram dessa estirpe: tudo à sua volta era música e abraços de conforto amigo, e conseguiam estar fundeados longe de qualquer coisa terna ou um abraço, uma forma de olhar mais queimante ou incendiária. E resistiam. Os que resistem são mais interessantes ou apenas mais teimosos, não sei ao certo. Só sei que há uma panóplia de gente diferente, e não falo de rostos nem de almas, que é coisa mais misteriosa. Falo de respirações, de toque, de coisas simples como passarem por ti e soprarem-te ao de leve, como se não quisessem quebrar vidro frágil. Somos todos quebráveis de alguma maneira, e, por vezes, quando quebramos de forma a não haver selagem possível, só resta voltar a ser areia e ter esperança de que se há de voltar aos altos fornos e esperar sem desespero e esperar sem temer o dia que passa vertiginoso. Mais do que a vertigem, magoa a saudade, essa forma de derramar os olhos pela paisagem que não regressa, mesmo que a memória ainda seja forte e sadia. A verdade é que todos sofremos de saudade, senão de alguém, certamente de alguns dos nossos momentos. Depois, ainda há os que têm, poeticamente, saudade do futuro e, por isso, acordam com uma tremenda rapidez, por vezes antes mesmo de haver dia ou outra forma de luz. E, por isso, é vê-los deambulando pelas ruas, perdidos na imensidão de um corte com o sentido. E nada há de mais patético do que vaguear esperando encontrar aquilo que se perde para não encontrar. Todos sabemos quando perdemos o sentido das coisas, o sentido da vida, o sentido contra o absurdo que é tudo ter que fazer sentido, como essa espiral abre ao abismo dos passos em volta, e aí nada se encontra, por muito perspicaz que seja a forma de captar a luz.
São as histórias que nunca contei que me incomodam mais, porque não partilhar é a pior forma de estar cheio, porque não é de vento nem de maresia, é de coisas intensas, coisas que fazem mesmo ferida de forma particular, daquelas que nunca saram ou, quando saram, deixam uma profunda cicatriz que arrasta o riso e chega a pressentir o fim que acontece quando se julgava que o tempo havia de fazer maior os dias que desejámos e, sem remissão, fechar a concha do desassossego.
segunda-feira, março 18, 2024
segunda-feira, janeiro 22, 2024
Da geometria da vida
Algumas palavras são redondas por tantas vezes rolarem demoradamente na língua e de tão usadas são as mais amigas, as que mais confortam, as que mais afeiçoam o ouvido aos ruídos do mundo. A memória aloja o nosso nome dito e redito por quem amámos e ainda amamos, mesmo que o tempo os desaloje das nossas vidas e do toque grato das nossas mãos, mas, enquanto houver marcas do passado gravadas na intensidade e na partilha dos lugares de afeto, nada se esvanece por completo. Apercebo-me com maior agudeza que o círculo é a geometria das nossas vidas, o tempo do fim torna nítido o tempo do início e nesta viagem de uma íntima e doce saudade o presente é intemporal. A cada nova viagem surge a descoberta, o detalhe, o pormenor daquilo que passou por nós e da indiferença de então emerge a sombra iluminada do que foi importante apesar de ignorado. Do que nos esculpiu com talhe fino e paciente só muito depois, já o cinzel perdido e o escultor confundido com tudo o que no mármore ficou dito e por dizer, só então, percebemos que a rudeza das arestas que ainda ferem são testemunho do trabalho que em seu tempo ficou por fazer. Infelizmente, só no ocaso dos dias Calíope nos inspira e o que foi dúctil é agora um imenso desafio para que da solidez da estátua de braços caídos se possa ainda cinzelar o abraço que ficou por dar.
sexta-feira, janeiro 19, 2024
A imaginação é uma casa frondosa
A imaginação é uma casa frondosa,
nos dias em que os ventos adornam
as portadas de silêncio azul.
Na parte esconsa do sótão dançam os fantasmas,
e o soalho range com saudade
da seiva que em tempos o inebriava.
Cada memória é um degrau carcomido
quanto mais se desce.
E na cave dormente mora a criança,
o frágil navio sem astrolábio
que lhe diga onde colocar as estrelas,
por isso se alimenta só de lua
e marés grandes para desencalhar o medo.
Na sala de estar o piano forte
de semibreve tornou-se eterno,
e bem no centro o cavalo de baloiço
agita-se na Cavalleria Rusticana
que já só ele ouve.
As paredes brancas, tela de entretecer os sonhos,
estremecem ainda pela soma dos muitos passos.
Já voaram tantas telhas, julgando-se aves em liberdade,
e em alguns dias de chuva oblíqua
a imaginação em alterosas vagas
é um rio de completo desassossego
e eu, a ponte, olhando de muito acima,
vendo como são frágeis
estes pilares em que me sustento.
sábado, setembro 30, 2023
Dias breves
Depois vem o cansaço, os dias breves de que não fica memória nem substância, tudo se conjuga para que os balanços aconselhem a mudar de ramo, de rumo ou inventar forma de ludibriar o futuro esperado. Algo de novo e a chama que adormeceu para lume brando, alteia de novo a vontade de aquecer lugares recônditos que já nos esquecêramos de chamar nossos, mas são tão escassos, tão difíceis de arquitetar que, na maioria das vezes, nem sequer arriscamos tentar. O tédio é a pintura dos dias, é o lado sombrio da vigília e a moldura frágil e carcomida dos sonhos. Talvez nem sequer saibamos como animar os sonhos mais pequenos, onde nem com a ousadia nos medimos, apenas com o cumprir o registo comum e habitual de nos mantermos vivos. Admiro de verdade os que sabem sorrir de dentro para fora, os que não procuram a fórmula mágica de ser feliz, porque a inventam, reinventam e usam enquanto inspiram a plenos pulmões as manhãs sempre promissoras. Estas estranhas personagens, por vezes, partilham uma nesga luminosa dos lugares onde colocam faróis e marcas florescentes para convidar os deserdados de si próprios, mas o medo, a vertigem, o risco de arriscar, é um muro intransponível para quem teme o caminho aberto e a perdição cruzando o horizonte.
Um
dia, quando a brisa perfumada me adocicar os lábios, imaginarei os beijos
adolescentes como o zénite de ter valido a pena estar vivo. Terei, nessa
altura, oportunidade de escolher, como quem escolhe numa carta de iguarias, o
que foi que alimentou os dias demasiado curtos, porque o gáudio e o prazer
supremo cumpriram o tempo, e obrigarei, com a gentileza possível, a memória a
povoar-me das vezes em que conquistei território inóspito e aí plantei a vida
no seu lado melhor. De pouco serve o desespero e a amargura, apenas se trata, quando nelas navegamos, de abrir feridas e condimentá-las com o sal que
melhor nos serviria para impedir que se somem dias e dias de insonsa pequenez
dos desejos. Tudo se resume à escolha, à liberdade que nos condena, entre ousar
ser caminho pelos próprios passos ou ficar amarrado a uma âncora que, com o
peso de todos os fantasmas, nos imobiliza frente ao adamastor que oculta a
vontade e qualquer alvor possível.
Perpetuidade
Abrupto foi o modo como o sol se escondeu por detrás dos teus coríntios ombros, e tu, sem pestanejar, acenaste numa pose diversas vezes ensaiada, mas que resulta sempre de forma convincente. Algumas nuvens na linha do horizonte tingiram-se de umas quantas e inomináveis cores. Os teus olhos, espelho para ambos os lados, ficaram ainda mais fundos que habitualmente. Algumas estrelas aquáticas fugiam para um universo paralelo. Pelo silêncio que se adensava instalava-se uma calma doce e um tempo fora dos relógios e dos calendários mais subtis. Nenhuma ave noturna, nenhum inseto a lembrar a efemeridade, nem um réptil lunar, apenas o vazio absoluto e a tua voz ausente em um fundo de mundo.
Amanhã,
que eu não sei quando será, as árvores sairão das raízes como quem ergue os
braços numa prece nunca atendida e depois de amanhã, que será após um amanhã
incerto, nada se repetirá em honra a Heraclito ou, talvez, a tua pele, onde a
história apenas regista aquilo que merece ser eleito como memória, recue no tempo e
regresse à adolescência dos cheiros magníficos e das tardes de superlativa
paixão. Imagino-te em mármore e eu Miguel Ângelo e havíamos de ser excessivos
um para o outro, sem medida humana, sem final anunciado, apenas dávida e
entrega sem medo nem reserva para iludir o tempo, para ludibriar a morte.
domingo, julho 11, 2021
Ao Renato
«Retorno
Fechado o
círculo
Eis o encontro
Com o sentido
Contrário
Eu mesmo
Comigo defronte
Mas depressa
A pressa da
fuga
É o confronto
Liberto
A face do verso
E do anverso
Recomeço
A minha medida
O que meço»
Renato Monteiro
Se dizer a
tristeza fosse forma de a amenizar eu regressaria de imediato ao tempo das
repetições infindas sem que isso fosse castigo, mas não há regresso, não há
prestidigitação que sirva para enganar a ausência. É nestas alturas que invejo
os que acreditam numa qualquer forma de reencontro, num breve interregno que a
seu tempo permitirá reatar o que ficou incompleto, mas esta inveja é coisa de
sentir, porque pela razão, ainda assim, continuo do lado do universo
irrepetível, desencontrado e absurdo.
Estou cheio
dessa ideia apaziguadora do enquanto houver memória, estou cheio desse bálsamo
barato de que fica sempre o passado, estou cheio desses paliativos contrafeitos
para amenizar a perda, é o futuro a cumprir que fere pelo vazio, pelo silêncio,
pelo intocável e tudo isto é irremediável quando o tempo deixa de acolher no
mesmo ciclo os que caminhavam juntos.
Calcorreámos
estradas, resgatámos veredas, navegámos rios e margens, e discutimos o nome das
árvores que nelas escondiam as garças e as cegonhas retardatárias. E visitámos
conversas que duraram uma cerveja ou uma borba sem fim anunciado e que entravam pelas
noites dentro antecipando o luar absoluto.
A quem vou eu
agora pedir conselhos sobre os cinzas que das fotografias se precipitam para a
vida? A quem vou eu agora pedir que recite de memória e de forma ímpar os
poetas que me ensinaste a amar? A quem vou eu agora pedir que partilhe as
histórias de pirilampos, de angariador de paixões pelo deserto, ou de tudo o
que é ao Sul tirando a Ribeira e a beleza das coisas simples? A quem vou eu agora pedir que de áfrica
relembre os cheiros do capim e das cubatas e a metamorfose dos rapazes que a
guerra tornou homens? A quem vou eu agora pedir que sem rumo se faça à estrada
porque me ensinaste que viajar é o único alimento das almas inquietas?
Não sei que
deuses deva insultar se acaso algum existe, não sei que relógios deva destruir
quando me dizem que chegou a tua hora, não sei como me insurgir contra este
inclemente e inexorável ciclo do carbono, não sei contra o quê ou quem deva
dirigir a minha insanável e descomunal revolta de te ter deixado ir tão cedo e
tão breve, querido amigo.
terça-feira, setembro 22, 2020
Ao Diogo
quarta-feira, maio 06, 2020
das estevas
sábado, maio 02, 2020
memória de adriano
sexta-feira, fevereiro 01, 2019
A senhora x
A senhora x
levantou-se, ouvindo o mesmo relógio dos outros dias. Apesar de ser sábado era
como se um ritmo antigo, um misto de relógio de sol, estrelas e lua, demasiado
antigo para ser alterado lhe falasse ao ouvido dizendo que era tempo de retomar
o movimento do corpo. As molas do colchão, com a memória de antigas batalhas,
ecoaram nas paredes, resvalaram no terço de cortiça e abafaram-se no cortinado
desbotado. Tacteou as pantufas, meteu os ombros dentro do robe e abriu a porta
da cozinha. O malhado, companheiro felino, ronronou mas não desviou os olhos
abertos sobre o parapeito que esperavam o sol. Aqueceu o resto do café com
leite da véspera e antes de pôr a dentadura amoleceu o pedaço de pão para
enganar a fome. As janelas do prédio em frente estavam ainda tomadas pela
sombra, a roupa nos estendais fazia lembrar um desfile de veleiros engalanados.
Nos vidros escorriam gotas de orvalho que daí a pouco o calor do sol haveria de
lamber. A casa estava fria. De forma mais precisa: silenciosa e fria, como se uma
qualidade não pudesse existir sem a outra. A casa de banho estava, havia muito,
a pedir umas pinceladas para esconder o caruncho recorrente. A torneira jorrou
água fria em abundância e a concha das mãos levou-a aos olhos. A saia azul escura,
já fora mais escura, agora ganhava um luzido herdado do uso repetido. As meias
de vidro cobriam-lhe as varizes e faziam sobressair o vinco dos ossos. O
soutien apertava-lhe o peito e a alma e simulavam uma orografia há muito
perdida. A escova do cabelo descia repetidamente até aos ombros, numa espécie
de ritmo encantatório. Brancos e cada vez menos eram os cabelos que via no
espelho e estes enquadravam as rugas que não só a idade mas o trabalho e o
sofrimento tinham esculpido impiedosamente. Doeram-lhe os pés quando tentou
enganá-los com os sapatos que a dona Teresa lhe havia dado. Mas eram uns
sapatos bonitos, com dois botões de cada lado e com o espaço para os joanetes
já moldado. Talvez a cor creme não ficasse muito bem com a mala verde que
comprara nos chineses, mas não se podia dar ao luxo de recusar oferendas. Até
porque a dona Teresa lhe dissera que aqueles sapatos tinham custado uma fortuna
há cinco anos atrás. E a cavalo dado não se olha o dente, sobretudo se não vier
descalço. Desceu as escadas e entrou na rua. Eram poucas as pessoas que
arriscavam começar a viver tão cedo ao sábado e os que o faziam era quase todos
seus conhecidos. O Francisco, o leiteiro, a Mariana que fazia a limpeza no
teatro Morgado, a D. Iria que vinha passear os dois cachorros e mais uns quantos
sem rosto, porque não lhes sabia o nome. Caminhou do lado esquerdo da rua,
evitando os carros que escondiam o passeio, contornou o miradouro da penitência
e entreviu os telhados das casas rompendo a neblina. Estavam duas pessoas na
paragem do eléctrico. A senhora Garcês, das poucas que antes de si já usavam
aquele eléctrico e que era pessoa de poucas falas, sobretudo desde que ficara
viúva, embora não recusasse e retribuísse a saudação matinal, e um senhor de
meia idade que nunca vira por aquelas bandas. Era um homem de bom porte, fato
de fazenda, mala de cabedal na mão direita, e um chapéu como aqueles que usavam
os gangsters. Fumava com os dois dedos da mão esquerda muito hirtos e lançava
grandes baforadas de fumo que subiam primeiro numa espiral certinha e logo que
era apanhado pelo vento se diluía quase que por magia. O eléctrico não demorou.
Sentou-se no banco da frente, logo atrás do guarda-freio e passado pouco tempo
já estava a cabecear. Ninguém lhe roubava pelo menos cinco minutos de sono no
eléctrico. Eram estes cinco minutos, achava ela, que lhe serviam para fazer as
pazes com a vida. Abriu as portas do prédio. Um prédio antigo com grandes
portadas e umas escadas de madeira quase tão gastas quanto íngremes. Sentiu a
respiração mais forte e o coração mais vigoroso na batida. Apoiou-se no
corrimão e continuou a subir até ao terceiro andar. Cheirava a mofo na escadas.
Talvez fosse da humidade que nos dias de mais chuva escorria da clarabóia para
as paredes e que alimentava assim lentamente a degradação dos degraus de
madeira mais que centenária. O escritório que todos dias limpava, à excepção de
domingo, era de uma empresa de transportes. O senhor Antunes, o patrão velho,
era uma pessoa austera mas simpática, já o filho, o doutor Rodrigo, era arrogante
e tratava todos os empregados pouco melhor que escravos. Ainda bem que ela
quase o não via. Também quando o via, mesmo que se cruzasse com ele, nunca foi
capaz de um simples bom dia ou boa tarde, era como se ela fosse transparente,
ou tão insignificante que nem de uma simples palavra de saudação fosse
merecedora. Chegou a rogar-lhe uma praga quando o ouviu despedir aos insultos o
Américo que já lá trabalhava há mais de dez anos. Não sabia contudo se a praga
se havia consumado ou não. Não tinha tido o prazer de o ver agarrado à barriga
a uivar como os cães por querer e não conseguir aliviar a natureza. Mas deus
não dorme, era o que sempre dizia. Este era o lema que aplicava sempre que
presenciava qualquer forma de injustiça. Embora muitas vezes fosse obrigada, de
forma pouco católica, a admitir que ele pode não dormir, mas lá que anda muito
distraído, lá isso anda e ninguém tem dúvidas. Limpou tudo com o cuidado
habitual e sentou-se cinco minutos a olhar pela janela enquanto recuperava o
fôlego. Fechou a porta à chave e desceu as escadas cada vez mais íngremes.
Começou a caminhar sem destino certo. Ninguém, a não ser o malhado, esperava
por ela, por isso podia-se dar ao luxo de caminhar e olhar as montras com o
detalhe de quem um dia talvez venha a comprar tudo que aí está exposto. Havia
agora mais gente na cidade, gente apressada, gente distraída, gente que já não
é gente, e até polícias. Do outro lado do largo viu o supermercado a abrir as
portas. Pensou no que precisava de comprar se tivesse dinheiro. Era, aliás, um
exercício repetido para não perder o conhecimento das coisas que é possível
comprar; fazia mesmo visitas a esses lugares, como se se tratasse de uma visita
de estudo. E foi isso que lhe apeteceu fazer nesse preciso momento. Atravessou
por entre os pombos que esticavam e encolhiam as asas como se as quisessem
treinar para voos mais altos, olhou a gente que já quase não é gente, que
dormia aos pés da estátua e contornou a carripana do almeida que varria pérolas
de pó, pois abanava a vassoura acima da cabeça. Entrou no supermercado. Longas
avenidas de cor. Tanta coisa a luzir pelos corredores. Percorreu demoradamente
com um cesto teimando em estar vazio as estantes onde outros gulosamente
retiravam o desejo e não a necessidade. Às vezes chegava a rir da gula dos que
por ali passeavam: um carro apinhado, às vezes mesmo dois carros, e não se
tratava de nenhum comandante a comprar comida para um batalhão. Eram pessoas
que se tratam da melancolia nas compras... O supermercado começava agora a
fervilhar de vida. Era a altura ideal para a sua visita favorita. Abeirou-se do
longo corrimão de cosméticos e como alguém com grande entendimento na matéria
olhou demoradamente o frasco, fingiu ler o rótulo, agitou para ver a limpidez e
a robustez da cor, e, enquanto um olhar lateral a protegia dos olhares avaros, aspergiu demoradamente o peito gasto e suado. Deu dois passos laterais e, com a
mesma sequência de gestos, aspergiu outro com a mesma veemência, um terceiro, possivelmente um quarto e talvez no fim tenha mesmo conseguido afogar
perfumadamente a solidão. Isso já não sei, porque aquilo que narrador viu, com
os olhos e não com a imaginação, foi a senhora x no supermercado numa manhã de
sábado, visitando um a um os perfumes expostos, tudo o resto é ficção, menos o
desejo que a alma lhe tenha ficado, mercê esse gesto, também ela mais aconchegada e perfumada.









