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terça-feira, setembro 24, 2013

A António Ramos Rosa

                                                                                                   abril, 2011

Ao António,

quase um sussurro, uma última palavra aberta, um olhar vagaroso fundeado na ria
as mãos de onde eclodem conjugações improváveis são ramos da grande árvore
o teu olhar meigo e fundo como todas as noites com estrelas
a cadência meticulosa do dizer o que há de música no fim dos dias
tudo era natural em ti como as paixões excessivas por um único verso.
ainda os poemas te hão de procurar por muito tempo no quarto virado ao sol
e virão os pássaros e o cheiro a relva e um relâmpago ver o que escreves
na mesa redonda de onde os poemas pendem como água para ávidos lábios
far-se-á amanhã silêncio e sem palavras também não nascerá uma mulher pelo rosto
outro dia dos dias que te hão de contar alguém te há de dizer como uma rosa
e uma e outra a cada nova floração te dirá ao vento ou ao ouvido de quem se ama
e tu pela derradeira vez “te illuminas d’immenso” e trocas a eternidade por um poema…

domingo, janeiro 20, 2013

ler a sina


Queria-me ler a sina, e eu quase fui tentado a pôr um pé no futuro e deixar o outro aqui enraizado neste instante. Sendo tudo tão incerto, porque não haveria ela de pertencer a um tempo adiante e vir de propósito para me ler a caligrafia do inevitável. Habituado a duvidar, olhei-a por cima do ombro e disse que já sabia tudo o que me esperava, porém, segui com a inquietude a crescer, como uma erva daninha, a cada passo somado. De facto, nada sabia e ela, no fundo daqueles olhos cândidos, podia guardar o segredo da textura dos meus dias a vir, ou o caminho de ser completo e feliz, ou a astúcia para contornar as etapas em que se perde sem remissão. Quem sabe se ela não guarda todas as vidas de memória e a revelação desse segredo se oferece como um presente no presente, mas apenas uma vez e como um desafio para os mais temerários. Quem sabe se em cada mão por mais gasta e ausente de ternura não se oferece o itinerário do futuro. Quem sabe se ela não me esperava ali desde sempre e a minha pressa em não acreditar me condenou ao que há de eterno no presente…

quarta-feira, janeiro 16, 2013

anilhagem


Com mãos absolutamente gentis homenageiam a fragilidade. Encantado permanece suspenso nessa encruzilhada de olhares, quem sabe, arriscando hipóteses sobre o futuro. Pouco tempo antes, habitando na sua extrema leveza, o limite era a força do seu minúsculo coração-motor, agora um destino de gente estranha cruza-se com as suas rotas por entre nuvens e azul infinito. Olhos habilitados a ver de cima não estão treinados para evitar armadilhas suaves, embora, ainda assim, armadilhas. É possível que durantes os próximos voos a autoestima esteja baixa e as asas mais trémulas do que era hábito, talvez evite os insetos que antes suculentos o faziam voar mais perto do solo, mais perto desse lugar que a memória registou como um inesperado e súbito aperto de asas. Com medo que os esquecesse marcaram-lhe o corpo. Apesar de tudo as mãos que o aninharam eram suaves e o sopro que lhe abriu as penas na direção da quilha era muito semelhante a uma brisa de verão. No final, de novo mais leve que o ar, só pôde concluir que há alguns humanos menos vorazes que os gatos…

quarta-feira, dezembro 19, 2012

elogio da memória

 
Para a memória é indiferente que o teu rosto se esconda para mudar. Para lá da sombra, do que de nuvens se pode esperar em dias de desencanto, os traços firmam-se no bronze indelével que há logo abaixo da pele, e é lá que a memória mora.

Os pequenos truques de cor não passam de invenções de luz, como esse cabelo que terá ascendido em demasia para tão intenso nevão, e não chegam para iludir os que de perto te reconhecem os passos, mesmo os mais suaves, mesmo os que não se chegam a consumar, mesmo o que de movimento há na mais absoluta quietude.

É quase um gracejo primaveril o olhar que lança uma âncora para impedir partir, ingénuo como um cortejo de personagens de névoa, manso como tudo o que se abstém de acontecer, frágil como o gelo que se faz teto na água de uma só noite.

Em tudo o que respira há um relógio que, embora retalhe o tempo, nada lhe retira nem acrescenta, como esses rios, mares e oceanos que correm no mesmo corpo e são sangue do mesmo sangue e se inventam correntes e marés e são apenas um líquido abraço sobre um dorso de mulher.

Revisito a memória como quem revê um velho amigo, e ela, como os verdadeiros amigos, porque me vive por dentro, persiste nas histórias em que parece ter vivido sozinha, talvez para incentivar o espanto e a admiração e acordar o que da imaginação sobreviveu aos invernos de diluviana realidade.

terça-feira, novembro 20, 2012

o bibliotecário


Todos nós sabemos que as aves de arribação têm uma bússola inserta que as conduz repetidas vezes ao mesmo lugar. Poucos saberemos, pelo contrário, que há humanos, quiçá biologicamente aparentados a essas aves, que gozam do mesmo comportamento: de tempos a tempos, quase com uma meticulosa certeza, voltam ao mesmo sítio.

É evidente que, para determinar com suficiente rigor tais frequências, necessário se torna adotar semelhantes comportamentos. Se de máquina fiel registadora não podemos fazer uso, só nos resta uma saída: aumentar o nível das coincidências e depreender, desse irrefutável facto, que se nós regressamos muitas vezes e o outro regressa muitas vezes, então assume-se como consequência necessária que também o outro tem um comportamento repetitivo.

Das razões da nossa rotina, das visitas sucessivas, do tempo que nesse lugar passamos, conseguimos, com relativa facilidade, dar conta e explicação convincente. E desses outros, desses que tanto ou mais do que nós ao mesmo lugar regressam vez atrás de vez, será que saberemos enunciar as razões? Temo que não.

É nesta altura da conjetura que a imaginação se impõe como um guia mais ou menos fiável, fiabilidade esta que dependerá do grau de dados objetivos que tome em consideração e que lhe sirvam de ponto de partida. Dalguns sabemos a suposta nacionalidade, a língua que falam, os conhecimentos que veiculam e o modo como se relacionam com outros naquele palco iluminado. Como sobrevivem? Que forma mais ou menos clara os mantém com capacidade para suprir as necessidades diárias? De onde vieram para onde vão? Quanto há de verdade no que dizem, no que dizem do que fizeram, ou no que fizeram do que dizem? São personagens enigmáticas que falando aparentemente de si nunca saberemos de quem falam.

Ocorreu-me hoje e com a evidência da intuição cartesiana: Lisboa é de tal maneira acolhedora que só podemos estar perante personagens que se cansaram dos romances e quiseram ser gente durante breves instantes roubados à eternidade da obra. É possível que, um dia destes, Paco volte ao romance de Ballester de onde saiu para ler o El país e sonhar ser basquetebolista; que o tunisino volte a ser uma personagem de Camus ou de Maluf, mesmo que não saiba quando a mãe morreu; que o negro cantando blues e gospels volte para o disco de onde tirou umas breves férias, cansado de tanta volta em torno de si mesmo; o encantador de gaivotas volte para a caneta de Sepúlveda, ainda com algumas migalhas de pão para espalhar pela mesa de trabalho e que a velhota que adormece nas escadas do cais, dias incontáveis, volte a ser a sereia que se apaixonou irremediavelmente por marinheiro de outro tempo e outras navegações.
Quando isso acontecer será tempo de arrumar as câmaras de vez e castigar com a irremissível solidão o bibliotecário do cais.

segunda-feira, outubro 01, 2012

reservado


Palavra por palavra e o caminho surge pelo nome das coisas como se a luz dos dias apenas iluminasse o que pode ser dito por um qualquer recado assim descobrimos a sonoridade  criadora e descansamos o olhar na língua inaugural todos somos crianças entregues à sorte do alfabeto entre alfa e ómega uma nota segura a compreensão do universo e as aves desafiando a gravidade não se entusiasmam nem regozijam de júbilo em tal evidência apenas nós senhores do sentido ou temporários guardiães do sentido percebemos a perfeição de gotas simétricas que de queda em queda fazem erguer a vida.

terça-feira, setembro 04, 2012

Avieiros II

No rio morre-se menos. Só esta vantagem já poderia justificar a mudança, mas também as terras mais próximas e acolhedoras deixam-se domar pela altura em que a fertilidade as impele a serem recetivas à semente.
Ao que soube quase todos, senão todos, os homens do rio foram, são, ou ainda hão de vir a ser homens divididos entre marés e sementeiras. A pobreza das águas não dava para sustentar todo o ano as bocas, vestir os corpos e habitar uma casa. Em tempos em que a necessidade era mais comum e ofensiva, a vergonha não deixava que este homens e mulheres vivessem noutros lugares e com outros diferentes da sua mesma sorte. Assim cresceram ao longo das margens, desse rio bilingue, aglomerados flutuantes de vidas, histórias que hoje só têm registo na memória dos que já não têm memória e nas ruínas das pequenas casas longe do chão como as cegonhas e dessas outras simulacros na proa das bateiras. Apodrecem em conjunto as casas, que o não foram verdadeiramente, e os barcos de um azul cada vez mais impercetível.
Ainda há quem adormeça ouvindo as pedras saltitando no virar das marés, ainda há quem sonhe com redes repletas de sável e uma festa de escamas reluzentes nas cestas e sobretudo nos olhos, ainda há quem cheire os ventos de tempestade e adormeça entre rezas para nunca se afogar numa cama e na velhice, porque uma morte feliz é quando a maré vira e a água deixa sulcos, como se fosse um arado, na areia das margens.
 

Avieiros I



Ao longo do Tejo, bordejando as águas, por entre salgueiros, choupos e alguns ulmeiros, vive gente que sabe de cor todas as cores de que ele é capaz, que tem um mapa absolutamente fiel das suas correntes mas que, acima de tudo, o respeita como se costuma respeitar o que nos alimenta e, por isso, nos mantém vivos.
Aos poucos, ouvindo as suas histórias, curtas de palavras porque não foram feitos para historiar mas para viver, comecei a entender como podem os irmãos só o serem porque filhos de um destino comum. Assim acontece com estes homens e mulheres que desceram ao sabor da corrente esperando encontrar uma praia, um meandro, um baixio onde fosse possível começar de raiz a viver.
Já se passaram algumas gerações, em certos casos, e noutros apenas uma medeia o passado e o presente. E porque o mar em mediana altercação é tão perigoso como um rio que engrossado tudo arrasta até à foz, muitas famílias deixaram a areia ou o pedregoso das falésias para virem na sombra do rio assentar ferro e entre a oscilação longa das marés reiniciar a vida.
Têm o corpo retorcido como se tudo neles fosse um reflexo do próprio rio rasgando curvas nas margens, descendo calmamente planícies ou pulando para fazer espuma nas fragas negras e velhas de mais para terem um tempo calendarizável.

quarta-feira, agosto 22, 2012

a nossa sorte...


Podia escrever sobre o mundo nos seus mais ínfimos pormenores: a queda da folha no seu outono próprio na bilionésima segunda árvore a contar do lado esquerdo do continente africano ali no coração do zaire, ou será que já não existe o zaire e esse grande pormenor ocultou-se aos meus olhos?... Podia falar do bicho-da-seda que resolveu tecer-se a si mesmo numa caixa de sapatos ténis baratos numa favela do rio e tem sonhos de borboleta várias vezes ao dia; podia falar de uma imprecisão no osso externo de um gibão fémea que lhe dificulta as acrobacias matinais ao redor da fruta doce e suculenta; podia falar do oitavo planeta que gravita uma estrela no coração de andrómeda onde corre ácido sulfúrico numa cascata fumegante e não há ninguém para adormecer à janela; podia falar de tanta coisa sem mérito nem significado mas temo despertar-vos para lugares sem luz artificial nem sofrimento, por isso falo-vos apenas do tempo incerto para amanhã à porta do vosso desespero…

segunda-feira, março 26, 2012

de um só dia




A música como uma insidiosa serpente enrosca-se na boca pequena,
nos violinos saídos do ventre magnífico das prostitutas
um poema é escrito para impedir que a noite possa fechar,
o cavalo das tuas coxas fulminantes salta todos os obstáculos
e a cor azul desbota dos teus olhos grandes para dizer a foz,
os rostos tocam-se numa bissectriz rente aos lábios
e quando tudo isso acontece, sem que o tempo o saiba,
eu danço com as palavras e morro no dia único das borboletas
porque tão efémero é aquilo que digo como aquilo que vivo.

terça-feira, março 06, 2012

dos deuses e do cómico


Entardece nas colinas de Lisboa. A verticalidade calcária da igreja impõe-se no rigor da sua branquidão a toda a cidade em redor. Corre uma aragem minuciosa e fria que fende a pele nos lugares expostos. A porta range nos gonzos e abre para um lugar divino a acreditar nos crentes.
Solicito, o moço guardião, pede-nos que tomemos um dos corredores laterais, uma vez que se está a realizar uma cerimónia litúrgica. Surpresos, porque os religiosos se não divisavam, dissemos ao que vínhamos: à imposição do novo manto ao senhor. A nave central franqueou-se-nos de imediato. Se vos move tão nobre objectivo, podeis dirigir-vos para a sala ao cimo das escadas.
A sala era pequena. Algumas das testemunhas não tinham conseguido lugar prioritário e amontoavam-se na porta franqueada. Movi-me estrategicamente e, junto de uma das ombreiras, serpenteei o olhar por meia sala, a parte que me foi permitido aceder do lugar em que me encontrava. Rostos compenetrados, com um profundo e temeroso respeito, deixando, na maior parte dos casos, ver as marcas do tempo, olhavam centripetamente um vulto no centro da sala. Podiam ouvir-se, se de ouvido atento fizéssemos uso, pequenas ladainhas de pesar. Algumas mãos retorciam-se de autêntica paixão.
No meio da sala, no coração de todos mas no meio físico e geometricamente definido da sala, um figura imponente permanecia passiva e pacientemente imóvel. Não obstante sobre si pendia, não a luz sapiente e omnipresente do pai, não o espírito santo em trabalho quotidiano, mas uma formidável e intimidante chave de fendas em trabalho de aturada e escrupulosa pontaria. Cada vez que a chave descia, como há dois mil anos atrás cada martelada no cravo, a multidão sentia um quase fatal aperto no miocárdio. A auréola do senhor, com a rosca provavelmente moída de tanta renovada imposição, teimava em não unir-se ao corpo do senhor. Do fundo do meu olhar sacrílego e lutando tenazmente entre o cómico respeito e respeito cómico, só me lembrei do poema de Augusto Gil: mas as "beatas", Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...
Abandonei o cerimonial com uma atinente dúvida metafísica: será que no fim, já noite dentro, lhe ministraram paracetamol para as dores causadas por tão satânico parafuso?

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Vivaldi


Vivaldi falou-me em cordas, e logo a mim que já não sei do pião… não chegámos a discutir porque nenhum som soou grave. Apenas um suavíssimo sussurro me trespassou a pele e esta tamborilou noite dentro entre um frio esquecimento e a memória de palcos de festa. Acordei entre acordes de arcos perfeitos e adormeci um dia inteiro na insaciável sombra da rotina. Saber que sem música a própria harmonia celeste desafinaria deixou-me confortado, um relojoeiro de sonhos em forma de roda dentada, um mágico de estrelas entre marés e um escorpião escarlate para me envenenar os pensamentos sombrios, povoaram o meu descanso e semearam tempo a meu lado. Vivaldi murmurou em dó sustenido uma história de dedos de alma irrequieta e eu sosseguei esperando pelo exato tempo da próxima estação.

segunda-feira, julho 11, 2011

do silêncio


O meu reino por uma palavra, o meu reino e a minha vida por duas, o meu reino a minha vida e toda a minha memória por um verso que me ajude a fechar os olhos sem temer a duração do sono. Há quem apanhe borboletas filtrando o vento, quem pesque peixes purpura que nunca existiram, quem conte histórias para alisar o caminho das palavras e chegue a beijá-las para que a ternura as ligue sem remissão umas às outras. Talvez nenhum dicionário contenha tantas palavras quantas o silêncio e por isso tantos o habitam demoradamente.

segunda-feira, novembro 22, 2010

a minha mãe

Sei-me na imagem da árvore a quem insensivelmente secaram o que restava da raiz. Sei que já não resistirei com o mesmo vigor aos inclementes vendavais que assolam a alma e alquebram o corpo. Sei que já por mim não velam nem esperam os mesmos braços e o terno colo onde aprendi a dormir em sossego. Sei que adormeceste e no sonho derradeiro moraram os que amaste acima de tudo. Sei que, enquanto houver memória, beijarei o teu rosto e ouvirei os teus sensatos conselhos todas os dias... Sei que uma mãe nunca morre, apenas se esconde para se alegrar a ver-nos voar sozinhos...

segunda-feira, julho 05, 2010

my friend


My friend sabe mais da pesca do que muitos alguma vez saberão acerca da vida. É um verdadeiro filósofo crestado pelo sol de uma Lisboa inclemente, não pelo calor, mas pelo desabrigo que dá a alguns dos seus… Pensa cada pormenor antes de escolher o fio, o tipo de empate, o anzol, a chumbada e a altura das marés.
Ele é que nem sempre está de maré, nem sempre peixe decente se deixa tentar pelo suculento anelídeo, e então só resta o refugo, a miséria que flutua. Nessas alturas, a água corre pardacenta, o vento é inelutavelmente frio, e as sombras descem as colinas para cobrirem o Tejo.
De longe, da babilónia dos desalojados da sorte, chegam-lhe os amigos para ouvir as argutas dissertações, para partilhar um não destino, para revender um Tejo tinto, para olhar e aprender as técnicas de parecer feliz. Mas tem filhos que se perderam entre a Ponta dos Corvos e a Baía do Seixal, ou noutro recanto espraiado do Tejo, numa maré de azar tudo foi ter ao mar do esquecimento. Antes assim, dirá num estoicismo inevitável, não preciso de ninguém nem quero que ninguém precise de mim.
A desgraça é maior quando o dinheiro investido não produz nenhum bem, quando as águas correm depressa de mais para que o peixe se deixe ficar por ali a olhar Lisboa, e por engano se deixa enganar. Nesses dias longos, de horas feitas de segundos sólidos como alfinetes a lavrar a pele, valem todas as vociferações contra deus e o diabo, contra os políticos sem vergonha e com vergonha, contra os amigos e os inimigos. É preciso dizer mal de alguma coisa, “dizer mal” é o remédio mais antigo para não se olhar para dentro.
No fim a estratégia de recurso, o kit de salvação, o grau zero do pescador: apanham-se as tainhas. Cegas e prenhas de merda. Mas se lhe esquecer a cabeça e as barrigas talvez engane o estômago, engane a dignidade, engane a corvina que lhe morou o sonho nessa noite e noutras noites todas iguais. Mas mais difíceis que os sonhos e as noites são os dias de obsidiante sobriedade em que tudo teima em ser tão nítido e quanto mais nítido mais obscenamente doloroso. As caravelas do absurdo já não partem: fundeiam no próprio Tejo!

quinta-feira, julho 01, 2010

do inverno e da saudade


Começou o inverno: a saudade é fria e chuvosa e dias há em que enregela a parte mais habitável da alma.
Teremos colhido nas palavras, ou suspeitado apenas, a sua seiva doce, a sua entoação reticulada, a música das vogais mudas, aquilo que elas nunca saberão dizer, porque só pode ser dito não se dizendo…
É estranho este caminho pelo passeio dos instantes quando abre para paisagens que já floriram antes de chegarmos. Que não aguardaram que o nosso sopro levasse o pólen, as sementes e o nome provável do que há-de germinar.
Não há quem fique a segurar o sorriso, como uma janela aberta, como um convite, como um fio de seda, como um cálice de memória, apenas a sombra do que nunca foi alimentado pelo Sol e nunca sentiu a vertigem de ser maior sem tamanho.
Ainda podia falar do cuidado, da fragilidade das asas das borboletas, do cristal que alguns olhos emitam, e do adormecer a contar os segundos fora das horas onde se acordam as pessoas doces de dizer. Mas quem arrisca, quem desce ao chão mesmo da raiz, à nascente para perceber a foz, ao silêncio para perceber a fecundidade da música, à dúvida para nunca mais acreditar nas certezas.
Creio que são os grilos que desafiando a noite me entram pela alma e por qualquer estranha e desconhecida harmonia me convidam a cantar às estrelas, talvez aproveite e cante também aos que apesar da usura do tempo nunca esquecerei…

domingo, março 14, 2010

mãe-mar


Estar com a mãe é outra forma de ver o mar: o regresso mudamente desejado às águas primordiais! Elas são de um azul variegado da ternura à cólera, numa mesma maré e muitas vezes numa mesma vaga, o barco é colo e logo de seguida um anzol que nos recolhe para dentro da memória que não nos deixam esquecer. A mãe é uma rede cuja malha teceremos envergonhando Minerva e a cada dia que subtraímos ao calendário a malha há-de apertar-nos cada vez mais até ao nó górdio da leveza decisiva.
Estar com a mãe é outra forma de ver o mar: as mãos peixes voadores e os cabelos sargaços que nos fertilizaram o sonho e o sono. Às vezes entram por o mar adentro porque anteciparam o nosso naufrágio, outras assistem do mais alto promontório à nossa bolina desajeitada. Transformam-se, quase sempre, em faróis e é então que mesmo na mais feroz tormenta uma luz ainda que ténue e distante sempre nos aponta o exacto caminho do regresso a casa.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Na exactidão do tempo


duas palavras para uma só voz e ainda assim o mercado que era aberto a sul e com oleados a fingir a garganta estreita dos peixes não fechou de imediato e a tua boca é uma praça bela como o paço que é terreiro ou o vento em arremetidas para que se acorde mais cedo e mais capaz para ouvir os cântaros a partir um instante antes de refrescar a água ficam as mãos para afastar os meios-dias para um dia inteiro
o mais é simples e quase vermelho como os poemas dentro dos morangos na exactidão do tempo.

sábado, novembro 21, 2009

Voo no olhar


É turvo o anoitecer e voluptuoso o mergulho no branco da gaivota. Parece haver passos nas nuvens e uma mão de quase chuva. Porque há-de haver um peixe sempre que falo do rio, não bastará o azul e a areia de construir o mundo, não bastará a palavra na margem para chamar a maré?
Deixo que as estrelas venham na sua navegação geométrica aparecer antes da foz. Podia pendurá-las junto à natalícia lareira, mas a chaminé ainda cheira a enchidos e a tímido eucalipto. Será que as gaivotas e as andorinhas do árctico têm das estrelas os olhos riscados, ou apenas uma láctea mancha de todos os excessos?
Ficaram passos no início da terra e no fim do mar. O que há de mais efémero que esta brisa que vai sempre atrasada para a sua morada mais além? Caiu a onda, como a cabeça no ombro, como uma boca na boca, ou, talvez, como todas as outras ondas. São os olhares que teimam em não ser só olhar que desvirtuam as coisas, que as despem, que as reinventam, é por isso que eu odeio esse olhar mesquinho, manso, míope, que guarda a virtude das coisas. Prostituo-me em cada olhar, como a gaivota que se dá a todo o vento, e não recuso dar-me a um novo horizonte ainda que em toque breve.
É preciso voar, é preciso voar! até que a luz do vento se apague e na tarde mínima o cordame da memória se dilua neste absoluto desejo de sem rumo para todos lados rumar...

quinta-feira, novembro 12, 2009

Esperar de olhos sentados...

Para olhar havia uma janela, um dia partiram o vidro e colocaram uma fotografia das Caraíbas, só que a areia escorreu ferindo os olhos... Vieram então os peixes de prata que rodearam o luar e cintilaram na fome do pescador. Um barco de junco entrelaçado veio do antigo Egipto e Cleópatra quis ver como se ama no futuro. Tanto tempo nos calendários, disse ela, e ainda assim continua a haver quem morra à míngua de palavras que não estão mais que um segundo nos lábios. Foi aí que chegaram uns estranhos que inabilmente mexeram no coração dos caranguejos e todas as paixões recuaram. Chamaram, com voz de haver ternura, as mulheres de olhos garridos, injectados de sonhos e sons vespertinos, e ninguém as esperou para colher as papoilas de ígnea brevidade. Logo, chegaram os vendedores de milagres, frios e fundos como a noite, mas irresistíveis como uns lábios que até servem para respirar. Ele há coisas de difícil dizer, ele há coisas de ser sem palavras, ele há coisas de terno e absoluto abandono, ele há coisas de esperar que aconteçam, ainda que isso me dê muito sono…